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segunda-feira, 14 de março de 2011

NUNCA FUI MOVIDA A MEDOS


Sozinha na varanda do "meu cantinho", apreciando as nuvens transformando-se em chuva, lembrei-me das tempestades da minha vida.
Tempestades no sentido literal.
Relâmpagos, trovões, enchentes.
Uma vez, na escola, começou uma chuva torrencial e a maioria das crianças procurou abrigar-se próxima à professora, que à época era chamada de "Dona" e não "Tia" como hoje.
Permaneci sentada, quieta no meu canto.
Quando indagada se não tinha medo, respondi que não. Naquela tenra idade não tinha medo de nada que conhecesse. Se me diziam para não ir a determinado lugar porque tinha bicho-papão, aí é que eu queria ir mesmo, para conhecê-lo. Portanto, também não tinha medo do que ainda não conhecia.
Mas um dia a chuva trouxe a enchente até a casa que habitávamos, à beira do rio, e com ela vieram as cobras. Aí conheci o medo. Talvez incutido pelos meus pais que temiam pela minha integridade diante da minha "petulância" de tudo querer ver, conhecer, tocar. Eu poderia me ferir seriamente por não temer nada e acreditar que as cobras eram inofensivas.
Depois disso não lembro de nada mais que tenha me trazido o sentimento de medo.
É certo que cobra não olho nem na TV.
Mas tirando cobra, não temo nada vivo, muito menos morto.
Sempre destemida, segui adiante. Enfrentando minhas batalhas, angústias, doenças, perdas, incertezas.
Mas medo, medo mesmo, de paralisar os movimentos, não me lembro de ter sentido por mais nada.
Mas dia desses, lendo o jornal, deparei-me com a notícia sobre uma mãe que havia jogado o filho no rio.
Senti um gosto amargo, um tanto esquecido, gosto de medo.
Hoje tenho mais um: medo da dureza do coração dos homens.


terça-feira, 4 de janeiro de 2011

VITÓRIA NA PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO

Esta mensagem eu recebi da minha amiga-irmã Cris. Achei um absurdo ocultá-la. Por isso, compartilho com vocês na esperança de novos tempos, novos dias, com menos guerras, preconceitos, intolerâncias.
Eu creio num mundo melhor. E a Cris também! Aleluia!

por Matthew Cullinan Hoffman

25 de dezembro de 2010 (Notícias Pró-Família) — À medida que o ano de 2010 estava chegando ao fim, aconteceu algo maravilhoso numa praça de alimentação num shopping center do Canadá. De repente, os clientes despertaram e começaram a cantar, a cantar de forma bela, a cantar o Coro Aleluia de “O Messias” de Handel. O evento “flashmob*”, filmado com múltiplas câmeras escondidas, difundiu-se pelo YouTube, onde foi visto mais que 26 milhões de vezes desde 17 de novembro, tornando-o um dos vídeos mais assistidos da história do YouTube (Assista aqui: http://www.youtube.com/).



Quando assisti ao vídeo, ponderei a questão do motivo por que eu, um homem crescido que não é conhecido por perder sua compostura, estava chorando como um bebê, e por que muitos outros reagiram da mesma forma, tanto na própria praça de alimentação como entre os usuários que deixaram comentários. Por que é que esse vídeo de uma antiga obra de polifonia cristã estava alcançando e movendo dezenas de milhões de pessoas, uma distinção que normalmente gozam as expressões banais da cultura popular?
A primeira e mais óbvia resposta é que a pura beleza e reverência da peça vêm movendo pessoas às lágrimas desde que foi composta pela primeira vez pelo próprio Handel. De acordo com uma antiga história sobre Handel, seu assistente certa vez o procurou depois de chamá-lo durante vários minutos. Ele encontrou Handel no quarto dele, em lágrimas, enquanto ele estava compondo o Coro Aleluia. “Acho que vi a face de Deus”, disse ele.
Foi comovente ver um povo tão belo, de todas as gerações e procedências raciais, executarem essa grande obra com alegria e reverência, mas ainda mais comovente foi sua capacidade de transformar uma praça de alimentação, um símbolo trivial de nossa cultura consumista cada vez mais degradada, com o louvor glorioso de Deus. Por um momento naquele dia de novembro, o secularismo militante da moderna sociedade emudeceu na face de algo que jamais poderia produzir, nem começar a sondar, uma bela voz de seu passado repudiado, insistindo em verdades que nunca morrerão: e Ele reinará para sempre!
Chorei também pelo mundo perdido da minha infância. Embora a cultura da década de 1970, já cambaleando das agitações da década de 1960, tivesse sido apenas um reflexo pálido da sociedade cristã que a precedeu, muitos elementos dessa civilização perdida estavam ainda intactos. O Coro Aleluia e outras obras semelhantes eram considerados coisas naturais e normais da sociedade, uma defesa do compromisso para com uma cultura cristã que permeou os Estados Unidos, Canadá e boa parte do mundo ocidental. Mas os EUA em que nasci desapareceram, e o Coro Aleluia é agora considerado um ato revolucionário, um gesto de desafio na face de uma sociedade “pós-cristã” cínica.
Mas a cristandade, com Cristo como rei, jamais poderá morrer. Pode ser forçada a se esconder nos subterrâneos por algum tempo, na privacidade dos lares e corações, mas as palavras do Coro Aleluia nos fazem recordar que Jesus Cristo é “o Senhor Deus onipotente”, o “Rei dos reis e Senhor dos senhores” cujo reinado nunca acabará. O reinado de Cristo desabrochará de forma nova milhares de vezes e em mil lugares, em shopping centers e ruas, em lojas e escritórios governamentais. Sua ressurreição, como a do próprio Cristo, é garantida.
“No momento em que os homens reconhecerem, tanto na vida privada quanto pública, que Cristo é Rei, a sociedade em fim receberá as grandes bênçãos de real liberdade, disciplina organizada, paz e harmonia”, escreveu o Papa Pio XI em sua encíclica que estabelece a festa de Cristo Rei. A isso, que toda a cristandade diga: “Amém”.

*
Nota do tradutor: Um flashmob (traduzido do inglês para “multidão instantânea”) é um evento onde um grupo de pessoas vai de repente a um lugar público, desenhando movimentos pré-coreografados com certas finalidades.

Artigos relacionados:
Traduzido por Julio Severo: www.juliosevero.com
Veja também este artigo original em inglês: http://www.lifesitenews.com/news/victory-at-the-food-court
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domingo, 7 de novembro de 2010

FUI SOTERRADA POR E-MAILS



Tudo começou quando adoeci.

Sem disposição e condições de acessar meus e-mails, a caixa de entrada foi enchendo, enchendo e quando eu fui ver tinha mais de duas mil mensagens sem ler.

Tentei, de todas as formas, colocar as mensagens em dia. Jurei que todos os dias iria ler as mensagens do dia e mais umas dez das atrasadas.

Não consegui.

A cada dia chegavam mais mensagens e eu não conseguia nem ler as do dia.

Daí deixei de lado e passei a ler as que interessavam. Criei uma pasta – “ler um dia” - e coloquei mensagens que conhecia o remetente e cujo assunto poderia me interessar, e fui deixando as outras.

Hoje eu tenho, exatamente, 3.569 mensagens sem ler. Isso sem contar a pasta de spam!

Dias desses resolvi dar uma “olhada” nos assuntos.

Ofertas de todo tipo: celulares por 699, geladeira a 2998, 159 o kit de casal, puffs por 39,90...

Promoções, as mais diversas: livros, bijuterias, jóias, remédios, som automotivo, etc.

Mas o que me chamou a atenção foram os cursos.

Um me oferecia, gratuitamente, curso de ator, bastava "clickar" num determinado link e mandar o convite para 20 amigos.

Outro, intitulado “Por que aumentar sua autoestima” trazia uma série de artigos, entre eles “FOGO ACESSO – Mulher de 75 anos, casada, bem resolvida financeiramente, tem amante de 35. Por que não?”, e eu só fiquei no “aé??? O que que eu tenho com isso?

Tinha um cujo assunto era “localização de celular”. Alguém dizendo-se “Advogado Virtual” se oferecia para localizar “pessoas, documentos, endereços/telefones residencial e comercial, emails, parentes e vizinhos” por apenas 69,00.

Sem contar um, diretamente da Suíça, me oferecendo um legítimo Rolex.

Até aí tudo bem, fui olhando, deletando.

Mas me deparei com um que me tirou do sério. Assunto: “Procedimentos para aumentar seu pênis”. Uma vez que não possuo tal órgão, será que pensaram que me interessaria aumentar o pênis do meu marido? Ou, talvez, seriam ensinamentos para uma próxima encarnação? Ou será que queriam me arregimentar como multiplicadora? Que interesse tenho eu em aumentar o pênis de quem quer que seja?

Depois desta, deletei tudo. Sei que ao final do mês terei mais de uma centena de e-mails sem ler, é uma vitória momentânea, pois nessa batalha inglória, os e-mails sempre ganham.

sábado, 19 de junho de 2010

MORREU SARAMAGO. MORREU!


Não era unanimidade, porém, como dizia Nelson Rodrigues, “Toda unanimidade é burra” e ele pode ser chamado como quiser, menos de burro!

O primeiro livro de (José de Sousa) Saramago que tentei ler foi “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” – lançado em 1991, talvez sua obra mais polêmica – onde ele reescreve a Bíblia através da narrativa de um Jesus feito homem. Confesso que não consegui. Estranhava-me aquele modo de escrever, ininterrupto, meio mal pontuado, sem diálogos definidos... tudo isso na minha nada humilde e muito prepotente opinião.

Guardei o livro. Quem sabe em uma outra vez? Mesmo porque estava envolvida com outras leituras, escritos, casa, filhos, serviço, viagens executivas, etc. Lembro que ele ficou em cima da escrivaninha, com sua lombada azul marinho escrito em dourado, fitando-me, como a dizer: Um dia você estará preparada, eu espero!

Tinha tanta coisa a ler...

Quando me pediam alguma opinião, eu dizia que não gostava de Saramago. Até que um dia percebi o quão incoerente estava sendo, porque até para não gostar, tem que se conhecer.

Decidi ler O Evangelho... Não foi fácil. Foi preciso despir-me de todas as ideias pré-concebidas acerca de literatura, estilos, formas e fôrmas. E como não se apaixonar pelo Jesus de Saramago que "conheceu o amor da carne e nele se reconheceu homem".

Li outros livros de sua autoria: Ensaio sobre a Cegueira, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Memorial do Convento, As intermitências da Morte. Outros não consegui: O Homem Duplicado, A Viagem do Elefante. É bem provável que falta-me inteligência e lucidez para alcançá-lo.

Mas como não reverenciar-me a um homem que diz: “Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar”.

Crítico ferrenho da Igreja Católica, dizia-se ateu, mas confessava: “Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro”.

Amou três vezes, porém seu maior amor foi justamente o último (a jornalista e tradutora espanhola Pilar del Río), que o mesmo Deus que negava, guardou para o final de sua vida.

Vai ficar um vazio muito grande na literatura de língua portuguesa, pois ninguém, nunca mais, vai dizer-nos: “Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.”

O meu também, Saramago.

Também.


quarta-feira, 9 de junho de 2010

Eis o motivo...


No último post mamãe disse que estaria voltando, mas como podem comprovar pela foto acima, vai demorar um pouquinho mais...
Ela está muito bem acompanhada e deixa pra vocês essa mensagem, que está com ela:

Deus te sustentará e onde não possas fazer todo o bem que desejas realizar Deus fará sempre a parte mais importante.
Emmanuel (por Francisco Cândido Xavier)


terça-feira, 8 de dezembro de 2009

ENCHENTE EM AFONSO CLÁUDIO - PARTE III


Segundo dados oficiais da Prefeitura Municipal de Afonso Cláudio, até a presente data, a situação do município é a abaixo relacionada, podendo vir a ser alterada, pois ainda estão chegando informações de localidades do interior que se encontram isoladas.

Números de afetados - 23.297 pessoas
Números de desabrigados - 144 pessoas
Números de desalojados - 192 pessoas
Casas danificadas - 31
Casas destruidas - 14
Casas comprometidas - 22
Casas alagadas - 79
Perda de móveis - 68 famílias
Comércio afetados - 50 estabelecimentos
Comércio destruído - 01 estabelecimento

domingo, 6 de dezembro de 2009

ENCHENTE EM AFONSO CLÁUDIO - ES (PARTE II)















As fotos eu "tomei" emprestado (sem falar, pois não a conheço, mas desde já agradeço por nos mostrar a extensão da tragédia) da Franciele Galvani, através do orkut da amiga Lúcia Helena Deorce.
Pelo que eu pude saber, através de informações de amigos daqui de Vitória e de lá é que os Bairros Boa Fé e Bela vista foram os mais afetados. As águas inundaram toda a parte baixa da cidade, as Avenidas Presidente Vargas e Marechal Deodoro, chegando até às calçadas da Igreja Católica. Muitas casas estão condenadas. Houve o desabamento de um restaurante que ficava na rua "do outro lado do rio", na rua da Escola de Contabilidade.
Há notícia de que carros foram arrastados.
Graças a Deus até o momento não se sabe de mortes em decorrência da tromba d'água.
Essa foi uma forma que encontrei para deixar outros afonsoclaudenses cientes do ocorrido.
Coloco esse meu espaço à disposição de qualquer iniciativa que venha minimizar o sofrimento de todos.

ENCHENTE EM AFONSO CLÁUDIO - ES

Ponte do Ginásio

Prefeitura Municipal

Praça Aderbal Galvvão

Ontem à noite chegou-me a notícia que havia acontecido uma grande enchente na minha cidade natal.
Meu coração se apertou de tal forma que até a respiração ficou difícil.
Já me acostumei, nos últimos tempos, a ver enchentes, tornados, destruição, pessoas que perdem tudo, literalmente, mas isso confortavelmente sentada no sofá da minha casa, olhando estranhos. É claro que o sentimento de pesar me acompanhava naqueles momentos, mas eu pensava: Que pena! Coitados! Infelizmente não posso fazer nada.
Agora não!
Os coitados são amigos. São pessoas importantes na minha vida.
Dizem que a água chegou sem aviso... foi tomando tudo, destruindo tudo. Fosse noite, muitos teriam morrido.
Tudo isso me faz lembrar quando criança, pequena demais para guardar essas lembranças, morando numa casinha à beira do rio e chegava a época das enchentes. A água ia subindo... meus pais, padrinhos, amigos revezavam na vigília, a pressa em tirar o pouco que tínhamos, panelas, pratos, etc. e levar para cima, onde ficavam o quarto e sala (não me lembro da casa ter banheiro) e a água invadia aos poucos e subia, subia e com ela vinham as cobras e o medo.
Esse mesmo Rio Guandu da minha infância, agora leva com ele os pertences de amigos e desconhecidos, mas ligados a mim pelo fato de sermos da mesma cidade.
Custa-me ver a praça da minha adolescência, recém reinaugurada, debaixo d’água.
Dói-me ver a ponte por onde passava todos os dias para ir à escola condenada pela ação da força da água.
Dói-me... mas agora eu posso fazer diferença!

(fotos: FRANCIELE GALVANI)

domingo, 20 de setembro de 2009

UM MONSTRO À SOLTA

(Fonte barcelonadream.blogs.sapo.pt)

Com essa minha imobilização temporária (creio eu), tenho ficado muito em casa, o que para mim é um tormento, pois, como dizia a minha mãe, eu sou muito “rueira”.
Mas essa semana eu tive alguns compromissos e meus filhos e marido serviram de motorista, o que me permitiu passear e observar as ruas, as praças, os lugares por onde passava.
Levei foi um grande susto!
Logo na pracinha de Jucutuquara* quando olho para o lado da antiga fábrica de tecidos, cadê a casa dos “donos” da Braspérola? Sumiu! Só sobrou o muro... Mas como a Prefeitura destruiu a antiga fábrica dizendo que ia fazer um espaço de artes e eu só enxergo a fachada e um grande vazio atrás, pensei com meus botões, vai ver a prefeitura também comprou a casa e vai fazer alguma coisa boa para a comunidade, mas precisava derrubar aquele casarão antigo tão lindo?
Seguimos em direção ao centro da cidade e logo depois da curva do Forte São João, outro susto, onde já haviam derrubado o velho Restaurante Universitário, agora sumiu também a casa da frente, uma que tinha lindas janelas verdes.
Na volta, passamos por Bento Ferreira e as casas lá também estão sumindo do dia para a noite. Você passa a casa está lá, dois ou três dias depois, ela some inteirinha. O mesmo está acontecendo na Praia do Canto. Isso porque meu passeio se restringiu a esses bairros, imagino o que não estará acontecendo por toda a cidade!
Logo nós, capixabas, que temos como característica a utilização de casas, prédios, pontos comerciais como pontos de referência, o que iremos fazer se estão destruindo tudo?
Olho aquelas paredes que sobram e vejo azulejos brancos, algumas partes com azulejos coloridos, intermediados de paredes de cores diversas e fico pensando o quanto de história está sendo jogada no lixo. Quantos segredos aquelas paredes ouviram. Juras de amor. Brigas pra nunca mais que duravam poucas horas. Primeiros choros de bebês que nasceram rodeados dos que mais os amavam. Casos de vida e de morte.
Parte da minha história, na cidade do interior, já foi devorada e lhes digo, a sensação não é nada boa. Onde antes havia uma cozinha com cheiros que se acessavam a um olhar, hoje só sobrou chão.
Minha conclusão é que tem um monstro à solta comendo nossa história.
Acho que ele se alimenta das lembranças que ficam abrigadas nas antigas casas, por isso, à noite, ele sai e as devora.

*Jucutuquara - 0 nome Jucutuquara, JUCU-ITA-QUERA, é de origem indígena e significa "pássaro do buraco de pedra" ou YTICUTUQUARA, que significa "conchas suspensas", condizentes com a forma dos buracos da "Pedra dos Olhos" localizada na área e batizada pela própria natureza. As mutações lingüísticas fizeram valer a linguagem popular: Jucutuquara. Nome da antiga fazenda que havia no lugar, pertencente à família Monjardim, século XIX.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

MEU MOMENTO OLÍMPICO (INTERLÚDIO DOIS)


Se tem um sentimento que estou tentando excluir do meu repertório de más tendências é a raiva. Mas parece que o mundo insiste em conspirar contra os meus propósitos. Vejam se não tenho razão:
1 – Quero matar quem teve a brilhante idéia de realizar esta edição das Olimpíadas num lugar com fuso horário de 11 horas de diferença para o nosso. Com isso, sou “obrigada” a mudar todo o meu fuso. Pela experiência nesses últimos dez dias, só posso dormir tranqüila, sem perder nada, do meio-dia (quando não há atraso em alguma competição) até as oito da noite. Acontece que o mundo real não acontece na tela da TV, então, durante esse período tenho que cumprir com todos os meus compromissos, mesmo morrendo de sono.
2 – As camisas de trabalho do meu marido estavam horríveis, e é claro que seus colegas, ao olharem-no, vão logo pensar, não dele, mas de mim, “que mulher relaxada” nem roupa o pobre tem. Como se fosse obrigação da mulher o bem vestir do esposo. Acontece que por minha culpa, reconheço, aqui em casa é assim. Eu que compro tudo, da meia ao terno. Azar para mim. Daí, juntando o útil ao agradável, peguei uma promoção e “demos de presente de dia dos pais” dez novas camisas. Até aí tudo bem. Todos felizes.
3 – Não nasci para o serviço domestico. Quando criança, minha mãe insistia em me ensinar a fazer coisas como cortar carne (arre!!), lavar banheiro, etc. e eu dizia, “um dia vou trabalhar, ganhar dinheiro, e pago alguém para fazer para mim”. Até que deu certo. Até certo ponto.
4 – Na fase dos 50 aos 60 anos você fica desamparado. Não é novo para fazer certas coisas nem “idoso” para aproveitar as benesses da idade, entre elas, ter direito à vacina antigripal.
Resultado destas ponderações:
Peguei uma gripe daquelas, meu nariz mais parece um chafariz! Com direito a febre, dor no corpo, vontade de ficar na cama, quietinha, sem piscar nem o olho.
Minha empregada adoeceu, não veio, e eu tinha lavado todas as camisas novas do Roberto (e já dado as velhas) já que ele só usa roupa nova depois de lavada: e eu odeio passar roupa! Mas sobrou para mim, arrumar casa, passar roupa, etc.
Isto depois de ter passado o domingo e madrugada vendo resultados negativos e assistindo, impotente, os chineses boicotarem a Fabiana Murer e as americanas Walsh e May comerem o fígado das brasileiras nas areias...
Olimpíada, gripe, ausência de secretária! Afe!
Já nem quero revanche, não sobrou nadinha do espírito olímpico, não quero revanche.
Hoje, da vida, quero vingança!

domingo, 6 de julho de 2008

INGRID BETANCOURT, UM OLHAR


Não sei se já comentei aqui, mas não sou daquelas mulheres que necessitavam da maternidade para se realizarem. Tudo bem, sou mãe, acho que fiz um bom trabalho na educação de meus filhos, mas a maternidade nunca esteve nas minhas prioridades de vida.
Vocês devem estar se perguntando o que isso tem a ver com Ingrid Betancourt. Aparentemente, nada.
Hoje, por conta da globalização e do acesso aos meios de comunicação, estou para jurar que metade da população brasileira pode não saber o nome do prefeito de sua cidade, mas sabe da libertação da Ingrid pelas Farc.
Quem me acompanha nunca me viu falar de política, futebol, pauta de jornal, apesar de correr em mim o sangue da jornalista. Esses assuntos têm sites inteiros, e de qualidade, a eles dedicados.
Mas não consigo me calar diante da libertação de Ingrid Betancourt.
Foi uma violência seu seqüestro? Acredito que ninguém em seu estado mental normal concorda com uma barbárie destas nos dias atuais.
Que não há mais espaço para lutas armadas? Isso é opinião pessoal e a minha é que nada justifica erguer armas contra outros seres humanos seja qual for a justificativa.
As humilhações, brutalidade, tudo pelo qual passou, não ouso sequer comentar, tamanha é minha tristeza ao constatar que ainda existem seres humanos capazes de tamanha crueldade.
Mas o que eu quero falar é apenas de um olhar.
O Olhar da mãe para seus filhos. E neste momento não importa se como eu ela tinha ou não instinto maternal ao pari-los, importa que uma vez mãe, a gente se transforma. Esquece de si. Passa para segundo plano.
É esta Ingrid que quero mostrar.
A mãe que não suporta mais a espera e embora tentem segurá-la, se desvencilha e sobe, resoluta, as escadas até o avião.
A mãe que procura, aflita, através do vidro da porta, pelos filhos dos quais foi brutalmente afastada.
A mãe que os abraça, beija e chora. Lágrimas que só ela saberia explicar (se é que existe explicação para este tipo de lágrima).
A mãe que os olha com uma ternura capaz de afetar qualquer ser a milhares de quilômetros, que a tudo vê, apenas pela telinha da tv.
A mulher que fala sobre as atrocidades contra ela cometidas, sem soltar as mãos dos filhos, lançando-lhes o olhar, fazendo-lhes um afago, dando-lhes um beijo, a todo o momento, como querendo convencer-se que não passava de um sonho.
A senadora, candidata ao governo, seqüestrada, prisioneira, refém, por mais de seis anos, só quer, qual leoa, lamber as suas crias.
Diz estar no paraíso, que “es el nirvana”.
E ai daquele que ousar tirá-la de lá.

Imagens: Três momentos de Ingrid Betancourt – fonte BBC Brasil.com