(Autora: Kátia Corrêa De Carli)
terça-feira, 6 de outubro de 2015
DESPEDIDA
(Autora: Kátia Corrêa De Carli)
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quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Cansaço
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sexta-feira, 26 de setembro de 2014
FRAGMENTOS
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quinta-feira, 4 de setembro de 2014
CASAMENTO
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quarta-feira, 26 de março de 2014
SOLITUDE, SOLIDÃO
Hoje acordei com desejo de solitude.
Não ouvir o barulho da obra em frente,
Não ouvir o rádio tocando música brega,
Nem o sujeito gritando “olha o gás”.
Não quero os sons produzidos pelo homo sapiens
Nem pelos seres do mundo animal.
Não quero palavra sussurrada,
Nem canto de pássaro,
Nem a mais linda balada.
Hoje queria ausência de mim,
Como se pudesse abandonar meu corpo na cama
E ir para um lugar qualquer, em outra dimensão
Um lugar onde não houvesse espaço
Para pensamento, saudade, cansaço.
E de lá observá-lo quieto, mudo, imóvel,
Como acho que devem ser os corpos mortos,
Sem dor...
Hoje queria mesmo era solidão.
(Kátia Corrêa De Carli)
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segunda-feira, 25 de março de 2013
SÚPLICA
Em homenagem ao Dr. Walker Penedo Monteiro, anjo que Deus colocou no meu caminho
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terça-feira, 12 de abril de 2011
DIVAGAÇÕES
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terça-feira, 7 de dezembro de 2010
PODERIA SE CHAMAR AUTO RETRATO, POR MIM

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segunda-feira, 13 de setembro de 2010
PELO CAMINHO
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domingo, 18 de julho de 2010
PORQUE EXISTIU UM DIA, UM 18 DE JULHO...

Porque houve um dia um 18 de julho
E por um instante reconheci na multidão
Aquele que veio a este mundo para me encontrar
E vi estrelas num olhar de céu e mar
E descobri o porto seguro onde ancorar minha vida turbulenta
E senti o calor que aquece coração
Porque houve um dia em que meus olhos pararam de procurar
E minha alma se aquietou num abraço
E conheci o sabor de mel do beijo único
E nunca mais minha vida foi a mesma
Porque se encheu de luz, amor, poesia,
Que seguem comigo, aonde eu for...
E dele sempre será,
Até a eternidade, e se houver um fim,
A melhor parte de mim.
Tudo isso porque houve um dia...
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domingo, 27 de junho de 2010
TEMPO
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quarta-feira, 12 de maio de 2010
ORAÇÃO
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sábado, 20 de março de 2010
MAIS UMA DE AMOR...
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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Indagações... só isso
Houve um tempo em que eu sabia para onde ia... sabia a meta
Embora não conhecesse a estrada, mirava o destino
Tinha a vida nas mãos
E as decisões eram minhas.
Aos poucos fui fazendo as coisas por instinto
Porque a vida não vem com instruções.
Achando que estava certa, eduquei filhos
Mas como não tinha manual de orientação
Hoje me pergunto: Fiz a coisa certa?
Não sei.
Segui carreira, galguei cargos,
Trabalhei anos a fio.
Hoje me pergunto: Algum dia fiz o que realmente amava?
Não sei responder,
Por isso agora essa angústia,
Indagações sem fim,
Fiz alguma coisa certa?
Quantos erros cometi?
Onde falhei?
Não encontro respostas.
Não sei nem o que a vida fez comigo.
Procuro dentro de mim
Um lugarzinho que seja
Onde exista ainda paz,
Onde não esteja contaminado
Por intrigas, agressões, desamor
Mas quando olho ao redor
Apesar de tudo que construí
Encontro-me sozinha.
Alguém pode me responder
Onde foi parar a vida que julgava minha?
Kátia Corrêa De Carli (inédito)
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sábado, 30 de janeiro de 2010
CORREIO SENTIMENTAL
Para Tide,
Apesar de não ser especialista nestas questões, talvez a vivência de tudo que passei me habilite a tentar analisar e responder.
Você perguntou se é possível sentir saudade de alguém que não se conhece. Devolvo com uma pergunta: existe alguém no mundo que a gente possa dizer que realmente conhece? Não conhecemos nem nós mesmos...
Existem pessoas que a gente já viu milhares de vezes e não conhecemos...
Existem pessoas que a gente nunca viu olho a olho e que conhecemos muito mais que nosso vizinho de porta.
Existem pessoas especiais, que basta uma palavra, uma demonstração de afeto (seja um cartão, uma foto ou um cd caseiro de MPB) e se deixam mostrar escancarando a alma, porque sabem que quem está do outro lado também escancara sua alma, sem pudor. É a confiança construída a cada conversa, a cada “teclada”...
Então, minha tese é que não existem pessoas que não conhecemos, existem pessoas que a gente não encontrou pessoalmente, ainda, mas que conhecemos e amamos.
E o amor gera saudade... qualquer espécie de amor.
Mesmo aquele amor que parte o coração, deixando como “carne moída”.
Depositamos nossa esperança, todo nosso amor, carinho, devotação a uma pessoa. Passamos a viver na espera do retorno - ainda não somos tão evoluídos a ponto de amar por amar, para nós o amor tem que ser pista de mão dupla – e não perguntamos ao outro se ele está colocando na relação todo o seu amor, carinho, etc. também. E na maioria das vezes, a relação é de mão única. E quando acaba, quase sempre de um lado só, sobra um velho coração despedaçado, desesperançado, doído a ponto de se sentir dor física.
Quando isso acontece queremos morrer junto com nosso coração.
Os dias vão passando, a dor vai diminuindo aos pouquinhos... mas não acaba! Nunca! Carregamos no olhar a dor daquele amor perdido. É como queimadura, a cicatriz permanece por todo sempre a lembrar aquele amor não vivido.
Amor perdido é amor eterno!
FIM
Não existe nada mais doído
Do que o fim de amor.
Amor idealizado,
Amor conquistado aos poucos,
Amor!
Num ímpeto de raiva
Tentei apagar os vestígios
De sua passagem pela minha vida.
Queimei cartas, recados, retratos,
Apaguei seu nome da minha agenda,
Não mais passei pela sua rua,
Nunca mais ouvi “nossas” músicas.
As lágrimas vieram uma a uma,
Lavei com elas minha alma,
Minha mágoa,
Minha dor.
Com o passar dos anos a gente consegue
Enganar até mesmo a memória,
Achando que esqueceu.
Achei que tinha esquecido você.
Só muito tempo depois descobri
Que o amor dói mesmo muito depois do seu fim.
Dói a cada encontro,
A cada olhar,
A cada recordação.
O fim de um amor a gente até supera
Mas não esquece não.
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
ENCONTROVERSO
Postado por Katia De Carli às 10:43 2 comentários
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009
PASSO E COMPASSO
A única coisa que não foi surpreendente foi a qualidade e quantidade de amigos sinceros que tenho espalhados pelo mundo, perto e distantes, conhecidos e ainda por conhecer, mas amigos da melhor estirpe!
Agora, que estou, mais uma vez, prestes a encontrar um novo e desconhecido (para mim) diagnóstico, que provavelmente me levará outra vez para o hospital, lembrei-me de um poema que escrevi há muito tempo, décadas...
Acho que chegou a hora de aceitar esse novo passo, redescobrir um compasso, tentar ser feliz.

(Imagem ilustrativa retirada da internet - infelizmente não tenho fotos da "nossa" banda)
Acelere o passo,
Diminua o compasso.
Vestidos de laranja, azul-turquesa e dourado
Galões refletindo sob o sol
Éramos mais que uma banda marcial.
Éramos jovens, unidos, destemidos,
Tendo sonhos por ideal.
Acerte o passo,
Atenção ao compasso.
Juntos enfrentávamos qualquer desafio.
Obstáculos? Vencíamos todos.
Nada nos detinha.
Éramos felizes porque éramos jovens
Ou éramos jovens porque éramos felizes?
Diminuía o passo,
Acelere o compasso.
O tempo passou...
Seguimos por caminhos diferentes
E hoje, faria qualquer sacrifício
Para de novo me vestir
De laranja, turquesa e galões,
E, assim, superar os obstáculos,
Vencer os desafios,
Digladiar contra os meus dragões.
Mas, quando face a face, me olho no espelho,
Só vejo vazio, cansaço, solidão.
Nem sombra da jovem destemida que fui.
Aonde foram parar meus sonhos?
Estarão adormecidos
Ou morreram com a minha juventude?
Abaixo os olhos, envergonhada de mim mesma
Por ter-me dado por vencida,
Pelos sonhos que não persegui.
Quando estou prestes a virar-me e,
Mais uma vez desistir,
Ouço uma voz ao longe:
Redescubra seu passo,
Invente um novo compasso,
Ainda é tempo de ser feliz!
(Autora: Kátia Corrêa De Carli)
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quinta-feira, 16 de julho de 2009
DESABAFO
Estou cheia de mim.
Não da vida, porque isso seria não dar valor ao maior bem que temos,
Nem da família, presença constante principalmente nestes momentos de inconstância.
Cheia de mim mesma.
Não dos amigos, presentes valiosos de Deus,
Tampouco do que tenho, material e imaterial, porque aprendi na miséria a valorizar a bonança.
Cheia mesmo da minha presença.
Cheia da mente correr e o corpo permanecer
Cheia de não poder programar o dia que vem
Cheia de passar a noite escrevendo na memória e não passar para o papel
Cheia de não lembrar o que escrevi na noite anterior
Cheia de ser essa pessoa, que não se parece comigo,
Tão estranha, fraca, frágil,
Cheia de sentir dor.
Postado por Katia De Carli às 17:19 9 comentários
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
RETOMANDO A SAGA - DE O CEBREIRO A TRIACASTELA
O Cebreiro - descida (e mais subias, descidas, subidas...)
De O Cebreiro até Triacastela, nossa próxima parada, seriam 20,5 km., uma caminhada considerada, pelo guia, fácil na sua maior parte, isso se descontarmos todas as subidas e descidas e a pior de todas: a descida do Cebreiro (toda descida é pior, exige muito mais esforço físico, atenção redobrada por conta das pedras soltas, e ainda ficar escolhendo onde pisar!), mas, por precaução, resolvi mandar minha mochila de carro, conseguir seguir adiante já era uma decisão difícil, carregar peso seria estupidez.
Saímos cedo... e começou o sobe e desce incontáveis vezes.
Ver no mapa é uma coisa. Percorrer é outra!
Meu pé começou a doer muito. Tentei disfarçar para não preocupar meus amigos, assim passamos por Limares, Alto de San Roque, mas a certa altura eu já mancava tanto que não dava mais para esconder meu tormento.
Quando chegamos a Hospital (também conhecido como Hospital La Condesa) eu sentei no meio fio do acostamento da estrada, desandei a chorar e disse que para mim não dava mais. Eu não tinha como continuar.
Ali, naquele chão, eu me senti a pior das criaturas. Era uma mistura de sentimentos: dor física, dor moral, humilhação, derrota.
Cristina, embora nervosa, tentou manter-me calma e disse que “Chavakiah” (seu anjo protetor) não nos abandonaria.
Nós estávamos na parte da Galícia em que o próprio guia diz: La Galicia más rural y desconocida surge ahora detrás de cada bosque... o junto a cada uma de las docenas de aldeas de piedras, sin apenas gente ni servicios... Ou seja não poderíamos esperar encontrar nada... mas a esperança é sempre a última que morre. E, mesmo humilhada e derrotada, na hora que eu mais precisava, Santiago não iria abandonar-me (esse pensamento me confortava um pouquinho).
Eu queria muito que a Cristina e o Mauricio decidissem por mim, talvez assim a derrota não fosse tão vergonhosa a meus olhos, mas eles, sabiamente, me fizeram ver que a ação tinha que partir de mim.
Então decidi pedir ajuda.
Cristina viu uma senhora passando e foi conversar com ela, que mostrou onde era a casa de sua filha que teria o telefone do motorista de táxi da cidade vizinha. Cris voltou até nós e disse que iria à casa indicada em busca do número de telefone.
Ficamos eu e Mauricio e eis que de repente, do nada, aparece um carro branco, tipo furgão, devagarzinho, vindo pela estrada. Pedi a Mauricio que fizesse sinal, ele se recusou, disse que eu teria que agir. Vocês não imaginam o quanto me custou levantar o braço e acenar para o carro, que parou...
Conversamos com o motorista e ele disse que me levaria até Triacastela.
Cris viu quando o carro parou e voltou correndo.
Daí não deu mais para segurar. Caí num pranto convulsivo.
Jorge, o motorista, era médico e fazia parte de um grupo de peregrinos ciclistas que se alternavam na direção do carro com os suprimentos e peças de bicicletas.
Ele foi o anjo que Santiago mandou-me. Falou-me que eu não tinha que envergonhar-me, que eu não estava falhando, que estava sim, aprendendo sobre limites, respeito ao corpo, que não era nenhuma humilhação, etc. e tal.
Ele foi fantástico. Levou-me até a porta do albergue, que fica afastado do pueblo, examinou meu pé, orientou que buscasse ajuda médica para fazer uma punção pois havia muita secreção interna... mas isso era impossível até chegarmos a Santiago.
Descansei um pouco, arrumei minhas coisas, peguei meus papéis (meu caderno eu tinha deixado para trás, então eu tinha umas folhas de caderneta, papel de embrulho, tudo que servisse para escrever) e fui para o barzinho que ficava na chegada da trilha para esperar Cris e Mauricio.
Foi lá que eu fiz as seguintes anotações:
Triacastela - Refúgio ou Albergue
“Foi uma das decisões mais difíceis do Caminho. Aceitar que minha vontade não é soberana, que acima de tudo há a vontade de Deus, avisando-nos quando é necessário parar. Ao subir no carro foi como parte de mim se rompesse, como se eu estivesse violentando todas as regras por mim mesma impostas. Foi como se, ao fazê-lo, eu deixasse de merecer o título de Peregrina. Como se isso me tornasse uma pessoa menos capaz que as outras, inferior. Senti-me ré e algoz. Eu, juíza da minha própria consciência, sentenciava-me: Culpada, culpada, culpada! Ainda não sei bem descrever esse sentimento, é uma confusão muito grande dentro de mim. Enquanto, racionalmente, eu sei que a decisão de preservar minha integridade física foi a mais acertada, a outra metade de mim não aceita eu ter rompido as regras. Gostaria de não me sentir assim...
No fundo eu sei que o aparecimento daquele carro, com uma pessoa tão maravilhosa como o Jorge, foi uma bênção de Deus, ainda mais que a Angeles me disse que era bem provável eu ter que esperar muito tempo até aparecer um carro de polícia ou algo parecido, porque naquela estrada quase não há movimento. Ele me consolou dizendo que temos que aprender a ler as lições que Deus nos passa e que era para eu não me sentir tão mal por estar fazendo aquele percurso de carro, era para eu “dar um tempo” e tentar “ler”.
Creio o que o que aconteceu foi para eu deixar de ser tão prepotente, achando que minha vontade é suficiente para as coisas acontecerem. Para eu parar de julgar as pessoas que, diante de alguma dificuldade, buscam ajuda em algum percurso, indo de carro, achando-as fracas. Cada qual sabe a dor que carrega.
Que Deus me ajude a compreender, aceitar e mudar.
Que eu aprenda essa lição.
Que esta dor (apenas mais uma do Caminho) sirva para eu me tornar uma pessoa melhor, mais compreensiva para com as outras pessoas e menos exigente para comigo mesma.
Foi difícil partir e deixar meus amigos para trás. Senti-me traidora, menor e este é um sentimento que dói tanto quanto a dor física.
Mais difícil será encará-los novamente, carregando essa vergonha imensa!
Alto de San Roque
Andar, andar,
Seguir sempre adiante.
Este é o lema.
Subir, subir,
Tentar encostar a mão nas nuvens.
Este é o sonho.
Descer até não mais poder
Este é o intento.
Superar os próprios limites.
Este é o desafio.
Parar,
Contra a vontade,
Violentando nosso querer,
Quando Deus assim determinar.
Se isso não é compreender o Caminho.
Pelo menos é tentar.
Triacastela – Espanha – 15/Junho/2000
Postado por Katia De Carli às 11:17 23 comentários
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domingo, 5 de outubro de 2008
DE CAMINHOS E ABANDONOS
Maga Patalógica e Madame MinSir Lancelot ainda perguntou onde ficaríamos e disse que também iria ficar lá.
Despedimo-nos com o costumeiro “Buen camino, peregrino!” e seguimos.
O dia estava frio... mas já estávamos nos acostumando e aprendendo a decifrar o tempo, sabíamos que logo o sol sairia e que seria um lindo dia.
O Mauricio estava um pouco calado... mas no caminho todos temos nossos momentos de introspecção, então, ninguém fica indagando ao outro o que passa. Apenas respeitamos.
Paramos em Tardajos para nos abastecer, pois pela informação do guia em Hornillos não teríamos opções de “tiendas” para abastecimento.
Cristina lembra que no alto do morro nós paramos para ouvir o silêncio e apreciar a linda paisagem. Ao longe cantou um cuco...
Chegamos cedo a Hornillos e logo no início do “pueblo” vimos uma vassoura, daquelas de bruxa... eu que adoro bruxas (tenho inclusive uma tatuada) não pensei duas vezes, montamos na vassoura, às pressas para que não aparecesse a verdadeira dona, e Mauricio tomou-nos uma foto!
Surpresa: Já tinha restaurante na cidade! Apenas um, mas tinha.
Fomos até o restaurante, bebemos umas claras (cerveja com limão, eu acho!) e então Mauricio comunicou que seguiria em frente.
Sem grandes despedidas ele se foi.
Chorei bastante. Tentei entender porque ele estava indo, mas não conseguia.
Parêntesis 1: Quando eu fui fazer o Caminho estava passando por um momento muito difícil da minha vida. Meu coração, minha vida, tudo... haviam sido feito em pedaços. Estava tentando colá-los, como mosaico, mas ainda haviam muitas peças soltas. O abandono era uma coisa que, sinceramente, não sabia lidar.
Parêntesis 2: Abandono – Um capítulo a parte:
Toda a minha vida eu tive que ser forte. Nunca fui “A mais” nada! Nunca a mais bonita, nunca a mais popular, rica? Nem em pensamento... Daí eu precisava, até como auto-afirmação, me destacar de alguma maneira. Tornei-me uma leitora voraz, aguçando minha inteligência. E me fiz forte. Então passei toda a vida ouvindo, quando tinha alguma dificuldade: “você supera, você é tão forte!”. Eu não tive chance de depender nunca de ninguém. Era sempre eu, comigo mesma. Daí, eu fui me fechando para não sofrer... só deixava aproximar pessoas que sabia que jamais me abandonariam, porque o abandono exigiria uma força maior do que a que eu possuía. Quando ocorreu o primeiro grande abandono da minha vida, fiz-me em pedaços.
No Caminho, talvez por ser uma lição que eu necessitasse aprender, de repente, me vi dependente do Mauricio. Aceitava que ele tomasse as decisões. Era tão bom ser o elo mais fraco! Eu estava experimentando uma coisa que não conhecia... mas ao mesmo tempo, estava anulando-me...

Sentamo-nos na varanda da Igreja, já que o albergue ficava ao lado, e eu fiquei avaliando as novas bolhas que haviam surgido, apesar dos tênis e das meias novas... e chorava!
Sir Lancelot já havia lavado roupa, então juntamo-nos e fizemos nossos planos para o dia seguinte: seguiríamos até Castrojeriz.
Fizemos novas amizades: Amauri e Sandra, de Curitiba, Javier – chileno e a Marie Louise – francesa, mas aquele dia eu não estava para muita conversa. Tinha muitas feridas a lamber.
Fomos jantar (no único restaurante) e chegamos cedo demais... tomamos uma cerveja, e outra, e outra mais e eu desabafava com a Cris todas as minhas dores, inclusive a pior de todas, pois estava sentindo-me traída pelo Mauricio (coitado! Ele não tinha responsabilidade nenhuma... mas é como aquela história da raposa do Pequeno Príncipe: a gente corre o risco de chorar, quando se deixa cativar)...
Tive a chance de travar conhecimento com Jose Miguel, um jovem senhor e seu inseparável caderno, que nunca ousei olhar o que continha. Ele seguia o caminho solitário, estava sempre a escrever ou desenhar, tinha o olhar mais doce do mundo, a barba grisalha, e eu senti por ele uma empatia muito forte. Às vezes sua esposa vinha encontrá-lo no Caminho, depois voltava para sua cidade...
Pois bem, o resultado daquela noite, das lágrimas vertidas, do abandono mal resolvido, da tristeza que me abateu: foi um grande pileque que me fez ficar acordada quase que a noite toda, porque o beliche rodava toda vez que eu fechava os olhos. Então os mantinha abertos!
Rendeu também um poema:
Encontrei você parado
Numa curva do meu caminho
Vinha eu tão só,
Estava você tão sozinho.
Foi como se acendesse uma estrela
No meu céu que andava nublado
E por um tempo nossos caminhos
Seguiram lado a lado.
Você enxugou minhas lágrimas,
Levantou-me quando caí,
Incentivou-me a seguir adiante
Consolou-me, quando sofri.
De repente, o amigo querido
No qual havia se transformado
Resolveu seguir adiante,
E fiquei sozinha na estrada.
Como disse o Poeta Maior:
“O poeta é um fingidor”
Achei que podia enganar
Escondendo de você minha dor,
Enquanto meu coração
Tentava decifrar esse sentimento
Vi você se afastando
Aos poucos, na trilha, ao vento.
E quando a dor passar,
Depois de você ter ido embora
Tentarei lembrar com um sorriso
O que lágrimas, me traz agora.
(Hornillos del Camino – 31/05/2000)
Postado por Katia De Carli às 18:14 24 comentários
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