
Sozinha na varanda do "meu cantinho", apreciando as nuvens transformando-se em chuva, lembrei-me das tempestades da minha vida.
Tempestades no sentido literal.
Relâmpagos, trovões, enchentes.
Uma vez, na escola, começou uma chuva torrencial e a maioria das crianças procurou abrigar-se próxima à professora, que à época era chamada de "Dona" e não "Tia" como hoje.
Permaneci sentada, quieta no meu canto.
Quando indagada se não tinha medo, respondi que não. Naquela tenra idade não tinha medo de nada que conhecesse. Se me diziam para não ir a determinado lugar porque tinha bicho-papão, aí é que eu queria ir mesmo, para conhecê-lo. Portanto, também não tinha medo do que ainda não conhecia.
Mas um dia a chuva trouxe a enchente até a casa que habitávamos, à beira do rio, e com ela vieram as cobras. Aí conheci o medo. Talvez incutido pelos meus pais que temiam pela minha integridade diante da minha "petulância" de tudo querer ver, conhecer, tocar. Eu poderia me ferir seriamente por não temer nada e acreditar que as cobras eram inofensivas.
Depois disso não lembro de nada mais que tenha me trazido o sentimento de medo.
É certo que cobra não olho nem na TV.
Mas tirando cobra, não temo nada vivo, muito menos morto.
Sempre destemida, segui adiante. Enfrentando minhas batalhas, angústias, doenças, perdas, incertezas.
Mas medo, medo mesmo, de paralisar os movimentos, não me lembro de ter sentido por mais nada.
Mas dia desses, lendo o jornal, deparei-me com a notícia sobre uma mãe que havia jogado o filho no rio.
Senti um gosto amargo, um tanto esquecido, gosto de medo.
Hoje tenho mais um: medo da dureza do coração dos homens.