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domingo, 7 de novembro de 2010

FUI SOTERRADA POR E-MAILS



Tudo começou quando adoeci.

Sem disposição e condições de acessar meus e-mails, a caixa de entrada foi enchendo, enchendo e quando eu fui ver tinha mais de duas mil mensagens sem ler.

Tentei, de todas as formas, colocar as mensagens em dia. Jurei que todos os dias iria ler as mensagens do dia e mais umas dez das atrasadas.

Não consegui.

A cada dia chegavam mais mensagens e eu não conseguia nem ler as do dia.

Daí deixei de lado e passei a ler as que interessavam. Criei uma pasta – “ler um dia” - e coloquei mensagens que conhecia o remetente e cujo assunto poderia me interessar, e fui deixando as outras.

Hoje eu tenho, exatamente, 3.569 mensagens sem ler. Isso sem contar a pasta de spam!

Dias desses resolvi dar uma “olhada” nos assuntos.

Ofertas de todo tipo: celulares por 699, geladeira a 2998, 159 o kit de casal, puffs por 39,90...

Promoções, as mais diversas: livros, bijuterias, jóias, remédios, som automotivo, etc.

Mas o que me chamou a atenção foram os cursos.

Um me oferecia, gratuitamente, curso de ator, bastava "clickar" num determinado link e mandar o convite para 20 amigos.

Outro, intitulado “Por que aumentar sua autoestima” trazia uma série de artigos, entre eles “FOGO ACESSO – Mulher de 75 anos, casada, bem resolvida financeiramente, tem amante de 35. Por que não?”, e eu só fiquei no “aé??? O que que eu tenho com isso?

Tinha um cujo assunto era “localização de celular”. Alguém dizendo-se “Advogado Virtual” se oferecia para localizar “pessoas, documentos, endereços/telefones residencial e comercial, emails, parentes e vizinhos” por apenas 69,00.

Sem contar um, diretamente da Suíça, me oferecendo um legítimo Rolex.

Até aí tudo bem, fui olhando, deletando.

Mas me deparei com um que me tirou do sério. Assunto: “Procedimentos para aumentar seu pênis”. Uma vez que não possuo tal órgão, será que pensaram que me interessaria aumentar o pênis do meu marido? Ou, talvez, seriam ensinamentos para uma próxima encarnação? Ou será que queriam me arregimentar como multiplicadora? Que interesse tenho eu em aumentar o pênis de quem quer que seja?

Depois desta, deletei tudo. Sei que ao final do mês terei mais de uma centena de e-mails sem ler, é uma vitória momentânea, pois nessa batalha inglória, os e-mails sempre ganham.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

PROCURA



Ela saiu do hotel sem explicações e sem olhar para trás.

Mesmo porque nem mesmo sabia para onde ia.

Caminhava tranqüila, passos firmes, porém lentos, em contraste com a multidão que passava a largos passos a seu lado.

Ela não tinha pressa.

A única coisa que queria era percorrer cantos, recantos e no olhar de encanto já esquecido, encontrar o que só ela sabia que perdera há anos, muitos anos atrás.

E assim foi.

Parques, avenidas, cinema, em cada pedacinho olhava atenta para ver se encontrava.

No seu olhar não havia mais tristeza nem lágrimas.

Olhar seco de mulher vivida, olhos límpidos, sem mágoas.

Sentou num banco do parque, relembrou as histórias que ouviu. Relembrou, palavra por palavra, de quando ouvira pela primeira vez sobre o Dia do Perdão.

Nesses anos ela aprendera a perdoar.

Porém, o perdão mais difícil, ela só conseguiria se encontrasse o que perdeu nessa cidade dantes desconhecida.

Não adiantou.

Por mais que relembrasse, andasse, procurasse... não encontrava.

Desistiu.

Viveria assim, sem aquela parte tão especial que havia, sem se dar conta, deixado escapar.

Arrumou a valise.

Pagou a conta do hotel. (Sempre o mesmo hotel!)

Tomou o táxi e encaminhou-se para o aeroporto.

Somente lá se deu conta que era um lugar que não havia procurado.

Despachou a valise.

Subiu um andar.

Entrou na capela.

E encontrou...

No ato de perdoar a si mesma, achou a alma que, por amor, havia perdido.

domingo, 3 de outubro de 2010

HORÓSCOPO


Para começar quero deixar bem claro que eu não acredito em horóscopo!

Estamos conversados?

Não que eu tenha algo contra os astrólogos e suas previsões, mas não dá para imaginar que 1/12 da população mundial vai passar pelas mesmas alegrias e perrengues neste ou naquele dia ou mês.

Então, para mim, tem que ser algo personalizado do tipo Mapa Astral, porque sei que só eu nasci na minha cidade naquela terça-feira de carnaval, à 01h00min hora da madrugada, enquanto todos brincavam no clube. Então, se faço um mapa astral, sei que as casas, linhas, planetas, regências vão ser exatamente para a minha pessoa.

Mas horóscopo de jornal, de revista, etc. isso é conversa pra boi dormir.

E por falar em dormir, estando eu, sem sono, peguei uma revista, ao acaso, na pilha de revistas não lidas... é que eu tenho outra pilha, de revistas lidas, mas que ainda vou rever para recortar alguma coisa (sim, carrego a mania de adolescente de recortar revistas, só que não recorto mais Jerry Adriani, Marcelo Mastroiani, Ronnie Von, agora recorto dicas de filmes, livros, restaurantes, cidades e por aí vai).

Mas voltando ao assunto, olhei na lombada e vi que a Marie Claire era de setembro. Guardem bem essa informação: setembro! E nós estamos em outubro.

Comecei pelas dicas de novidades dos grandes centros, restaurantes que nunca vou frequentar, boates que nunca vão me ver, livros legais, me encantei com uma pulseira que custa a bagatela de R$ 13.100,00 – gente, será que eles acreditam que nós, pobres mortais que assinamos Marie Claire, Claudia, etc. temos dinheiro sobrando para comprar uma pulseira que vale uma viagem? Ou uma Chutch com madrepérola por R$ 1.147,00? Não me xinguem... eu sei o que é Chutch porque tinha foto (rs) – é uma dessas micro carteiras, durinhas, quadradinhas, sem alça, beeemmmm pequenininhas.

Passei direto na seção de moda porque a moda de hoje é só para gente magra, menos de 30 anos. Nós, pobres mulheres normais, não somos gordas, somos normais, ninguém se lembra da gente, mas esquecem que quem tem o dinheiro somos nós. Azar deles!

E no pula uma entrevista, lê outra matéria, deparei-me com a seção de Horóscopo. Daí comecei a ler e a me preparar para “Mercúrio, retrógrado até o dia 21, e Sol, até o dia 23, na sua vida afetiva aprontarão diferenças”. Arrepiei os cabelos:lá vem problema... mas surgiu uma questão:

Alguém sabe o que quer dizer RETRÓGRADO em horóscopo? Já repararam que tem sempre um retrógrado no seu horóscopo? Eu imagino alguma coisa assim como atrasado e sigo em frente. Mas aqui não posso registrar minha ignorância, portanto, segundo o site http://www.dicionarioinformal.com.br significa:

1 Que se opõem ao progresso; reacionário

2 sm Aquele que é aferrado à rotina; ou às ideias antigas, e portanto inimigo do progresso

3 Astr. Diz-se do movimento que parece executar-se em oposição ao signos celestes, ou de oriente para ocidente

Continuo não entendendo direito, mas não importa, o que importa foi que eu me dei conta que estava lendo horóscopo, atrasado, sem acreditar, e me preparando para o tal movimento retrógrado!

Daqui há pouco vou estar lendo bula de remédio!

Minha decadência foi tanta que me lembrei de um amigo, jornalista, na década de 70, plena ditadura, quando o jornal de oposição era "O Diário" (que por sinal foi por lá que começou a Miriam Leitão) e nós morávamos bem em frente, no final da rua Sete e, volta e meia, tinha batida policial para apreender as edições e era um Deus nos acuda... mas esse amigo, um dia, estando meio amuado, perguntei o que estava acontecendo e ele me disse que tinha feito uma matéria que não agradou muito e de castigo estava na seção de horóscopo. Como assim se ele nem sabia onde ficava o céu quando fumava uns baseados? Então ele me disse: É fácil, a gente tem uma gaveta com um monte de previsão, cada dia escolhe uma...

Foi quando desencantei com os horóscopos!

Acudam-me que estou tendo uma recaída.

Aceito sugestões!

sexta-feira, 5 de março de 2010

SOMA DE DIAS

PORQUE É MEU ANIVERSÁRIO!

Houve um tempo em que eu adorava aniversário. Minha mãe ralhava (palavra antiga, né?) comigo dizendo que eu só sabia “inventar moda”, mesmo que essa “inventação” se resumisse a K-suco de guaraná e um bolo feito em casa mesmo.

Os anos foram passando e eu continuei gostando dessas comemorações. As melhores eram as promovidas pelos colegas de serviço, tudo na maior surdina para que fosse surpresa e que nunca ficava escondido... mas eu fazia cara que não sabia de nada para não estragar a festa.

Durante alguns anos eu estacionei minha idade na casa do 32. Era uma idade bonita e o medo de envelhecer havia me pego de jeito. Fiquei tanto tempo que meu sobrinho, que nem havia nascido quando eu realmente fiz 32, aprendeu a fazer contas e roubou minha carteira de identidade para descobrir a verdade, porque ele não conseguia entender porque a mãe dele, sendo só dois anos mais velha que eu, conseguia ser tão mais velha!

Depois eu comemorei, em grande estilo, os 39... porque 40 marca muito e todo mundo comemora! rs

Mas depois daí, na verdade, tive dois aniversários felizes. Um pela companhia e o outro, de meio século, porque consegui reunir amigas de todas as fases da minha vida.

Hoje já não vejo graça em festejar minha soma de dias... Os anos correm silenciosos, como se calçassem pantufas, rindo da gente em silêncio. Um belo dia nos assustam ao olharmo-nos no espelho, ou nos acertam em cheio a memória, ou os joelhos, ou o estômago e nos cravam um punhal nas costas. A velhice nos ataca, silenciosa, dia a dia. Mas há uma época em que ela é implacável. Creio que enfrento essa época.

Olho-me no espelho e não consigo reconhecer-me. Dói-me, ainda, o corpo. Meu último aniversário foi passado no hospital.

Muitos dirão: você está viva! Quer motivo melhor para comemorar? Têm razão, reconheço... mas me falta alegria, ânimo, vontade. A soma dos meus dias se acumula com a soma das minhas tristezas dos últimos tempos. É um fardo pesado demais. Pode ser que um dia eu me livre deste peso ou me acostume com ele e volte a gostar de “inventar moda”. Mas, por enquanto, ainda prefiro a solidão, o isolamento.

Os budistas dizem que a vida é um rio, que navegamos numa balsa para o destino final. - Sobre esse tema tem uma crônica linda do meu amigo no blog Desvendando Caminhos, onde a teoria dele sobre o rio da vida é muito melhor que a minha... mas voltemos ao assunto - O rio tem sua corrente, velocidade, redemoinhos, ora estreito, ora caudaloso, pedras e outros obstáculos que não podemos controlar, mas contamos com a ajuda de um remo (um só!) para dirigir a embarcação sobre a água e no rumo certo. Da nossa habilidade depende a qualidade da viagem, mas o curso não pode ser mudado, porque o rio desemboca sempre no mar da morte.

Embora eu ainda tente segurar o sol, deleitar-me com o luar, amar e ser amada, às vezes, em sonho, eu entrevejo esse mar...


sábado, 30 de janeiro de 2010

CORREIO SENTIMENTAL

Para Tide,

Meu amigo muito querido, você colocou duas questões que embora pareçam diferentes, traçam um mesmo caminho: o do coração.

Apesar de não ser especialista nestas questões, talvez a vivência de tudo que passei me habilite a tentar analisar e responder.

Você perguntou se é possível sentir saudade de alguém que não se conhece. Devolvo com uma pergunta: existe alguém no mundo que a gente possa dizer que realmente conhece? Não conhecemos nem nós mesmos...

Existem pessoas que a gente já viu milhares de vezes e não conhecemos...

Existem pessoas que a gente nunca viu olho a olho e que conhecemos muito mais que nosso vizinho de porta.

Existem pessoas especiais, que basta uma palavra, uma demonstração de afeto (seja um cartão, uma foto ou um cd caseiro de MPB) e se deixam mostrar escancarando a alma, porque sabem que quem está do outro lado também escancara sua alma, sem pudor. É a confiança construída a cada conversa, a cada “teclada”...

Então, minha tese é que não existem pessoas que não conhecemos, existem pessoas que a gente não encontrou pessoalmente, ainda, mas que conhecemos e amamos.

E o amor gera saudade... qualquer espécie de amor.

Mesmo aquele amor que parte o coração, deixando como “carne moída”.

Depositamos nossa esperança, todo nosso amor, carinho, devotação a uma pessoa. Passamos a viver na espera do retorno - ainda não somos tão evoluídos a ponto de amar por amar, para nós o amor tem que ser pista de mão dupla – e não perguntamos ao outro se ele está colocando na relação todo o seu amor, carinho, etc. também. E na maioria das vezes, a relação é de mão única. E quando acaba, quase sempre de um lado só, sobra um velho coração despedaçado, desesperançado, doído a ponto de se sentir dor física.

Quando isso acontece queremos morrer junto com nosso coração.

Os dias vão passando, a dor vai diminuindo aos pouquinhos... mas não acaba! Nunca! Carregamos no olhar a dor daquele amor perdido. É como queimadura, a cicatriz permanece por todo sempre a lembrar aquele amor não vivido.

Amor perdido é amor eterno!

Todo meu carinho e um poema

Kátia

FIM

Não existe nada mais doído

Do que o fim de amor.

Amor idealizado,

Amor conquistado aos poucos,

Amor!

Num ímpeto de raiva

Tentei apagar os vestígios

De sua passagem pela minha vida.

Queimei cartas, recados, retratos,

Apaguei seu nome da minha agenda,

Não mais passei pela sua rua,

Nunca mais ouvi “nossas” músicas.

As lágrimas vieram uma a uma,

Lavei com elas minha alma,

Minha mágoa,

Minha dor.

Com o passar dos anos a gente consegue

Enganar até mesmo a memória,

Achando que esqueceu.

Achei que tinha esquecido você.

Só muito tempo depois descobri

Que o amor dói mesmo muito depois do seu fim.

Dói a cada encontro,

A cada olhar,

A cada recordação.

O fim de um amor a gente até supera

Mas não esquece não.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

CONTO DE FADAS ÀS AVESSAS


Não se pode dizer que Márcia era uma menina como todas as outras meninas que conviviam com ela, ela escondia segredos, muitos segredos, inconfessáveis segredos. Ninguém percebia, desde cedo ela aprendeu a arte da ocultação (o que muito lhe valeria vida afora).
Que era bonita ninguém podia negar...
Os anos foram passando e vieram os primeiros namorados.
Até que um dia ela conheceu Eduardo. Foi amor mesmo. Daqueles de cinema. A família dele aprovava a moça bonita, bem educada.
A dela não confessava, mas via naquele namoro a galinha dos ovos de ouro. Eduardo era tudo: alto, bonito, educado, rico... entenderam? Rico!!!
O namoro evoluiu para o noivado. Naquela época ainda se noivava. E tudo corria às mil maravilhas.
Mas quis o destino, em uma de suas voltas, que tudo acabasse: namoro, noivado, sonhos.
Márcia chorou por muito tempo. O namoro desfeito, o amor perdido, a cobrança familiar.
Pouco soube do Eduardo nos anos que vieram.
O tempo passou, ela conheceu Lucas, amou novamente (é claro que não foi o mesmo amor, mas era amor), casaram-se, tiveram filhos e seguiram adiante.
Juntos construíram uma família, um patrimônio material e imaterial. Porém Márcia agora também carregava dentro dela uma tristeza, junto com os segredos, mas ninguém enxergava. O casamento, com o tempo, foi ficando ruim. Não que ela não tentasse salvá-lo. Bem que tentou. Fez-se surda, muda, cega, variando a cada situação. Mas eram gritos demais, desamor demais, infidelidade demais e tudo que é demais um dia transborda. O casamento de Márcia transbordou.
Sobraram mais cobranças, mais responsabilidades, mais tristeza.
Até que Eduardo apareceu novamente. Na forma de uma possibilidade, na forma de um amor que poderia voltar a ser.
A princípio o medo, o frio na barriga, as horas ao telefone tentando colocar décadas de separação em dia. Márcia ficou sabendo dos casamentos dele (acho que sempre na tentativa de buscar uma Márcia que tinha ficado no passado). Eduardo ficou sabendo das tristezas dela.
Nenhum dos dois contou tudo... Ainda sobraram segredos como fantasmas a separá-los.
Depois de um tempo, muito tempo, voltaram a se encontrar pessoalmente... ainda era o mesmo amor!
Márcia guardou para si as coisas ruins: os gritos do ex, as armações da atual do ex, os problemas financeiros por causa do ex, os desencontros com os filhos. Deu-se na sua melhor parte.
Eduardo levou junto com ele as frustrações dos seus casamentos, os problemas empresariais, o whisky... Talvez por medo, não tenha levado o melhor de si.
Viveram um idílio... até que Eduardo, sem mais adeus, sumiu.
Fosse a primeira vez, ela até se desesperaria. Mas os dias viraram semanas, as semanas meses...
Márcia ficou péssima, tivesse dinheiro, disposição e menos problemas, faria um ano sabático na Índia ou no Tibete, mas como não tinha, fez uma semana sabática em seu quarto mesmo.
Mas como mulher de fibra como ela está para nascer outra, um belo dia acordou, tomou um demorado banho, se arrumou toda, colocou uma pedra de granito sobre o passado (porque era mulher fina!) e partiu para viver mais uma vida.
Fechada para o Eduardo, o Lucas, sua família sanguessuga, a atual do ex e suas armações, sem se importar demais com os problemas dos filhos.
Aberta só para a arte e para a vida.
(Mas por via das dúvidas guardou gravado no celular, dois ou três torpedos enviados por Eduardo para quando a saudade fosse um fardo difícil demais de carregar!)

(Imagem: medicinaintensiva.com.br)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

PALMEIRAS & SABIÁS



Minha terra não tem palmeiras... mas tem sabiás!
Eles me acordam pela manhã, num relógio que só eles entendem. Uns dias é às 6, outros às 8, mas como não temos nada melhor para fazer - eles cantarem e eu ouvir - a hora é o que menos importa.
Minha terra tem também duas borboletas: uma branca e uma amarela. A branca aparece junto com os sabiás, mas a amarela, acho que é meio preguiçosa, como eu, só aparece no final da tarde.
Ah! Tem também bem-te-vi e outros pássaros que não distingo o canto.
Tem uma parte onde o sol brilha que chega doer os olhos. Parece que o mundo inteiro está iluminado.
Minha terra tem árvores de vários verdes que dançam um balé magnífico, ao por-do-sol, regidas pela brisa da tarde.
Tem uma pedra e um lagarto (ou seriam vários largatos, não sei!) que todas as manhãs vem para tomar sol.
De vez em quando aparecem uns micos (de verdade!) que fazem a maior arruaça e seguem faceiros enquanto os cães ladram!
Tudo isso tem na minha terra... vista da janela do meu quarto!

domingo, 20 de setembro de 2009

UM MONSTRO À SOLTA

(Fonte barcelonadream.blogs.sapo.pt)

Com essa minha imobilização temporária (creio eu), tenho ficado muito em casa, o que para mim é um tormento, pois, como dizia a minha mãe, eu sou muito “rueira”.
Mas essa semana eu tive alguns compromissos e meus filhos e marido serviram de motorista, o que me permitiu passear e observar as ruas, as praças, os lugares por onde passava.
Levei foi um grande susto!
Logo na pracinha de Jucutuquara* quando olho para o lado da antiga fábrica de tecidos, cadê a casa dos “donos” da Braspérola? Sumiu! Só sobrou o muro... Mas como a Prefeitura destruiu a antiga fábrica dizendo que ia fazer um espaço de artes e eu só enxergo a fachada e um grande vazio atrás, pensei com meus botões, vai ver a prefeitura também comprou a casa e vai fazer alguma coisa boa para a comunidade, mas precisava derrubar aquele casarão antigo tão lindo?
Seguimos em direção ao centro da cidade e logo depois da curva do Forte São João, outro susto, onde já haviam derrubado o velho Restaurante Universitário, agora sumiu também a casa da frente, uma que tinha lindas janelas verdes.
Na volta, passamos por Bento Ferreira e as casas lá também estão sumindo do dia para a noite. Você passa a casa está lá, dois ou três dias depois, ela some inteirinha. O mesmo está acontecendo na Praia do Canto. Isso porque meu passeio se restringiu a esses bairros, imagino o que não estará acontecendo por toda a cidade!
Logo nós, capixabas, que temos como característica a utilização de casas, prédios, pontos comerciais como pontos de referência, o que iremos fazer se estão destruindo tudo?
Olho aquelas paredes que sobram e vejo azulejos brancos, algumas partes com azulejos coloridos, intermediados de paredes de cores diversas e fico pensando o quanto de história está sendo jogada no lixo. Quantos segredos aquelas paredes ouviram. Juras de amor. Brigas pra nunca mais que duravam poucas horas. Primeiros choros de bebês que nasceram rodeados dos que mais os amavam. Casos de vida e de morte.
Parte da minha história, na cidade do interior, já foi devorada e lhes digo, a sensação não é nada boa. Onde antes havia uma cozinha com cheiros que se acessavam a um olhar, hoje só sobrou chão.
Minha conclusão é que tem um monstro à solta comendo nossa história.
Acho que ele se alimenta das lembranças que ficam abrigadas nas antigas casas, por isso, à noite, ele sai e as devora.

*Jucutuquara - 0 nome Jucutuquara, JUCU-ITA-QUERA, é de origem indígena e significa "pássaro do buraco de pedra" ou YTICUTUQUARA, que significa "conchas suspensas", condizentes com a forma dos buracos da "Pedra dos Olhos" localizada na área e batizada pela própria natureza. As mutações lingüísticas fizeram valer a linguagem popular: Jucutuquara. Nome da antiga fazenda que havia no lugar, pertencente à família Monjardim, século XIX.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

NENHUM JURAMENTO É ETERNO


Quando pensei em escrever esta crônica a primeira coisa que me veio à cabeça foi um “pedacinho” de uma música da Dolores Duran, onde ela cantava:
“...Tem gente que jura que não volta mais
Mas jura sabendo que não é capaz.”
Pois é, quase ao mesmo tempo que aprendemos a falar aprendemos, também, a fazer os mais diversos juramentos.
Na minha infância, quando umas palmadas ainda eram método de aprendizagem e eu aprontava alguma (o que não é nenhuma novidade!), logo que era pega, para escapar das ditas cujas, jurava, no ato, nunca mais repetir aquela arte.
Depois, já na escola de catecismo, aprendi a acrescentar o “juro por Deus” e meus pais acabavam me perdoando mesmo sabendo que eu iria repetir a ação na primeira oportunidade.
Lembro dos banhos de cachoeira, sempre às escondidas, e as palmadas e castigos porque meu pai dizia que eu ia “pegar caramujo” (esquitossomose), o que não deu outra, eu apanhava, jurava não repetir, e depois fazia tudo outra vez achando que os cabelos molhados não iriam me denunciar.
E assim a vida ia passando.
Quando quase fui expulsa do colégio, de tanto aprontar, jurei que me tornaria comportada igual à minha irmã. Mesmo todos sabendo que era a maior mentira da paróquia.
Quando o grande primeiro amor acabou, só do lado dele, porque amor não combina de acabar dos dois lados ao mesmo tempo, jurei nunca mais amar, doía muito. Até que durou um tempinho... rs, mas voltei a amar, ainda bem!
Nas dores do parto jurei não ter mais filhos... juramento que durou um ano e pouquinho, graças a Deus!
Isso só para ficar nos juramentos mais marcantes.
E de juramento em juramento fui levando a vida.
Aqueles que me acompanham mais amiúde, devem lembrar-se o quanto sofri quando o Thunder, cão da Gabi, morreu. (http://katiamultiplasfaces.blogspot.com/2008/09/menina-e-seu-co.html)
Jurei, então, que nunca mais ia querer mais nada na minha vida que respirasse. Isso porque marido e filhos não requerem cuidados especiais para sobreviverem.
Bati o pé e repeti mil vezes que não aceitaria mais nenhum animal. Era trabalho demais, gasto demais, sofrimento demais, sem contar que acabava prendendo a gente em casa.
Pois bem, sexta-feira, hora do almoço, chego da fisioterapia e encontro um filhote de cachorro na minha área de serviço. A cadela que vigia a obra de um empreendimento do qual meu marido é sócio havia dado cria a 9 filhotes e estavam todos morrendo ou desaparecendo, meu marido, com dó do cachorrinho, trouxe-o para casa. Quando bati os olhos naquele olhar de cão abandonado, meu coração se encheu de piedade e não tive coragem de mandá-lo embora.
Mais um juramento quebrado.
Nossa casa e nossos corações agora abrigam um dalit (ele é tão bonitinho que não merece ser chamado de vira-lata) que já está até aprendendo a atender pelo nome que, para seguir a linhagem, Thunder, Flash... e como ele não é bramani, ficou sendo Chuvisco mesmo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

PORQUE RIR AINDA É O MELHOR REMÉDIO...

Estação de trem, metrô, etc em Berlim

OU PODERIA SER MAIS UM DA SÉRIE “COISAS QUE SÓ ACONTECEM COMIGO”
Estávamos nós em plena Europa, eu, meu marido e nossos vizinhos.
Cabe um parêntesis para que vocês compreendam as reações que virão, eu e eles somos amigos desde que nascemos, freqüentamos as mesmas escolas, moramos na mesma rua (é certo que na nossa cidade só existiam três principais, rs), seguimos nossas vidas juntos e eu os considero como irmãos, daí termos a intimidade que muitos irmãos consangüíneos não têm.
Já havíamos viajado por quase um mês, passeado bastante, rido bastante (dos outros e de nós mesmos) e, principalmente, comprado um monte de tranqueira. Para vocês terem idéia eu tive coragem de comprar uma chaleira e um escorredor de macarrão, logo no início da viagem, na Alemanha, e carregá-los pela Itália e França afora, sem contar a volta pela Alemanha... só coisa de brasileiro doido, ou seja, euzinha! Mas enquanto ele me zoava por causa da chaleira, eu o lembrava que no fundo de sua mala tinha dois serrotes!
Ainda no Brasil nós havíamos conseguido comprar passagens aéreas Milão-Berlim a preço de banana. Como fizemos todo o percurso em terras estrangeiras de trem, este foi o único trecho que necessitamos de avião para cumprirmos o roteiro que nos propusemos.
Tudo uma maravilha. Até que chegamos ao aeroporto de Milão. Embora tenhamos usado de todos os artifícios (bolsas de mão enormes, homens com mochilas, etc.), o peso de nossa bagagem excedeu um absurdo e lá fomos nós, depois de muita negociação, pagar o excesso: saiu mais caro que as passagens! Levamos na esportiva e seguimos em frente.
Ficamos uns dias em Berlim e depois seguimos para Frankfurt, de trem. Eu e o Roberto tínhamos duas malas (pesadíssimas), duas mochilas, uma bolsa de mão e mais minha bolsa pessoal, tudo isso para colocar dentro do trem – uma peripécia e tirar depois – outra maior ainda! Resultado, quando, enfim, chegamos ao aeroporto, despachamos as bagagens, etc. e tal, o Roberto estava tão suado que era impossível viajar quase doze horas naquela situação. Bem à nossa frente tinha uma lojinha da Nike, então eu disse: - Vocês me esperam aqui, eu vou à loja, compro a camisa mais barata que encontrar, volto, o Roberto vai ao banheiro, se lava e troca de camisa. Lembrei de um desodorante que eu havia esquecido na bagagem de mão e daí ele aproveitava para usar e jogar fora, porque eles não estavam aliviando quanto ao embarque de líquidos.
Estava eu no interior da loja quando, ao virar-me, um homem alto, afro-descendente, esbarra em mim e, educadamente, diz: - Sorry!
Ao mesmo tempo meus dois neurônios se ligaram e mandaram a mensagem de que eu conhecia aquela pessoa. Então respondi: - Não foi nada, pode falar em português mesmo!
Nós então, entabulamos uma conversa:
- Brasileira! Que alegria! Está chegando ou partindo?
- Estou indo para o Brasil e você?
Ele olha para mim com aquele olhar de “conheço você de algum lugar, mas de onde?” e eu, que perco tudo, mas não perco a pose, também fingi lembrar-me de onde o conhecia. Então continuamos conversando como velhos amigos que se encontram.
- Estou indo para Milão, disse ele.
- Acabo de chegar de lá, disse eu.
- Está muito frio?
- Não, está agradável. Quando você vai ao Brasil?
- Assim que tiver uma folga...
Nesta altura já estávamos na fila do caixa e a moça se desdobrando em amabilidades para atender-nos.
- Sinto muita saudade do Brasil,
- É assim mesmo, quando estamos fora do nosso país. Mas a gente acaba se acostumando, digo eu.
Pagamos e ele resolve olhar uns bonés, então nos despedimos:
- Tchau, foi um prazer te ver – disse ele.
- Tchau, também adorei te reencontrar, a gente se vê por aí – respondo eu.
Beijinhos para cá, beijinhos para lá, e eu saio da loja.
Encontro meu grupo e digo para eles, vamos ficar aqui, na moita, escondidos atrás desta pilastra porque vai sair um moreno alto da loja, que eu fiquei conversando um tempão, mas não consigo lembrar de onde eu conheço.
Assim fizemos. Estava meio dispersa quando, de repente, meu amigo me dá um safanão e pergunta:
- É aquele?
– Sim, sim, é... respondo.
E o meu amigo:
- É claro que você conhece, sua demente! Sabe de onde? Da televisão! É o Gilberto Silva, da Seleção!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

E A VIDA O QUE É? DIGA LÁ MEU IRMÃO...


Esse reencontro com meu amigo “perdido” levou-me a uma série de reflexões.
Como narrar quase uma vida inteira em uma carta ou e-mail?
O que é importante numa vida?
O que vale mais?
Será que interessaria saber os amores que tive e perdi pelo caminho?
Será que ele gostaria de saber como foi meu casamento ou teria mais importância as dificuldades que enfrentamos para continuarmos juntos?
Tirando os nascimentos dos filhos, que creio, nada vale mais, o que valeria contar? O meu sucesso como executiva ou o que aprendi lidando com as diferenças das pessoas?
Vale mais as bolhas que ganhei no Caminho de Santiago ou descrever minha casa, jardim, quintal e cachorro?
O que importa mais, a quantidade de livros que li, ou a frase que carrego desde a adolescência do único livro que sei de cor: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”?
As pessoas que perdi, pai, mãe, amigos queridos que partiram para outra vida ou as amizades que ainda carrego, desde a infância?
O que vale mais, as lágrimas que derramei a cada tropeço, doença, queda ou as lições que tirei de cada dificuldade?
O que importará mais nesta vida?
O que ele gostaria de saber?
Das viagens que fiz, alimentando a alma, ou das cirurgias que enfrentei para manter vivo o físico? Será que lhe interessaria saber que houve um dia um pôr do sol rosa e dourado que eu fotografei e nunca mais vi outro igual?
Ou lhe agradaria ver a parte o mundo que vi, através do meu olhar?
Será que lhe interessariam os livros que escrevi, as tatuagens que carrego no corpo, as rugas e quilos que ganhei?
Teria valor saber que coleciono pedrinhas dos lugares por onde andei ou que já tenho paciência para cultivar flores?
Teria isso importância na vida de outra pessoa?
O que importa mais?
Sinceramente, a resposta? Não a tenho...
Penso na vida e só me vem à mente a música do Gonzaguinha:

E a vida
Ela é maravilha
Ou é sofrimento?
Ela é alegria
Ou lamento?
O que é? O que é?
Meu irmão...
... Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita...

quinta-feira, 30 de julho de 2009

QUE VOCÊ NUNCA SE ESQUEÇA...



A gente passa a maior parte das nossas vidas correndo atrás das coisas que julgamos serem indispensáveis para que vivamos bem. Necessitamos de tanta coisa que a lista só vai aumentando. Se temos um apartamento de 60 m² precisamos de um de 100. Quando temos o de 100, já não é suficiente. Se moramos em apartamento só seremos felizes numa casa com quintal e cachorro; quando temos a casa, o quintal, o cachorro (e toda a sujeira que vem junto) queremos o apartamento. Se temos um carro comum, queremos automático. Se velho, queremos outro mais novo. E assim os dias, os anos vão passando e quando nos damos conta passamos quase toda nossa existência acumulando bens materiais.
E o que fizemos das pessoas que cruzaram nossos caminhos?
Quantas vezes deixamos que elas saiam de nossas vidas por pura falta de tempo, gastamos nosso tempo acumulando coisas, às vezes também pessoas, mas quanto tempo gastamos cultivando e cuidando daqueles que cruzaram nossos caminhos?
A maioria daqueles que me conhecem sabem que agradeço a Deus todos os dias pela graça de ter tantos amigos. Sou abençoada neste aspecto. Mas depois de tudo que me aconteceu eu fiquei imaginando o que teria acontecido com as pessoas que foram importantes na minha vida e que perdi.
Perdi para o tempo, para a distância, alguns pra a morte, para a correria dos anos que passei acumulando coisas.
Quando a “Dona Morte” cismou em querer me visitar, o máximo que fez foi me fazer perceber o quanto a gente deixa de dizer e fazer pelo outro, na suposição de que é desnecessário porque ele já sabe. E assim deixamos de dar aquele abraço de verdade, que abarca o físico e também a energia. Deixamos de dizer “eu te amo” ao amigo querido, aos nossos filhos, aos pais (quem ainda os tem)... o “eu te amo” fica, quase sempre, restrito ao amor físico e, quando muito, o dizemos aos nossos companheiros(as).
“Ela” também despertou em mim o desejo de saber o destino de algumas pessoas que passaram pela minha vida e que eu deixei que se fossem.
Assim, comecei a pesquisar na internet buscando uma pessoa a quem eu tenho um grande carinho, muito embora na última vez que nos vimos eu tivesse apenas 18 anos.
O tempo não conseguiu apagar todos os momentos que passamos juntos, o que crescemos juntos, o que aprontamos...
Ele foi um dos rapazes que fez a minha adolescência ser tão feliz.
Com ele dancei muitos bailes, ele me dava coragem para participar do roubo da “luz negra” – única da cidade - pertencente ao “padre bravo” para fazermos nossas boates no terraço da sua casa no período de férias, por ele eu viajava horas em estrada de chão, sacolejando naqueles ônibus de interior.
Com ele descobri amar longe e que distância é uma questão somente física (embora só viesse a ter consciência disso muito tempo depois).
Com ele eu vivi meu amor adolescente.
Brigávamos tanto que depois de umas três idas e vindas decidimos ser só amigos... e que amigos maravilhosos teríamos sido se a vida (ou o destino) não tivesse nos separado.
Hoje, depois de muita procura, eu o encontrei.
Falamo-nos ao telefone, rimos, brincamos, nos emocionamos... mas era pouco tempo para tanta vida separada.
Sei que muitas pessoas não compreendem como uma mulher casada sai procurando outro homem, ainda mais um ex-namorado. Ainda bem que meu marido tem a cabeça aberta e valoriza as amizades tanto quanto eu.
Por isso, meu querido amigo rencontrado, que você nunca se esqueça: Você é um capítulo muito bonito da minha história e que eu te amo.

PS1: Preservo a identidade do meu amigo porque ele (ainda) não sabe deste post.
PS2: Muito a contragosto estou tentando me adaptar às novas regras ortográficas (mas me recuso a escrever lingüiça sem trema).
PS3: Ele entende a foto... rs

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A MOÇA TRISTE QUE NÃO SE CHAMAVA CAROLINA

Sempre foi diferente.
Desde pequena havia nela algo que a diferenciava das outras crianças.
Talvez fosse o olhar. Diziam-lhe “Que olhos lindos, parecem esmeraldas” e como não sabia o que eram esmeraldas, ela pensava que deveria ser alguma coisa boa.
A mãe dizia que nasceu chorando e chorou por muitos meses, por isso a primeira foto, ainda com cara de choro, só foi tirada aos seis meses.
No mais era como as outras crianças, brincava, fazia traquinagens (quando aprontar se chamava assim) e seguia em frente.
Lembra que sempre se emocionava ao ouvir a Ave-Maria, tocada pontualmente às seis horas, no velho rádio. As pessoas não entendiam essa emoção, nem ela.
Era jovem demais.
Lembra-se de uma tragédia ocorrida por volta dos seus sete anos, quando um marido traído, para lavar a honra, matou a mulher a tiros. Sobraram os filhos que foram morar com uma tia, próximo à sua casa. Era manhã de Natal, todas as crianças na rua brincando com seus presentes e um dos meninos sem nada, ela na sua inocência pergunta-lhe o que ganhara de Papai Noel e o menino responde: Nada, criança sem mãe não ganha presente de Natal. Voltou para casa chorando, insistindo que a mãe comprasse algo para o menino. Não compreendia que a pobreza também rondava sua casa.
Era jovem demais.
O tempo foi passando e a moça se emocionava, às lágrimas, ao ver os filmes de amores impossíveis, ao ler romances, ao ver a desgraça alheia. Sentia-se diferente das amigas, mas não conseguia identificar onde estava essa diferença. Com os amigos cantava e dançava ao som dos Beatles e dos Rolling Stones; mas só, em casa, cantava sua tristeza ao som de Ataulfo Alves, Lupicínio Rodrigues, Noel Rosa. A mãe perguntava onde tinha aprendido essas músicas, ela não sabia responder. Era como se as tivesse gravado na memória. Não compreendia o que lhe passava.
Talvez por ser jovem demais.
Começou a escrever diários, como toda adolescente do seu tempo e foi aí que descobriu que tinha facilidade para escrever as coisas tristes, mas faltavam-lhe palavras para narrar acontecimentos alegres.
Os olhos verde-esmeralda ganharam outras tonalidades, ora ficavam azuis, ora cinzas, só ela sabia identificar, pela cor dos olhos, o que lhe ia à alma.
Já não era tão jovem.
Já se sabia triste.
A vida correu rápida. Tentou encontrar alguma maneira para se livrar da tristeza, mas foi em vão.
Aprendeu a arte de iludir, embora nunca tenha estudado artes cênicas. Desenvolveu um riso alto e franco, gestos um tanto exagerados, escondeu bem escondido sua tristeza. Ninguém jamais desconfiaria o que crescia dentro dela.
O tempo passou. A alma envelheceu mais depressa que o corpo. Um dia, a moça morreu.
Todos diziam: Tão jovem!
Ninguém soube que ali estava uma alma velha demais.
Causa mortis: Tristeza demais.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

PRIMEIRO AMOR

Minha mãe sempre dizia que depois de certo tempo de vida, quando os filhos dos amigos já casaram (na época em que se ainda casava) as pessoas só se encontravam em velórios. E ela tinha uma maneira toda especial de avaliar os velórios: se encontrava muitos amigos, se o falecido era pranteado como merecia, ela dizia que o velório estava “muito animado”. Com o tempo fui entendendo o que ela queria dizer com isso, embora ainda não saiba explicar bem. Não é falta de respeito, nem ausência de dor pela partida... é uma coisa diferente.
Mas isso é só para dizer que estava num velório de uma pessoa muito, muito querida, quando me deparei com meu primeiro e grande amor.
Não que não tivessem existido outros namorados antes dele... existiram, fui uma adolescente “namoradeira”... mas amor mesmo, “sem a qual a vida é nada, sem a qual se quer morrer”, ele foi o primeiro. Acreditava que seria o único, daí o luto e o trauma terem demorado tanto tempo.
Uma amiga “daqueles tempos” foi logo sussurrando ao meu ouvido: “E aí? As pernas ainda tremem?” com aquele sorriso maroto que só grandes amigas compreendem.
Isso me fez pensar sobre o que perdi e o que ganhei com esse amor.
Por muito tempo pensei que só houve perdas. Perdi a esperança, a fé no sexo oposto, a crença que nunca mais amaria outra vez um amor do tipo “os seus olhos têm que ser só dos meus olhos, os seus braços o meu ninho”.
Na adolescência vive-se tragicamente. Tudo toma proporções maiores que as devidas. Talvez por isso, por ele eu lutaria contra tudo e todos. Faria qualquer sacrifício. Seria até submissa.
Mas ele não quis. E terminou comigo.
Quis morrer. Chorei por muito, muito tempo. Os cabelos, que iam até as costas, foram cortados curtinhos, como forma de vingança. Só não joguei para Iemanjá porque na minha terra não tem mar, nem Iemanjá.
A partir daí passei a namorar só três meses.
Tempo exato para aproveitar o que de melhor tem um relacionamento e também exato para não me apaixonar.
O tempo passou. Conheci outras formas de amar. Menos trágicas. Outras mais intensas. Mas o mais importante é que descobri que não se ama só uma vez.
Porém, naquele dia, quando o vi novamente, depois de décadas, devo confessar: sim, as pernas tremeram! Enxerguei o príncipe pelo qual eu havia sido apaixonada (que pela avaliação da minha irmã só existiu na minha cabeça). Mas meus olhos haviam mudado. Talvez lavados pelas lágrimas que a vida me impôs consegui ver que não teria dado certo.
Mas dei-lhe um abraço apertado e em silêncio agradeci-lhe pelas emoções boas e ruins que me fez conhecer.
Agradeci por aquele primeiro amor cheio de planos, desejos reprimidos, descobertas, coração acelerado, pureza de alma...
É o primeiro amor... Único...
De tudo, o que mais sinto é a falta da pureza da alma que perdi, não sei onde, nem como, nem com quem... mas trago a certeza de que uma parte de mim ficou, lá atrás, junto com aquele primeiro amor e refaço o percurso dos versos:
“Você tem que me fazer um juramento, de só ter um pensamento, ser só minha até morrer”.
A parte de mim que ainda é sua, jura.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

PRIMEIRO BEIJO


Esta crônica deveria ter sido postada próximo ao dia dos namorados.
Mas ando, a cada dia, mais lenta.
Lenta para raciocinar, para colocar em palavras o que vai à minha cabeça, no ânimo para escrever... daí escrevo, na mente, montes de coisas que, com certeza, estarão esquecidas no dia seguinte.
Mas tudo começou por causa de uma propaganda na televisão sobre “voltar à emoção do primeiro beijo” e apareciam fogos pipocando, sinos tocando, etc.
Logo depois veio uma reportagem no jornal sobre o fato de os jovens estarem trocando o primeiro beijo cada dia mais cedo.
Fiquei pensando na minha experiência. Tudo bem que existem décadas separando as minhas experiências dos dias atuais, mas primeiro beijo será sempre primeiro beijo, concordam?
Eu acho que deveria ser obrigação dos pais, ou constar do currículo escolar (não se fala hoje sobre sexo seguro, cuidado com as drogas, etc.?) ou até mesmo de livros de auto-ajuda. Não sei exatamente como, mas alguém deveria alertar nossos “cada dia mais jovens” para as emoções do primeiro beijo.
A gente lê nos romances, assiste nos clássicos dos cinemas, nas novelas, que todo primeiro beijo acontece num lugar paradisíaco, que é sempre maravilhoso e ninguém ousa dizer o contrário.
Na minha pré-adolescência passávamos horas na frente do espelho ensaiando para aquele momento único em que o príncipe encantado chegaria, nos beijaria e abrir-se-iam as portas de um mundo totalmente novo e iluminado.
As amigas da mesma idade que já haviam passado pela experiência, mesmo que não tivessem gostado, não ousavam confessar para não perderem o status de “já iniciadas”.
Por isso agora me dirijo aos jovens de “BV” (Boca Virgem): Esqueçam tudo o que ouviram e leram até hoje e prestem atenção às minhas palavras. Pode até ser que com um, entre milhares, tenha sido assim, fogos, sinos, luzes... mas não é via de regra.
Lembro-me perfeitamente do meu primeiro beijo.
Que decepção!!!!!
Ansiei tanto por esse momento, sonhei mil situações e nada, nada do que sonhei aconteceu.
Prá começar foi numa escada escura (acho até que cheirava a mofo), com um menino que achava que sabia de tudo (coitado!) e que nem sequer perguntou se eu queria ser beijada por ele.
Não houve aquele olhos nos olhos que a gente vê nos filmes, nem fundo musical, nem nada. Só aquela boca cobrindo a minha, o gosto de chiclete e cigarro, o medo de alguém chegar e uma sensação de nojo tão grande que jurei que nunca mais ia deixar ninguém me beijar.
Não ouvi sinos repicando, nem fui tomada por nenhum arrebatamento de paixão. Só tinha consciência daquele corpo estranho penetrando a minha boca e, ainda agradeço aos céus por, naquele tempo, os aparelhos ortodônticos não serem tão acessíveis como hoje, porque, com certeza, eu ainda teria enfrentado os ganchos a me rasgarem os lábios (bem que ele precisava).
É certo que o juramento de nunca mais beijar só durou até acontecer a primeira paixão (ou seja, bem pouco tempo, rs).
É certo também que beijar é como praticar esporte, com o tempo a gente vai se aperfeiçoando... e hoje, lhes garanto, não há nada melhor do que um bom beijo na boca.
Mas, por favor, não esperem demais das primeiras vezes...
E nunca digam que ninguém tentou lhes avisar.

terça-feira, 26 de maio de 2009

MUDANÇA DE RITMO

(foto oficial do Governo do Esp. Santo)

A vida é coisa engraçada, quando a gente é criança e tem todo o tempo pela frente, faz as coisas sempre correndo, tem pressa; à medida que o tempo passa e vai diminuindo, a gente diminui também o ritmo, e com isso alguns hábitos.
Eu ia escrever sobre outra coisa... mas aconteceu um fato e daí...
Bem, quando eu fiz 50 anos decidi que, como o que me restava de vida era menos do que o que já havia passado, dali em diante eu ia fazer as coisas que me agradassem e não para agradar às pessoas. É claro que eu ainda encaro um ou outro programa se isso vai fazer feliz meu marido, meus filhos ou algum amigo que valha a pena. Mas para ser educada, ser a boazinha, nãnãnãnão!
E aos poucos eu fui mudando... comecei pela cerveja. Eu odeio cerveja, acho a bebida mais sem graça que já foi inventada, você bebe, bebe, bebe, urina, urina, urina... arre! mas como a gente saía em grupo, todo mundo tomava cerveja, para não ser do contra eu acabava tomando também. Hoje eu peço minha água com gás na maior. É claro que na primeira vez foi um auê. Silêncio total. Eu parecia um alienígena. As pessoas perguntando: Mas como? Você sempre tomou cerveja? Como “não gosta”? Explicada minha teoria, ânimos aplacados, hoje minha água já é parte integrante da noitada.
Depois foi a história do aniversário. Meu marido tem um primo (chato pra caramba) que aniversaria no final do ano. Eu encarava a comemoração do seu aniversário como o último sacrifício do ano (mas lembrem-se: eu era “boazinha” rs). Era sempre a mesma coisa: as mesmas pessoas cobrando “Como você está sumida!”, se eu estava magra: “Que aconteceu? Está doente?”, se eu engordava: “Nossa como você engordou?” e eu sorria, educadinha do jeito que mamãe ensinou. Ainda tinha que agüentar (recuso-me a aceitar a reforma que nem os portugueses aceitaram!) a esposa do aniversariante (numa escala de 0 a 10 de chatice, ela consegue ser 11) e sua mesa fantástica de doces e tortas (justiça seja feita) reclamando que havia passado a madrugada inteira fazendo doces! Pois bem, chegou o grande dia, meu marido se arrumou e eu continuei assistindo TV, ou lendo, ou sei lá o quê, e ele me pergunta:
- Você não vai?
- Não. Cansei de ser educada.
- Mas o que eu falo?
- A verdade. Que eu não quis vir.
Ponto final, deste ano em diante não fui mais... e foi o último em que meu marido compareceu!
E foram pequenos gestos aqui e acolá que foram me transformando na pessoa que sou hoje.
Eu que era rock’n roll e cantava “Por isso não provoque / É cor de Rosa Choque”, hoje estou mais para toada e esses dias até me peguei cantando “Ando devagar porque já tive pressa / Levo esse sorriso porque já chorei demais.”
Isso não quer dizer que eu tenha me transformado em uma pessoa completamente zen e educada. Só que minha prioridade passou a ser eu mesma.
Outro dia uma amiga, nem tão amiga assim, começou a falar do seu filho e nora, em tom de desabafo e eu fiz umas perguntas no intuito de, estando de fora da situação, ver como melhor poderia ajudá-la. O assunto morreu, fui embora. No dia seguinte, nos encontramos novamente e ela veio tirar satisfação porque eu estava indagando coisas do filho dela se ela nunca havia perguntado dos meus. Ah! Educação tem limite! Na hora retruquei:
- Minha querida, eu estava com a melhor das boas intenções, buscando um modo de auxiliá-la, mas se você encarou como invasão, por favor, a partir de hoje, guarde seus problemas, dos seus filhos, do seu marido, para você mesma, porque a partir do momento que você fala o quer, corre um sério risco de ouvir o que não quer.
E continuei minha vidinha...
Eu que já fui metrópole, hoje sou cidadezinha com estação ferroviária, vendo o trem passar.
E tenho dito!

quarta-feira, 20 de maio de 2009

DIVAGAÇÕES DE UMA MENTE COM MUITAS LEMBRANÇAS


Tudo começou porque eu comecei a pensar em como somos impotentes diante de uma enfermidade que pode nos levar a óbito (chique né?). Daí lembrei-me da história de uma madrinha. O que levou a lembrar que ela não era minha madrinha. Que desencadeou na história das “tias”, voltou à questão da morte e fechou com minha promessa de visitá-los.
Acharam complicado?
Vou tentar destrinchar...
Estava eu aqui no meu canto, ainda recuperando da enfermidade, pensando sobre a alegria de não ter morrido, pois pude ir à festa que teve na minha cidade natal e que reúne os “ausentes” e reencontrei amigos de longa data e que não via há décadas. Daí pensei, se eu tivesse morrido só ia encontrar alguns deles no meu velório, mas não ia ser a mesma coisa!
Foi então que eu lembrei da Madrinha Tereza e suas inúmeras teorias. Ela é uma octogenária com ambas as pernas amputadas, mas com um senso de humor melhor que a maioria das pessoas que conheço. Só quem foi criado em cidade do interior vai entender, mas é assim, a pessoa batiza um filho da família, a partir daí todo mundo chama de madrinha, a ponto de, nas grandes famílias, ser difícil saber quem batizou quem. Pois é, ela não é minha madrinha, mas é a Madrinha Tereza. Bem, a teoria dela para a morte é que a dita cuja deveria ser em forma de gancho, daí quando estivesse se aproximando a gente teria tempo de correr e se esconder num lugar onde o gancho não alcançasse...


Enquanto eu pensava nessa história de madrinha, lembrei que pela manhã fui estacionar o carro (viva!!!! Já estou dirigindo pequenas distâncias, pelo menos até a fisioterapeuta) e vem um tremendo galalau (Aurélio explica: um baita homem com hábitos adolescentes) e diz:
- Pode vigiar tia?
Tive vontade de voar no pescoço dele, mas controlei a raiva, olhei-o bem e devolvi:
- Por acaso sou irmã da sua mãe?
- Não senhora.
- Sou irmã do seu pai?
- Não senhora.
- Então, tia é o raio que o parta!
Essa geração tia é uma m... juro que prefiro que me chamem de Dona (apesar de não ser nada bonito).
Mas voltando à questão da morte... apesar de todas as minhas crenças: reencarnação, que estamos aqui de passagem, que nossa verdadeira morada não é aqui, etc. na hora H o medo aparece de verdade. E nem adianta aquele discurso bonito que sei fazer de cor. E se tudo que aprontei pesa muito mais do que fiz de bom? Ai Meu São Francisco! Vou arder no umbral! Isso porque ainda tenho certeza que não vou partir antes de 2017, e não perguntem como sei, é minha parte bruxa que sopra umas coisas no meu ouvido de vez em quando...
Cada pancada que a vida me dá eu me proponho a melhorar, a me empenhar mais em ser uma pessoa mais caridosa, mais amorosa, mais paciente, etc. mas tão logo o pior passa, passam também os bons propósitos. Espero que agora eu tome jeito!
Seguindo o rumo do pensamento eu pensei na quantidade de pessoas que convivo aqui e que não sabem o quanto as amo, o quanto suas palavras e visitas são importantes para mim e que não sabem nada disso. Daí lembrei de uma historinha, porque perco a vida, mas não o bom humor:
Um homem devia a todos na cidade. A cada dia acumulava mais dívidas. Chegou a um ponto que ninguém mais lhe emprestava nada. Todo final de mês ele escrevia em pequenos papéis os nomes de todos os seus credores e colocava dentro do chapéu. Daí ele sorteava aqueles que iriam receber alguma grana naquele mês. Um dia um credor insatisfeito foi procurá-lo para reclamar. O homem não pensou duas vezes e foi logo dizendo:
- Se continuar reclamando eu tiro o nome do chapéu!
Pois é, eu não vou colocar os nomes de vocês em papeizinhos, mas prometo começar a visitá-los semana que vem (chagará um novo computador!).
Até lá um beijo no coração e muita luz!

sábado, 25 de abril de 2009

ELE PARTIU...

ELE PARTIU...

Meu amigo se foi
Ele conhecia meus segredos mais íntimos,
Sabia das músicas que gostava de ouvir em cada momento de humor,
Entre nós não havia segredos.
Era sempre o primeiro a ver minhas fotos, até aquelas antigas, que se mostram para poucos,
Era o primeiro a ler meus poemas e escritos,
Nunca me decepcionou.
É certo que andou um pouco abandonado nestes tempos de doença...
Não foi uma partida abrupta, covarde,
Há tempos ele vinha me avisando
“Meu tempo está se esgotando”
Mas eu não quis ouvi-lo
Era mais cômodo ignorar a sofrer a perda.
Daí, depois de dois meses entre hospital e convalescença, fui visitá-lo
Abordei-o com todo o meu carinho
Ele não deu sinal de vida.
Tentei mais uma vez, já impaciente.
Ele não respondeu
Continuei insistindo outra vez mais, e mais, e mais
Até que ele se iluminou, fez uns sons estranhos,
Daí senti um cheiro de queimado
A fumaça invadiu a sala
E ele se foi de vez.
Levou com ele minhas lembranças,
Meus tesouros, meus segredos,
Não tem como superar a dor
Da morte do meu computador!


Queridos amigos, assim que providenciar um novo computador começarei a visitá-los, diz a fisiterapeuta que eu posso fazer cinco visitas por dia (rs)... sei que vou levar quase um ano, mas já é um começo.
Beijo grande a todos e muita saudade disso tudo aqui!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

COISAS QUE SÓ ACONTECEM COMIGO!


Nada como começar o ano rindo da gente mesmo... porque dos outros a gente está sempre rindo! Eu havia planejado seguir a Saga de Compostela, mesmo porque estou devendo a muita gente a continuação da viagem, mas parece que Janeiro resolveu começar como se fosse continuação de dezembro, e eu sigo correndo, sem tempo nem para escrever aos amigos... o que prometo fazê-lo assim que puder, com a devida dedicação.
Mas essa não poderia passar em branco!
Dia 29 de dezembro, toda essa história de limpar a casa, desfazer-se das velharias, porcarias, etc. resolvi juntar uns cacarecos para colocar no lixo.
Obs.: embora meu bairro não tenha coleta seletiva, eu faço a separação porque existem os catadores que passam antes do caminhão do lixo e pegam o que lhes servem.
Pois é, juntei luminária usada, reator, lâmpada, garrafa pet, garrafas long neck, latas de alumínio e uma infinidade de coisas. Como não cabia tudo nos sacos de lixo, eu peguei uma sacola grande de loja, daquelas de plástico que faz barulho, e coloquei as coisas maiores.
À noite, juntamos a sacolada toda e colocamos para fora...
Daí ficamos assistindo TV, meu marido dormiu, filhos foram dormir e minha companheira, Dona Insônia, nada de ir embora.
Passava das duas da manhã, eu incomodada em ficar na cama que nem hambúrguer na chapa, ora de um lado, ora do outro, resolvi levantar e ir para a varanda.
Cabe aqui uma explicação: moramos num bairro estritamente residencial, super tranqüilo, rodeado de mata, silêncio absoluto e minha casa tem dois andares, sobre pilotis, então eu estava numa altura equivalente ao terceiro andar e tem um poste de energia elétrica bem do outro lado da rua que ilumina lateralmente a varanda.
Porém lá pelas tantas começou um ventinho frio e eu peguei um lençol, me cobri e segui a admirar as estrelas, a pensar na vida, a não fazer nada... até que de repente começo a ouvir um barulho estranho...
Agucei minha percepção para identificar de onde vinha o barulho.
Era a sacola! A da loja! Pensei: - Deve ser algum bicho!
Levantei quietinha, o lençol sobre os ombros, os cabelos em pé, pior do que bruxa desvairada e cheguei ao parapeito.
No mesmo instante vejo um homem (que depois identifiquei como sendo o vigia do bairro) com a sacola nas mãos buscando os objetos que lhe interessavam.
Ato contínuo ele olha para cima, dá de cara comigo, assusta-se, solta a sacola, dá um passo para trás e grita:
- Valei-me meu Jesus Cristo! E sai em disparada...
Eu, para não assustá-lo ainda mais dou também um pulo para trás, segurando o riso.
Só sei que até hoje ele ainda não voltou a apitar na frente da minha casa... Acho que daqui uns tempos correrá a história da casa mal-assombrada que tem uma mulher que fica vagando na madrugada...

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

CARTA

Catedral de Puebla - México


Meu querido

Há tempos penso em escrever-lhe... tanta coisa acumulada dentro de mim, tanta coisa a contar com a certeza de ser compreendida, tanta coisa... mas, é que passo muito tempo escrevendo longas cartas para ninguém e também, como diz a música, “uns versos, depois rasgo”, daí perdi o ritmo, perdi a maneira, perdi.
Sabe, queria de contar das minhas perdas, mas talvez a pessoa que você é hoje achasse mesquinharia eu falar de perdas uma vez que cremos em reencontro, reencarnação, em vidas passadas. Mas despedir dói (ainda dói).
Contar, quem sabe? da passagem de um livro que me emocionou que dizia: “As lembranças emergem no presente intemporal do amor, no louco espaço onde uma mulher e um homem são tudo para passar imediatamente a outro espaço onde já não há mais nada, onde os direitos terminam, onde a intimidade desaparece para ser guardada a chave no baú das recordações, na arbitrariedade dos amantes onde de um minuto para outro o nada se instala. Por que não conheci você antes...?” (SERRANO, Marcela. O Albergue das Mulheres Tristes) e perguntar o que você acha, com certeza você me falaria de amores, filosofia, mundos paralelos.
Mas queria mesmo saber o que você está lendo, voltar a ler os mesmos livros, escrever nas margens e depois comparar as impressões. Esses dias estava relendo Castañeda e lembrei de você, numa passagem em que Don Juan diz:
“Yo digo que es inútil desperdiciar la vida en un solo camino, sobre todo si ese camino no tiene corazón.
- Pero, ¿cómo sabe usted cuándo no tiene corazón un camino, don Juan?
- Antes de embarcarte en cualquier camino tienes que hacer la pregunta: ¿tiene corazón este camino? Si la respuesta es no, tú mismo lo sabrás, y deberás entonces escoger otro camino.”
Mas no momento certo você se encontrará Don Juan (talvez já o tenha encontrado). Mesmo assim fiquei a perguntar-me: será que naufragamos por haver coração demais em nossos caminhos?
Queria também te contar das viagens que fiz pelo mundo, das coisas que vi, das inúmeras vezes em que sozinha, estive com você, em todos os lugares que sonhamos estar juntos. E não foi triste... foi como se eu visse cada coisa, cada paisagem, através do seu olhar. Foi um grande aprendizado.
Queria te contar que aprendi a ouvir música, por longo tempo, de Kevin Kern a música erudita, em silêncio, deixando que as notas invadam minha alma e me alimentem de som, como você me ensinou, mas sinto saudade de, encostada num portal qualquer, cantar:
“Bem que se quis / Depois de tudo / Ainda ser feliz / Mas já não há / Caminhos prá voltar / E o quê, que a vida fez / Na nossa vida? / O quê, que a gente / Não faz por amor?... / A minha estrada corre / Pro seu mar... “
Sabe, este final de ano não quero me encher de resoluções, nem promessas, nem esperanças... quero apenas saber que escolhi um caminho com coração, mesmo que esse caminho deixasse para trás a parte mais bonita de mim.
Não há mais lugar para pular sete ondas, chupar romã, comer lentilhas ou usar essa ou aquela cor... não espero muito mais da vida, estou satisfeita com o que tenho. Sonhos? Sim, ainda sigo sonhando e buscando realizá-los. Não desisti de viver, desisti sim, de correr atrás do impossível, desisti de sofrer pelo que não tenho, pelos caminhos que não escolhi.
Fiz minhas escolhas e isso me basta. Talvez porque ainda acredite que haverá um dia... um lugar... quem sabe outra encruzilhada?
Se sou feliz?
Devolvo com outra pergunta: Existe alguém verdadeiramente feliz?
Só uma coisa gostaria de ainda saber: como está você? Como tem sido sua vida? Continua crendo e buscando o amor em outras bocas e outros corpos?
Conseguiu enfim apagar-me da sua memória?
Se conseguiu, poderia ensinar-me?
Hoje e sempre,
Eternamente

Leda
(este post eu dedico a Dauri Batisti, ele sabe porque...)