Mostrando postagens com marcador Memórias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Memórias. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de abril de 2012

GAVETAS DE CLARICE


Em 2009, quando ainda não carregava esse fardo que me impede de voar, estive no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, para apreciar a exposição "Clarice Lispector - A Hora da Estrela".
A montagem estava impecável, com televisores mostrando os transeuntes da Praça da Luz, a voz de Clarice em sua última entrevista, frases e imagens espalhadas de várias formas, documentos, tudo maravilhoso. Mas o que realmente me encantou foi uma sala onde as paredes foram forradas, literalmente, com 2.000 gavetas. O legal é que somente 65 delas abriam e os visitantes tinham que descobrir os tesouros (frases, livros, documentos, etc.) na imensidão das gavetas.


Não ouso falar sobre Clarice pois não estou à altura de conhecimento para tecer algum comentário. Clarice era Clarice, e só. Não haverá outra.
Mas o que eu quero falar é sobre aquelas paredes de gavetas.
Elas me remeteram à minha memória, que sempre disse ser um punhado de gavetas onde guardo minhas lembranças, imagens, recordações.
Como as gavetas de Clarice algumas estão emperradas, não abrem por mais que eu queira e tente, outras estão sempre abertas e posso acessar pessoas, imagens, fragmentos da minha vida.
Algumas gavetas fiz questão de colocar fora do alcance, talvez para evitar sofrimentos desnecessários.
Mas a mente é “mágico de circo”, quando menos se espera tira-se alguma coisa da cartola, ou seja, uma gaveta inacessível se abre, sem mais, nem menos, e traz uma lembrança que gostaria ficasse escondida.
Foi o que me aconteceu essa noite.
Uma gaveta se abriu e você veio em forma de sombras no meu sonho.
Não me assombrou, apenas continuou acompanhando-me, sombra perene, mesmo depois de o sol se por.

domingo, 6 de novembro de 2011

FALTAM ALGUMAS PÉTALAS


Li, em algum lugar, que Deus é extremamente piedoso para com as mulheres, pois, à medida que vai nos dando rugas, pés-de-galinha, vai tirando, aos pouquinhos, a visão... acho que é verdade uma vez que já sinto dificuldade em enxergar a sobrancelha por fazer, algum “cravinho” mais escuro ou mesmo as rugas, inevitáveis na minha idade. (poderiam ser descartadas com um bom bisturi, mas evitadas, nunca!)
Só que nenhuma leitura, nenhuma advertência, nem mesmo Ele, preparou-me para a perda da memória.
Pode ser efeito colateral dos medicamentos, da doença, pode (ou não) ser recuperável, mas é difícil conviver com essa situação.
Sempre tive uma memória privilegiada. Nunca precisei de agenda telefônica, trazia todos os números na minha agenda “memorística” e ela não me faltava. Lembrava-me de fatos ocorridos na mais tenra idade, com exatidão de detalhes, cores e odores.
Conhecia de cor todas as normas e regras que regiam nossas tarefas no serviço. Sabia onde estava arquivado cada documento, a ponto de, mais de ano depois de aposentada, ainda me telefonarem para perguntar sobre determinado assunto: e eu lembrava!
Comecei a perceber que as coisas não iam muito bem quando fui telefonar para uma das minhas melhores amigas (o mesmo número há mais de 20 anos) e liguei, diversas vezes, para o número errado.
Alguma coisa realmente estava fora do lugar.
Muita coisa se perdeu nos labirintos dos neurônios mortos.
Quero me lembrar de nomes e não consigo. De pessoas com as quais convivi, e é inútil. De situações e elas simplesmente desapareceram.
É triste constatar que perdi parte da minha história.
Há algum tempo, um amigo querido me escreveu e narrou um fato acontecido conosco e eu não consigo recuperar esse fato. Não sei em que curva do caminho do esquecimento ele ficou.
Sei que perdi muita coisa... só não sei onde procurar!
Sinto-me meio morta sem as minhas memórias. Onde antes havia uma colcha de retalhos, muito bem costurada, de gente, amores, lembranças, sentimentos, gostos, cheiros e sabores, agora existem buracos negros. Profundos. Minha alma não é mais inteira.
Faltam-me pedaços de mim. Como uma flor de quem foram tirando as pétalas.
É claro que muita coisa ainda carrego comigo: o primeiro beijo (argh!!!), os passeios com o meu primeiro e grande amor, as brincadeiras da infância... mas muitos desses acontecimentos estão povoados de fantasmas.
Diz a Gabi (minha filha) que agora eu fiquei normal... não concordo, mas é mais confortável aceitar.
Só queria mesmo era lembrar o sabor da água de um mar, numa manhã de sol, com o meu amado... esse, o sabor, acho que perdi para sempre, o amor, porém, esse vai comigo para a eternidade.

(imagem retirada da internet, sem indicação de autoria)



quinta-feira, 24 de março de 2011

ABRAM ALAS!!!



Como a maioria de vocês têm conhecimento, passei por maus pedaços nos últimos dois anos. No entanto, esse espaço, a presença dos amigos, foram fundamentais para que eu não desistisse, que insistisse em ser maior que a enfermidade que me acometeu e cujas sequelas carregarei "ad infinitum". Havia dias em que eu necessitava tomar 16, isso mesmo, dezesseis comprimidos.
Diante do inevitável, tomei algumas decisões que compartilharei com vocês.

- Seguindo minha intuição e diante das dores persistentes, apesar da quantidade de medicamentos, decidi ir diminuindo as doses para ver se piorava. Afe!!! Não piorou, continuou a mesma coisa, daí diminui a maior parte até parar definitivamente, mesmo porque meu estômago já não aguentava mais. Daí, hoje, tomo apenas 5 comprimidos. (Não pensem que sou louca de pedra, quando cheguei aos 5 conversei com meu médico que me apoiou!)

- Se a dor vai me acompanhar por um tempo que nenhum de nós sabe qual e se vai doer estando eu na minha casa ou em Paris, prefiro, mil vezes, sentir dor em Paris.

- A dor é meu limite, mas não é mais minha comandante! Explico: antes eu deixava de fazer uma série de coisas por precaução para que a danada não chegasse. Agora não deixo de fazer nada, só que quando ela chega eu me recolho! Não ia a uma festa achando que a dor não me deixaria apreciar, agora eu vou, aproveito, e quando fica insuportável, volto para casa. Todos compreendem e eu voltei a me divertir.

- Minha vida esteve por suspenso durante dois anos. Tomei-a de volta!

- A coisa que mais gosto na vida é viajar. Não viajava mais por causa da dita cuja. Decidi por à prova!

Gente: EU VIAJEI!!!!!

Tudo bem que foram só seis dias. Mas eu e meu esposo fomos conhecer Manaus!
E foi ótimo!
É claro que não abusei, que precisei tomar alguns analgésicos (tá bom, muitos), mas eu fui!
Ganhei mais uma batalha nesta vida!
Nos próximos dias começo a postar sobre a viagem.
Obrigada, de coração, a todos que passaram por aqui, que não desistiram de mim, que me deram (e dão) forças para continuar lutando. Vocês estão num espaço muito especial do meu coração!
Saibam que a Dona Morte pode até pensar em me levar, mas vou dar um trabalhão, acho que já provei!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

PELO CAMINHO


Amigos do Caminho

Caminhando pela estrada das estrelas
Palmilhando o norte da Espanha,
Nunca pensei pudesse crescer tanto
Junto àquela gente, a princípio, estranha.
Foi no caminho que aprendi
O significado da amizade verdadeira,
Que ultrapassa credo, cor, posição social,
Que quebra toda barreira.
Quando as dificuldades da língua
Tornavam impossível a compreensão
Aprendi a falar e escutar
Somente com o coração.
Aprendi o real significado
De palavras como tolerância e paciência,
Que às vezes temos que rever conceitos,
Que não podemos nos deixar levar pela aparência.
O caminho nivela a todos
Consegue a todos igualar
Pois ficamos reduzidos
Ao que suportamos carregar.
Tanta amizade sincera
Fiz por estas paragens,
Um sentimento tão profundo
Que não se vê em conhecidos de viagens.
Amigos que se foram,
Outros que deixei para trás,
Alguns que ainda seguem comigo
Outros que sei, não verei nunca mais.
E agora, meus companheiros queridos,
Que o caminho chega ao fim
Sobrou este vazio imenso,
A alma em chamas, esta dor em mim,
Este não saber o que fazer,
Pois a cada passo que dou
Se me aproxima de Deus,
Mais me afasta de vocês.


Arca - Espanha



quarta-feira, 28 de julho de 2010

DA SÉRIE COISAS QUE SÓ ACONTECEM COMIGO!


ALHOS & BUGALHOS

Ultimamente tenho passado maus bocados por conta do Morfeu, que resolveu me abandonar de vez... passo as noites acordada e quando consigo dormir já é dia claro!

Remédios já tomei uma batelada! Só que não funciona mais...

Simpatias? Todas que me ensinaram:

- copo com três pitadas de açúcar debaixo da cama, na altura da cabeça (já pensaram se minha insônia é diabética? rs),

- acender uma vela branca na hora exata da mudança da lua (6:18h) e pedir por sono,

- tirar do quarto todos os meus cristais porque podem acumular energias deletérias,

- ouvir cd indutor de meditação (já decorei os três que tenho... preciso comprar mais para ver se funciona),

- não assistir TV antes de dormir,

- ler somente leituras edificantes,

- fazer escalda pés,

- rezar...

E por aí vai...

Aí, conversando com meu terapeuta falei que ultimamente a falta de sono é o que mais me incomoda, porque as dores eu já estou acostumando, mas ficar sem dormir é f...

Então ele me disse que era para experimentar um chá, falou o nome da erva e disse que eu não ficasse ansiosa, que tomasse uma caneca bem grande e fosse fazer alguma coisa útil, escrever, trabalhar, que não ficasse “antenada” na falta do sono.

Bom, pra quem já vinha fazendo tudo... uma coisa a mais não seria problema.

Na mesma noite, quando deu mais ou menos uma da manhã, levantei, fui até o jardim, arranquei uns galhos de Alecrim e fiz quase uma jarra de chá. Tomei uma caneca, aos pouquinhos, e fiquei trabalhando no computador. Tomei a segunda, a terceira... por volta de 5:00 já não tinha chá nem sono.

Desisti...

Quando voltei para a outra sessão de terapia comentei com ele que havia feito o chá, tomado (e ido ao banheiro) a noite toda e nadica de nada do sono aparecer.

Ele me respondeu que o chá não induz ao sono, ele apenas limpa o organismo e que o sono é consequência. Daí ele me fez a pergunta fatídica:

- Mas você fez com manjericão fresco?

No que eu retruquei:

- Manjericão? Mas não era de alecrim????

Então, para que não aconteça com alguém o mesmo que aconteceu comigo vou passar as indicações:

ALECRIM - Ele aquece e estimula o cérebro e o corpo, é ótimo como cardiotônico, estimulante, anti-reumático, resolve rapidamente dores de estômago e asias, restitui a energia dos cansados e estressados por muito esforço mental. Também é bom para tosses, bronquites, e problemas respiratórios.

Usado externamente é bom para limpar feridas, principalmente de diabéticos e pessoas que tem dificuldades de cicatrização.

Os cardíacos podem usá-lo acompanhado de Sete Sangrias e Dente de Leão.

MANJERICÃO - favorece aos que têm digestão difícil, gazes, asia, dores de cabeça em conseqüência de alimentação pesada ou inadequada. Facilita o funcionamento dos intestinos, é diurético. Ë bom para tosses, vômitos, mau hálito. Ajuda, junto com a Malva e a sálvia nas infecções de boca.

Também é ótimo para cistite.

O manjericão age como pacificador e integrador na família..

Ele transmuta a nossa energia agressiva, transformando-a em vontade e força para brigar por coisas mais importantes como metas e ideais. Ajuda a brigar pela vida e pelas coisas que nós queremos.

É ótima para os desorganizados e indisciplinados.

Ajuda-nos a ver o brilho e o perfume da vida.

Aprenderam? Agora eu também!!!!

quinta-feira, 22 de julho de 2010

PALAS DE REI – MELIDE


E a saga segue seu curso... não sem antes agradecer ao meu querido Anjo da Guarda Mauricio, que mesmo quando eu xingo, não respondo, nem assim ele fica com raiva de mim... e ainda scaneia as fotos que eu não tirei!!!! ...Ah! nem adianta mandar largar do seu pé que é karma! ... Sei, também te amo, meu amigo!rs

Essa foto eu não poderia deixar de lado porque rendeu-nos boas gargalhadas... A gente passava e, às vezes, do nada, aparecia uma construção suspensa, com cruzes, elementos bíblicos, ora de madeira, ora de tijolo, e a gente tentava descobrir o que era, tentava "futucar" nas frestas, mas nada... como a maioria ficava no campo eu cismei que era onde eles colocavam os mortos. Um dia a Cris se encheu de razão, pegou um pedaço de pau e começou a tentar abrir uma fresta maior, nisso eu vim de trás, fiz "UUUUUUUUUUUUUUUU" e saí correndo fingindo estar assustada... ela disparou e só parou quando me viu me dobrando de rir... quase me bateu!

Daí nós resolvemos deixar de ser orgulhosos e perguntamos (o Mauricio, claro, a boa parte sempre sobrava para ele): Pois bem, chama-se Hórreo, também conhecido como Cabazo, Cabaceiro(a), Canastro ou Piorno é uma construção popular da região da Galícia, mas que se estende em outras zonas no norte ibérico. É destinada a secar, guardar e conservar o milho e outros cereais de ataques de ratos. Tem todo um simbolismo econômico na sua origem, quanto maior o Hórreo, maior a riqueza dos proprietários.
Este foi por fotografo por Mauricio em Gonzar, na saída de Portomarín.


Havíamos combinado percorrer só 15 km. Acredito que Cristina e Mauricio tenham feito esse acordo por piedade, mas não deixaram transparecer, e como estávamos muito bem acomodados e acompanhados nem nos preocupamos com as horas...

Erro fatal!

Acordamos com uma voz esganiçada (linguajar mineiro da Cris) aos berros, xingando e gritando que já tinha passado da hora de peregrino estar na estrada. Levei um susto tão grande que passei a juntar coisas, escovar dentes, lavar rosto, tudo ao mesmo tempo. Era a hospitaleira, que de hospitaleira só tinha o nome. Colocou todo mundo para fora, não respeitou Orlando e Micheline, um casal já “mais experiente”, tampouco o grupo de excepcionais.

Resolvemos fazer o desdejum num bar bem em frente ao albergue... segundo erro em tão pouco tempo!

As torradas vieram da parte reservada do restaurante já lambrecadas com uma coisa que parecia geléia passada da validade, rançosa. Uma senhora velha, gorda e porca, que limpava as mãos e o rosto com o mesmo pano que limpava o balcão, nos serviu rindo e mostrando os dentes todos estragados, sem contar o cheiro... A soma de tudo revolveu meu estômago e eu e Mauricio saímos sem comer, mas pagamos. A Madre Cristina de Calcutá ficou e comeu, por pena da senhora... Nós comemos em outro lugar.

E pé na estrada!

Também já eram 9 horas, isso lá é hora de peregrino sair? rs

Apesar da hora tinha muita neblina. Para nossa surpresa caminhamos muito tempo por dentro de bosques, o que foi muito agradável, mas não impediu do meu pé logo dar sinal de vida (ou de morte!). Porque volta e meia, ou melhor, subida e descida, apareciam uns atoleiros danados e difíceis de ultrapassar. Aí vocês podem perguntar, mas porque a demente não foi pelas pedras? As pedras acabavam no meio maior do lamaçal.

Chegamos cedo a Melide e pra variar a primeira coisa que fomos ver foram os banheiros. Só um chuveiro tinha porta. Eu e Cris corremos para tomar banho antes que ficássemos abertas à visitação pública nos boxes sem nem uma cortininha... água escaldante! Deliciosa!!!

Cris foi descansar e eu fui lavar roupa, comprar comida, coisa básica!

Quando voltei a Cris disse que ia sair para almoçar, eu e Mauricio já havíamos comido e ficamos no albergue.

Daí um tempo chega a Cris revoltada e rosada, para não dizer roxa, dizendo que tinha visto um anúncio num restaurante de um arroz com frango, naquela altura estávamos loucos para comer arroz, daí ela pediu... veio salada de entrada e foi só o que ela conseguiu comer, o tal arroz estava intragável, e enquanto tentava comer “encheu os chifres de vinho rosé”.

Convidei a Cris para conhecermos a cidade, calçada com Havaianas é claro!

Fachada da Iglesia de la Virgen de las Nieves - Leboreiro (caminho)

Quando estávamos de volta ao albergue só ouvi a Cris conversando em portunhol com um desconhecido e dizendo: “A Kátia sabe. Ela sabe tudo”, fiquei curiosa e fui ver. Era o marido de Ângeles que havia conseguido uma folga e estava percorrendo o Caminho de bicicleta em busca da esposa. Peguei minhas anotações, vi a última vez que estivemos juntas, mais os cálculos de bruxa e disse: Pode pedalar até Arzúa que ela está lá.

E não é que estava mesmo!!!!

A gente evitava conversar sobre o dia seguinte. Nosso tempo estava se esvaindo. Santiago chegando... e ao mesmo tempo uma vontade louca de continuar no Caminho...

Nem fotos eu queria mais tirar... era como se começasse a abrir um rombo dentro do meu peito, neste rombo tinha medo, tristeza, lágrimas não vertidas, palavras não ditas, saudade antecipada.

A chegada, ao mesmo tempo que representava nossa vitória, representava também adeus, despedida... e é tão triste separarmos daqueles que aprendemos a amar.

No coração só a certeza que nunca mais era nunca mais mesmo.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

SANTIAGO DE COMPOSTELA - O RETORNO

PORTOMARÍN – PALAS DE REI

Preâmbulo: Estava eu a contar minha (ou melhor, nossa, já que Mauricio e Cristina são companheiros de caminhada, reflexão, dores e risos) Saga pelo Caminho de Santiago de Compostela, daí adoeci e tive que interromper, já que as dores, internações, etc. impediam-me até de pensar... então, os capítulos anteriores vocês encontrarão no tag "Santiago de Compostela".
Estou reeditando o último percurso para, daqui em diante, seguir com a história.
Talvez necessitasse desse longo tempo para reavaliar valores e vivências!

Preâmbulo 2 (se é que existe rs): Quero agradecer à Vanuza Pantaleão pela linda homenagem que me prestou em seu último post. Fico emocionada e com um compromisso ainda maior em não decepciona-la.

Preâmbulo 3 (hahahaha): Pode ser que eu ainda tenha que "desaparecer" por algum tempo, essas idas e vindas para hospital já são rotina, mas prometo avisar!

Então vamos lá caminhar minha gente

Saída de Portomarín

Nesse dia acordamos cedo. Queríamos evitar o sol forte da tarde, portanto levantamos por volta de cinco da manhã, tomamos nosso café, e antes das seis já estávamos com o pé na estrada. Mas parecia noite. Lua cheia, ainda alta no céu. Não dava para ver onde pisava. Entretanto, Deus, na sua generosidade, presenteou-nos com um belíssimo amanhecer. Parecia o despertar da Terra! Indescritível!
Bem, foi só o que consegui fotografar...
Depois de três dias caminhando sem mochila até que o início não foi tão penoso, mas, à medida que os quilômetros iam ficando para trás (foram 22 naquele dia) e o sol cozinhava nossos miolos foi ficando quase insuportável. Mas eu também não podia ficar repetindo, a toda hora, que estava sentindo dor.
Primeiro: Ninguém merece uma pessoa lamuriando-se o tempo todo.
Segundo: Reclamar não vai aliviar a dor.
Terceiro: Eu tinha outra escolha... então... era fé em Deus e pé na trilha!

Caminho Portomarín - Palas de Rei

Lembro-me de ter rezado muito naquele dia. Não por mim, porque como disse eu havia escolhido ir até o fim, mas rezei por aqueles que gostariam de estar no meu lugar (mesmo com as dores) e talvez nunca tivessem a chance, pelos meus amigos, pela dádiva de ter a família que tenho, pela minha mãe que se recuperava do primeiro câncer, pela humanidade, pela paz.
Rezar ajudava-me a ter força para seguir adiante.
Por volta de duas da tarde chegamos a Palas de Rei.
O Albergue é dividido em vários quartos, subdivididos em três repartições com quatro camas cada. Eu e Cris ficamos com Orlando e Micheline, Mauricio ficou na repartição ao lado, e também tinha uma família de espanhóis conosco.
Como eram só três homens, eles tiveram a cortesia de deixar as mulheres tomarem banho primeiro, uma vez que os chuveiros não tinham nem cortininha...

Parêntesis 1: Banheiros – eu deveria dedicar um capítulo inteiro aos banheiros (ou ausência de) durante o caminho. Tinha banheiro de todo tipo. Banheiros individuais, separados por sexo, unissex, com porta, sem porta, de todos as maneiras que vocês puderem imaginar. Para nós, brasileiros, acostumados à privacidade, era meio difícil, então quando eram vários chuveiros do tipo chuveiros de sauna, sem porta, homem e mulher junto, eu e Cris escolhíamos os últimos e colocávamos o Mauricio de prontidão para que ninguém passasse! (Pobre Mauricio!)


Amanhecer

Pois bem, depois do banho eu, que já estava péssima, fiquei pior ainda, pois descobri mais duas bolhas, sendo uma exatamente ao lado da que estava infeccionada. É claro que chorona como sou, abri a torneira. A Cris, penalizada, chorava comigo e rezava dizendo que eu não merecia tanto sofrimento. Minha vontade era dormir e não acordar nunca mais.
A Cris foi lavar todas as nossas roupas (o albergue tinha máquina de lavar) e Mauricio cuidou de drenar minhas bolhas.
Fiquei descansando. A Cris me contou que tinham dois jovens acompanhando um grupo de adolescentes com Síndrome de Dawn e que ficou emocionada e encantada com o carinho e a dedicação que eles tinham para com os meninos...
Saí apenas para comer, daí não ter fotos de Palas de Rei.
Como eu não agüentaria caminhar muito mesmo, combinamos que levantaríamos mais tarde, no dia seguinte e iríamos somente até Melide, uma caminhada de 15 km.

sexta-feira, 5 de março de 2010

SOMA DE DIAS

PORQUE É MEU ANIVERSÁRIO!

Houve um tempo em que eu adorava aniversário. Minha mãe ralhava (palavra antiga, né?) comigo dizendo que eu só sabia “inventar moda”, mesmo que essa “inventação” se resumisse a K-suco de guaraná e um bolo feito em casa mesmo.

Os anos foram passando e eu continuei gostando dessas comemorações. As melhores eram as promovidas pelos colegas de serviço, tudo na maior surdina para que fosse surpresa e que nunca ficava escondido... mas eu fazia cara que não sabia de nada para não estragar a festa.

Durante alguns anos eu estacionei minha idade na casa do 32. Era uma idade bonita e o medo de envelhecer havia me pego de jeito. Fiquei tanto tempo que meu sobrinho, que nem havia nascido quando eu realmente fiz 32, aprendeu a fazer contas e roubou minha carteira de identidade para descobrir a verdade, porque ele não conseguia entender porque a mãe dele, sendo só dois anos mais velha que eu, conseguia ser tão mais velha!

Depois eu comemorei, em grande estilo, os 39... porque 40 marca muito e todo mundo comemora! rs

Mas depois daí, na verdade, tive dois aniversários felizes. Um pela companhia e o outro, de meio século, porque consegui reunir amigas de todas as fases da minha vida.

Hoje já não vejo graça em festejar minha soma de dias... Os anos correm silenciosos, como se calçassem pantufas, rindo da gente em silêncio. Um belo dia nos assustam ao olharmo-nos no espelho, ou nos acertam em cheio a memória, ou os joelhos, ou o estômago e nos cravam um punhal nas costas. A velhice nos ataca, silenciosa, dia a dia. Mas há uma época em que ela é implacável. Creio que enfrento essa época.

Olho-me no espelho e não consigo reconhecer-me. Dói-me, ainda, o corpo. Meu último aniversário foi passado no hospital.

Muitos dirão: você está viva! Quer motivo melhor para comemorar? Têm razão, reconheço... mas me falta alegria, ânimo, vontade. A soma dos meus dias se acumula com a soma das minhas tristezas dos últimos tempos. É um fardo pesado demais. Pode ser que um dia eu me livre deste peso ou me acostume com ele e volte a gostar de “inventar moda”. Mas, por enquanto, ainda prefiro a solidão, o isolamento.

Os budistas dizem que a vida é um rio, que navegamos numa balsa para o destino final. - Sobre esse tema tem uma crônica linda do meu amigo no blog Desvendando Caminhos, onde a teoria dele sobre o rio da vida é muito melhor que a minha... mas voltemos ao assunto - O rio tem sua corrente, velocidade, redemoinhos, ora estreito, ora caudaloso, pedras e outros obstáculos que não podemos controlar, mas contamos com a ajuda de um remo (um só!) para dirigir a embarcação sobre a água e no rumo certo. Da nossa habilidade depende a qualidade da viagem, mas o curso não pode ser mudado, porque o rio desemboca sempre no mar da morte.

Embora eu ainda tente segurar o sol, deleitar-me com o luar, amar e ser amada, às vezes, em sonho, eu entrevejo esse mar...


quinta-feira, 22 de outubro de 2009

PASSO E COMPASSO

Dia desses estava pensando nos rumos (ou a falta deles) que a minha vida tomou neste ano. Foram tantas surpresas: doenças-surpresas, diagnósticos-surpresas, falta de diagnósticos ainda mais surpreendentes e por aí vai...
A única coisa que não foi surpreendente foi a qualidade e quantidade de amigos sinceros que tenho espalhados pelo mundo, perto e distantes, conhecidos e ainda por conhecer, mas amigos da melhor estirpe!
Agora, que estou, mais uma vez, prestes a encontrar um novo e desconhecido (para mim) diagnóstico, que provavelmente me levará outra vez para o hospital, lembrei-me de um poema que escrevi há muito tempo, décadas...
Acho que chegou a hora de aceitar esse novo passo, redescobrir um compasso, tentar ser feliz.

(Imagem ilustrativa retirada da internet - infelizmente não tenho fotos da "nossa" banda)

Acelere o passo,
Diminua o compasso.
Vestidos de laranja, azul-turquesa e dourado
Galões refletindo sob o sol
Éramos mais que uma banda marcial.
Éramos jovens, unidos, destemidos,
Tendo sonhos por ideal.
Acerte o passo,
Atenção ao compasso.
Juntos enfrentávamos qualquer desafio.
Obstáculos? Vencíamos todos.
Nada nos detinha.
Éramos felizes porque éramos jovens
Ou éramos jovens porque éramos felizes?
Diminuía o passo,
Acelere o compasso.
O tempo passou...
Seguimos por caminhos diferentes
E hoje, faria qualquer sacrifício
Para de novo me vestir
De laranja, turquesa e galões,
E, assim, superar os obstáculos,
Vencer os desafios,
Digladiar contra os meus dragões.
Mas, quando face a face, me olho no espelho,
Só vejo vazio, cansaço, solidão.
Nem sombra da jovem destemida que fui.
Aonde foram parar meus sonhos?
Estarão adormecidos
Ou morreram com a minha juventude?
Abaixo os olhos, envergonhada de mim mesma
Por ter-me dado por vencida,
Pelos sonhos que não persegui.
Quando estou prestes a virar-me e,
Mais uma vez desistir,
Ouço uma voz ao longe:
Redescubra seu passo,
Invente um novo compasso,
Ainda é tempo de ser feliz!

(Autora: Kátia Corrêa De Carli)

domingo, 20 de setembro de 2009

UM MONSTRO À SOLTA

(Fonte barcelonadream.blogs.sapo.pt)

Com essa minha imobilização temporária (creio eu), tenho ficado muito em casa, o que para mim é um tormento, pois, como dizia a minha mãe, eu sou muito “rueira”.
Mas essa semana eu tive alguns compromissos e meus filhos e marido serviram de motorista, o que me permitiu passear e observar as ruas, as praças, os lugares por onde passava.
Levei foi um grande susto!
Logo na pracinha de Jucutuquara* quando olho para o lado da antiga fábrica de tecidos, cadê a casa dos “donos” da Braspérola? Sumiu! Só sobrou o muro... Mas como a Prefeitura destruiu a antiga fábrica dizendo que ia fazer um espaço de artes e eu só enxergo a fachada e um grande vazio atrás, pensei com meus botões, vai ver a prefeitura também comprou a casa e vai fazer alguma coisa boa para a comunidade, mas precisava derrubar aquele casarão antigo tão lindo?
Seguimos em direção ao centro da cidade e logo depois da curva do Forte São João, outro susto, onde já haviam derrubado o velho Restaurante Universitário, agora sumiu também a casa da frente, uma que tinha lindas janelas verdes.
Na volta, passamos por Bento Ferreira e as casas lá também estão sumindo do dia para a noite. Você passa a casa está lá, dois ou três dias depois, ela some inteirinha. O mesmo está acontecendo na Praia do Canto. Isso porque meu passeio se restringiu a esses bairros, imagino o que não estará acontecendo por toda a cidade!
Logo nós, capixabas, que temos como característica a utilização de casas, prédios, pontos comerciais como pontos de referência, o que iremos fazer se estão destruindo tudo?
Olho aquelas paredes que sobram e vejo azulejos brancos, algumas partes com azulejos coloridos, intermediados de paredes de cores diversas e fico pensando o quanto de história está sendo jogada no lixo. Quantos segredos aquelas paredes ouviram. Juras de amor. Brigas pra nunca mais que duravam poucas horas. Primeiros choros de bebês que nasceram rodeados dos que mais os amavam. Casos de vida e de morte.
Parte da minha história, na cidade do interior, já foi devorada e lhes digo, a sensação não é nada boa. Onde antes havia uma cozinha com cheiros que se acessavam a um olhar, hoje só sobrou chão.
Minha conclusão é que tem um monstro à solta comendo nossa história.
Acho que ele se alimenta das lembranças que ficam abrigadas nas antigas casas, por isso, à noite, ele sai e as devora.

*Jucutuquara - 0 nome Jucutuquara, JUCU-ITA-QUERA, é de origem indígena e significa "pássaro do buraco de pedra" ou YTICUTUQUARA, que significa "conchas suspensas", condizentes com a forma dos buracos da "Pedra dos Olhos" localizada na área e batizada pela própria natureza. As mutações lingüísticas fizeram valer a linguagem popular: Jucutuquara. Nome da antiga fazenda que havia no lugar, pertencente à família Monjardim, século XIX.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

NENHUM JURAMENTO É ETERNO


Quando pensei em escrever esta crônica a primeira coisa que me veio à cabeça foi um “pedacinho” de uma música da Dolores Duran, onde ela cantava:
“...Tem gente que jura que não volta mais
Mas jura sabendo que não é capaz.”
Pois é, quase ao mesmo tempo que aprendemos a falar aprendemos, também, a fazer os mais diversos juramentos.
Na minha infância, quando umas palmadas ainda eram método de aprendizagem e eu aprontava alguma (o que não é nenhuma novidade!), logo que era pega, para escapar das ditas cujas, jurava, no ato, nunca mais repetir aquela arte.
Depois, já na escola de catecismo, aprendi a acrescentar o “juro por Deus” e meus pais acabavam me perdoando mesmo sabendo que eu iria repetir a ação na primeira oportunidade.
Lembro dos banhos de cachoeira, sempre às escondidas, e as palmadas e castigos porque meu pai dizia que eu ia “pegar caramujo” (esquitossomose), o que não deu outra, eu apanhava, jurava não repetir, e depois fazia tudo outra vez achando que os cabelos molhados não iriam me denunciar.
E assim a vida ia passando.
Quando quase fui expulsa do colégio, de tanto aprontar, jurei que me tornaria comportada igual à minha irmã. Mesmo todos sabendo que era a maior mentira da paróquia.
Quando o grande primeiro amor acabou, só do lado dele, porque amor não combina de acabar dos dois lados ao mesmo tempo, jurei nunca mais amar, doía muito. Até que durou um tempinho... rs, mas voltei a amar, ainda bem!
Nas dores do parto jurei não ter mais filhos... juramento que durou um ano e pouquinho, graças a Deus!
Isso só para ficar nos juramentos mais marcantes.
E de juramento em juramento fui levando a vida.
Aqueles que me acompanham mais amiúde, devem lembrar-se o quanto sofri quando o Thunder, cão da Gabi, morreu. (http://katiamultiplasfaces.blogspot.com/2008/09/menina-e-seu-co.html)
Jurei, então, que nunca mais ia querer mais nada na minha vida que respirasse. Isso porque marido e filhos não requerem cuidados especiais para sobreviverem.
Bati o pé e repeti mil vezes que não aceitaria mais nenhum animal. Era trabalho demais, gasto demais, sofrimento demais, sem contar que acabava prendendo a gente em casa.
Pois bem, sexta-feira, hora do almoço, chego da fisioterapia e encontro um filhote de cachorro na minha área de serviço. A cadela que vigia a obra de um empreendimento do qual meu marido é sócio havia dado cria a 9 filhotes e estavam todos morrendo ou desaparecendo, meu marido, com dó do cachorrinho, trouxe-o para casa. Quando bati os olhos naquele olhar de cão abandonado, meu coração se encheu de piedade e não tive coragem de mandá-lo embora.
Mais um juramento quebrado.
Nossa casa e nossos corações agora abrigam um dalit (ele é tão bonitinho que não merece ser chamado de vira-lata) que já está até aprendendo a atender pelo nome que, para seguir a linhagem, Thunder, Flash... e como ele não é bramani, ficou sendo Chuvisco mesmo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

PORQUE RIR AINDA É O MELHOR REMÉDIO...

Estação de trem, metrô, etc em Berlim

OU PODERIA SER MAIS UM DA SÉRIE “COISAS QUE SÓ ACONTECEM COMIGO”
Estávamos nós em plena Europa, eu, meu marido e nossos vizinhos.
Cabe um parêntesis para que vocês compreendam as reações que virão, eu e eles somos amigos desde que nascemos, freqüentamos as mesmas escolas, moramos na mesma rua (é certo que na nossa cidade só existiam três principais, rs), seguimos nossas vidas juntos e eu os considero como irmãos, daí termos a intimidade que muitos irmãos consangüíneos não têm.
Já havíamos viajado por quase um mês, passeado bastante, rido bastante (dos outros e de nós mesmos) e, principalmente, comprado um monte de tranqueira. Para vocês terem idéia eu tive coragem de comprar uma chaleira e um escorredor de macarrão, logo no início da viagem, na Alemanha, e carregá-los pela Itália e França afora, sem contar a volta pela Alemanha... só coisa de brasileiro doido, ou seja, euzinha! Mas enquanto ele me zoava por causa da chaleira, eu o lembrava que no fundo de sua mala tinha dois serrotes!
Ainda no Brasil nós havíamos conseguido comprar passagens aéreas Milão-Berlim a preço de banana. Como fizemos todo o percurso em terras estrangeiras de trem, este foi o único trecho que necessitamos de avião para cumprirmos o roteiro que nos propusemos.
Tudo uma maravilha. Até que chegamos ao aeroporto de Milão. Embora tenhamos usado de todos os artifícios (bolsas de mão enormes, homens com mochilas, etc.), o peso de nossa bagagem excedeu um absurdo e lá fomos nós, depois de muita negociação, pagar o excesso: saiu mais caro que as passagens! Levamos na esportiva e seguimos em frente.
Ficamos uns dias em Berlim e depois seguimos para Frankfurt, de trem. Eu e o Roberto tínhamos duas malas (pesadíssimas), duas mochilas, uma bolsa de mão e mais minha bolsa pessoal, tudo isso para colocar dentro do trem – uma peripécia e tirar depois – outra maior ainda! Resultado, quando, enfim, chegamos ao aeroporto, despachamos as bagagens, etc. e tal, o Roberto estava tão suado que era impossível viajar quase doze horas naquela situação. Bem à nossa frente tinha uma lojinha da Nike, então eu disse: - Vocês me esperam aqui, eu vou à loja, compro a camisa mais barata que encontrar, volto, o Roberto vai ao banheiro, se lava e troca de camisa. Lembrei de um desodorante que eu havia esquecido na bagagem de mão e daí ele aproveitava para usar e jogar fora, porque eles não estavam aliviando quanto ao embarque de líquidos.
Estava eu no interior da loja quando, ao virar-me, um homem alto, afro-descendente, esbarra em mim e, educadamente, diz: - Sorry!
Ao mesmo tempo meus dois neurônios se ligaram e mandaram a mensagem de que eu conhecia aquela pessoa. Então respondi: - Não foi nada, pode falar em português mesmo!
Nós então, entabulamos uma conversa:
- Brasileira! Que alegria! Está chegando ou partindo?
- Estou indo para o Brasil e você?
Ele olha para mim com aquele olhar de “conheço você de algum lugar, mas de onde?” e eu, que perco tudo, mas não perco a pose, também fingi lembrar-me de onde o conhecia. Então continuamos conversando como velhos amigos que se encontram.
- Estou indo para Milão, disse ele.
- Acabo de chegar de lá, disse eu.
- Está muito frio?
- Não, está agradável. Quando você vai ao Brasil?
- Assim que tiver uma folga...
Nesta altura já estávamos na fila do caixa e a moça se desdobrando em amabilidades para atender-nos.
- Sinto muita saudade do Brasil,
- É assim mesmo, quando estamos fora do nosso país. Mas a gente acaba se acostumando, digo eu.
Pagamos e ele resolve olhar uns bonés, então nos despedimos:
- Tchau, foi um prazer te ver – disse ele.
- Tchau, também adorei te reencontrar, a gente se vê por aí – respondo eu.
Beijinhos para cá, beijinhos para lá, e eu saio da loja.
Encontro meu grupo e digo para eles, vamos ficar aqui, na moita, escondidos atrás desta pilastra porque vai sair um moreno alto da loja, que eu fiquei conversando um tempão, mas não consigo lembrar de onde eu conheço.
Assim fizemos. Estava meio dispersa quando, de repente, meu amigo me dá um safanão e pergunta:
- É aquele?
– Sim, sim, é... respondo.
E o meu amigo:
- É claro que você conhece, sua demente! Sabe de onde? Da televisão! É o Gilberto Silva, da Seleção!

quinta-feira, 30 de julho de 2009

QUE VOCÊ NUNCA SE ESQUEÇA...



A gente passa a maior parte das nossas vidas correndo atrás das coisas que julgamos serem indispensáveis para que vivamos bem. Necessitamos de tanta coisa que a lista só vai aumentando. Se temos um apartamento de 60 m² precisamos de um de 100. Quando temos o de 100, já não é suficiente. Se moramos em apartamento só seremos felizes numa casa com quintal e cachorro; quando temos a casa, o quintal, o cachorro (e toda a sujeira que vem junto) queremos o apartamento. Se temos um carro comum, queremos automático. Se velho, queremos outro mais novo. E assim os dias, os anos vão passando e quando nos damos conta passamos quase toda nossa existência acumulando bens materiais.
E o que fizemos das pessoas que cruzaram nossos caminhos?
Quantas vezes deixamos que elas saiam de nossas vidas por pura falta de tempo, gastamos nosso tempo acumulando coisas, às vezes também pessoas, mas quanto tempo gastamos cultivando e cuidando daqueles que cruzaram nossos caminhos?
A maioria daqueles que me conhecem sabem que agradeço a Deus todos os dias pela graça de ter tantos amigos. Sou abençoada neste aspecto. Mas depois de tudo que me aconteceu eu fiquei imaginando o que teria acontecido com as pessoas que foram importantes na minha vida e que perdi.
Perdi para o tempo, para a distância, alguns pra a morte, para a correria dos anos que passei acumulando coisas.
Quando a “Dona Morte” cismou em querer me visitar, o máximo que fez foi me fazer perceber o quanto a gente deixa de dizer e fazer pelo outro, na suposição de que é desnecessário porque ele já sabe. E assim deixamos de dar aquele abraço de verdade, que abarca o físico e também a energia. Deixamos de dizer “eu te amo” ao amigo querido, aos nossos filhos, aos pais (quem ainda os tem)... o “eu te amo” fica, quase sempre, restrito ao amor físico e, quando muito, o dizemos aos nossos companheiros(as).
“Ela” também despertou em mim o desejo de saber o destino de algumas pessoas que passaram pela minha vida e que eu deixei que se fossem.
Assim, comecei a pesquisar na internet buscando uma pessoa a quem eu tenho um grande carinho, muito embora na última vez que nos vimos eu tivesse apenas 18 anos.
O tempo não conseguiu apagar todos os momentos que passamos juntos, o que crescemos juntos, o que aprontamos...
Ele foi um dos rapazes que fez a minha adolescência ser tão feliz.
Com ele dancei muitos bailes, ele me dava coragem para participar do roubo da “luz negra” – única da cidade - pertencente ao “padre bravo” para fazermos nossas boates no terraço da sua casa no período de férias, por ele eu viajava horas em estrada de chão, sacolejando naqueles ônibus de interior.
Com ele descobri amar longe e que distância é uma questão somente física (embora só viesse a ter consciência disso muito tempo depois).
Com ele eu vivi meu amor adolescente.
Brigávamos tanto que depois de umas três idas e vindas decidimos ser só amigos... e que amigos maravilhosos teríamos sido se a vida (ou o destino) não tivesse nos separado.
Hoje, depois de muita procura, eu o encontrei.
Falamo-nos ao telefone, rimos, brincamos, nos emocionamos... mas era pouco tempo para tanta vida separada.
Sei que muitas pessoas não compreendem como uma mulher casada sai procurando outro homem, ainda mais um ex-namorado. Ainda bem que meu marido tem a cabeça aberta e valoriza as amizades tanto quanto eu.
Por isso, meu querido amigo rencontrado, que você nunca se esqueça: Você é um capítulo muito bonito da minha história e que eu te amo.

PS1: Preservo a identidade do meu amigo porque ele (ainda) não sabe deste post.
PS2: Muito a contragosto estou tentando me adaptar às novas regras ortográficas (mas me recuso a escrever lingüiça sem trema).
PS3: Ele entende a foto... rs

sexta-feira, 3 de julho de 2009

PRIMEIRO AMOR

Minha mãe sempre dizia que depois de certo tempo de vida, quando os filhos dos amigos já casaram (na época em que se ainda casava) as pessoas só se encontravam em velórios. E ela tinha uma maneira toda especial de avaliar os velórios: se encontrava muitos amigos, se o falecido era pranteado como merecia, ela dizia que o velório estava “muito animado”. Com o tempo fui entendendo o que ela queria dizer com isso, embora ainda não saiba explicar bem. Não é falta de respeito, nem ausência de dor pela partida... é uma coisa diferente.
Mas isso é só para dizer que estava num velório de uma pessoa muito, muito querida, quando me deparei com meu primeiro e grande amor.
Não que não tivessem existido outros namorados antes dele... existiram, fui uma adolescente “namoradeira”... mas amor mesmo, “sem a qual a vida é nada, sem a qual se quer morrer”, ele foi o primeiro. Acreditava que seria o único, daí o luto e o trauma terem demorado tanto tempo.
Uma amiga “daqueles tempos” foi logo sussurrando ao meu ouvido: “E aí? As pernas ainda tremem?” com aquele sorriso maroto que só grandes amigas compreendem.
Isso me fez pensar sobre o que perdi e o que ganhei com esse amor.
Por muito tempo pensei que só houve perdas. Perdi a esperança, a fé no sexo oposto, a crença que nunca mais amaria outra vez um amor do tipo “os seus olhos têm que ser só dos meus olhos, os seus braços o meu ninho”.
Na adolescência vive-se tragicamente. Tudo toma proporções maiores que as devidas. Talvez por isso, por ele eu lutaria contra tudo e todos. Faria qualquer sacrifício. Seria até submissa.
Mas ele não quis. E terminou comigo.
Quis morrer. Chorei por muito, muito tempo. Os cabelos, que iam até as costas, foram cortados curtinhos, como forma de vingança. Só não joguei para Iemanjá porque na minha terra não tem mar, nem Iemanjá.
A partir daí passei a namorar só três meses.
Tempo exato para aproveitar o que de melhor tem um relacionamento e também exato para não me apaixonar.
O tempo passou. Conheci outras formas de amar. Menos trágicas. Outras mais intensas. Mas o mais importante é que descobri que não se ama só uma vez.
Porém, naquele dia, quando o vi novamente, depois de décadas, devo confessar: sim, as pernas tremeram! Enxerguei o príncipe pelo qual eu havia sido apaixonada (que pela avaliação da minha irmã só existiu na minha cabeça). Mas meus olhos haviam mudado. Talvez lavados pelas lágrimas que a vida me impôs consegui ver que não teria dado certo.
Mas dei-lhe um abraço apertado e em silêncio agradeci-lhe pelas emoções boas e ruins que me fez conhecer.
Agradeci por aquele primeiro amor cheio de planos, desejos reprimidos, descobertas, coração acelerado, pureza de alma...
É o primeiro amor... Único...
De tudo, o que mais sinto é a falta da pureza da alma que perdi, não sei onde, nem como, nem com quem... mas trago a certeza de que uma parte de mim ficou, lá atrás, junto com aquele primeiro amor e refaço o percurso dos versos:
“Você tem que me fazer um juramento, de só ter um pensamento, ser só minha até morrer”.
A parte de mim que ainda é sua, jura.