Mostrando postagens com marcador Santiago de Compostela. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Santiago de Compostela. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

PELO CAMINHO


Amigos do Caminho

Caminhando pela estrada das estrelas
Palmilhando o norte da Espanha,
Nunca pensei pudesse crescer tanto
Junto àquela gente, a princípio, estranha.
Foi no caminho que aprendi
O significado da amizade verdadeira,
Que ultrapassa credo, cor, posição social,
Que quebra toda barreira.
Quando as dificuldades da língua
Tornavam impossível a compreensão
Aprendi a falar e escutar
Somente com o coração.
Aprendi o real significado
De palavras como tolerância e paciência,
Que às vezes temos que rever conceitos,
Que não podemos nos deixar levar pela aparência.
O caminho nivela a todos
Consegue a todos igualar
Pois ficamos reduzidos
Ao que suportamos carregar.
Tanta amizade sincera
Fiz por estas paragens,
Um sentimento tão profundo
Que não se vê em conhecidos de viagens.
Amigos que se foram,
Outros que deixei para trás,
Alguns que ainda seguem comigo
Outros que sei, não verei nunca mais.
E agora, meus companheiros queridos,
Que o caminho chega ao fim
Sobrou este vazio imenso,
A alma em chamas, esta dor em mim,
Este não saber o que fazer,
Pois a cada passo que dou
Se me aproxima de Deus,
Mais me afasta de vocês.


Arca - Espanha



quinta-feira, 22 de julho de 2010

PALAS DE REI – MELIDE


E a saga segue seu curso... não sem antes agradecer ao meu querido Anjo da Guarda Mauricio, que mesmo quando eu xingo, não respondo, nem assim ele fica com raiva de mim... e ainda scaneia as fotos que eu não tirei!!!! ...Ah! nem adianta mandar largar do seu pé que é karma! ... Sei, também te amo, meu amigo!rs

Essa foto eu não poderia deixar de lado porque rendeu-nos boas gargalhadas... A gente passava e, às vezes, do nada, aparecia uma construção suspensa, com cruzes, elementos bíblicos, ora de madeira, ora de tijolo, e a gente tentava descobrir o que era, tentava "futucar" nas frestas, mas nada... como a maioria ficava no campo eu cismei que era onde eles colocavam os mortos. Um dia a Cris se encheu de razão, pegou um pedaço de pau e começou a tentar abrir uma fresta maior, nisso eu vim de trás, fiz "UUUUUUUUUUUUUUUU" e saí correndo fingindo estar assustada... ela disparou e só parou quando me viu me dobrando de rir... quase me bateu!

Daí nós resolvemos deixar de ser orgulhosos e perguntamos (o Mauricio, claro, a boa parte sempre sobrava para ele): Pois bem, chama-se Hórreo, também conhecido como Cabazo, Cabaceiro(a), Canastro ou Piorno é uma construção popular da região da Galícia, mas que se estende em outras zonas no norte ibérico. É destinada a secar, guardar e conservar o milho e outros cereais de ataques de ratos. Tem todo um simbolismo econômico na sua origem, quanto maior o Hórreo, maior a riqueza dos proprietários.
Este foi por fotografo por Mauricio em Gonzar, na saída de Portomarín.


Havíamos combinado percorrer só 15 km. Acredito que Cristina e Mauricio tenham feito esse acordo por piedade, mas não deixaram transparecer, e como estávamos muito bem acomodados e acompanhados nem nos preocupamos com as horas...

Erro fatal!

Acordamos com uma voz esganiçada (linguajar mineiro da Cris) aos berros, xingando e gritando que já tinha passado da hora de peregrino estar na estrada. Levei um susto tão grande que passei a juntar coisas, escovar dentes, lavar rosto, tudo ao mesmo tempo. Era a hospitaleira, que de hospitaleira só tinha o nome. Colocou todo mundo para fora, não respeitou Orlando e Micheline, um casal já “mais experiente”, tampouco o grupo de excepcionais.

Resolvemos fazer o desdejum num bar bem em frente ao albergue... segundo erro em tão pouco tempo!

As torradas vieram da parte reservada do restaurante já lambrecadas com uma coisa que parecia geléia passada da validade, rançosa. Uma senhora velha, gorda e porca, que limpava as mãos e o rosto com o mesmo pano que limpava o balcão, nos serviu rindo e mostrando os dentes todos estragados, sem contar o cheiro... A soma de tudo revolveu meu estômago e eu e Mauricio saímos sem comer, mas pagamos. A Madre Cristina de Calcutá ficou e comeu, por pena da senhora... Nós comemos em outro lugar.

E pé na estrada!

Também já eram 9 horas, isso lá é hora de peregrino sair? rs

Apesar da hora tinha muita neblina. Para nossa surpresa caminhamos muito tempo por dentro de bosques, o que foi muito agradável, mas não impediu do meu pé logo dar sinal de vida (ou de morte!). Porque volta e meia, ou melhor, subida e descida, apareciam uns atoleiros danados e difíceis de ultrapassar. Aí vocês podem perguntar, mas porque a demente não foi pelas pedras? As pedras acabavam no meio maior do lamaçal.

Chegamos cedo a Melide e pra variar a primeira coisa que fomos ver foram os banheiros. Só um chuveiro tinha porta. Eu e Cris corremos para tomar banho antes que ficássemos abertas à visitação pública nos boxes sem nem uma cortininha... água escaldante! Deliciosa!!!

Cris foi descansar e eu fui lavar roupa, comprar comida, coisa básica!

Quando voltei a Cris disse que ia sair para almoçar, eu e Mauricio já havíamos comido e ficamos no albergue.

Daí um tempo chega a Cris revoltada e rosada, para não dizer roxa, dizendo que tinha visto um anúncio num restaurante de um arroz com frango, naquela altura estávamos loucos para comer arroz, daí ela pediu... veio salada de entrada e foi só o que ela conseguiu comer, o tal arroz estava intragável, e enquanto tentava comer “encheu os chifres de vinho rosé”.

Convidei a Cris para conhecermos a cidade, calçada com Havaianas é claro!

Fachada da Iglesia de la Virgen de las Nieves - Leboreiro (caminho)

Quando estávamos de volta ao albergue só ouvi a Cris conversando em portunhol com um desconhecido e dizendo: “A Kátia sabe. Ela sabe tudo”, fiquei curiosa e fui ver. Era o marido de Ângeles que havia conseguido uma folga e estava percorrendo o Caminho de bicicleta em busca da esposa. Peguei minhas anotações, vi a última vez que estivemos juntas, mais os cálculos de bruxa e disse: Pode pedalar até Arzúa que ela está lá.

E não é que estava mesmo!!!!

A gente evitava conversar sobre o dia seguinte. Nosso tempo estava se esvaindo. Santiago chegando... e ao mesmo tempo uma vontade louca de continuar no Caminho...

Nem fotos eu queria mais tirar... era como se começasse a abrir um rombo dentro do meu peito, neste rombo tinha medo, tristeza, lágrimas não vertidas, palavras não ditas, saudade antecipada.

A chegada, ao mesmo tempo que representava nossa vitória, representava também adeus, despedida... e é tão triste separarmos daqueles que aprendemos a amar.

No coração só a certeza que nunca mais era nunca mais mesmo.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

SANTIAGO DE COMPOSTELA - O RETORNO

PORTOMARÍN – PALAS DE REI

Preâmbulo: Estava eu a contar minha (ou melhor, nossa, já que Mauricio e Cristina são companheiros de caminhada, reflexão, dores e risos) Saga pelo Caminho de Santiago de Compostela, daí adoeci e tive que interromper, já que as dores, internações, etc. impediam-me até de pensar... então, os capítulos anteriores vocês encontrarão no tag "Santiago de Compostela".
Estou reeditando o último percurso para, daqui em diante, seguir com a história.
Talvez necessitasse desse longo tempo para reavaliar valores e vivências!

Preâmbulo 2 (se é que existe rs): Quero agradecer à Vanuza Pantaleão pela linda homenagem que me prestou em seu último post. Fico emocionada e com um compromisso ainda maior em não decepciona-la.

Preâmbulo 3 (hahahaha): Pode ser que eu ainda tenha que "desaparecer" por algum tempo, essas idas e vindas para hospital já são rotina, mas prometo avisar!

Então vamos lá caminhar minha gente

Saída de Portomarín

Nesse dia acordamos cedo. Queríamos evitar o sol forte da tarde, portanto levantamos por volta de cinco da manhã, tomamos nosso café, e antes das seis já estávamos com o pé na estrada. Mas parecia noite. Lua cheia, ainda alta no céu. Não dava para ver onde pisava. Entretanto, Deus, na sua generosidade, presenteou-nos com um belíssimo amanhecer. Parecia o despertar da Terra! Indescritível!
Bem, foi só o que consegui fotografar...
Depois de três dias caminhando sem mochila até que o início não foi tão penoso, mas, à medida que os quilômetros iam ficando para trás (foram 22 naquele dia) e o sol cozinhava nossos miolos foi ficando quase insuportável. Mas eu também não podia ficar repetindo, a toda hora, que estava sentindo dor.
Primeiro: Ninguém merece uma pessoa lamuriando-se o tempo todo.
Segundo: Reclamar não vai aliviar a dor.
Terceiro: Eu tinha outra escolha... então... era fé em Deus e pé na trilha!

Caminho Portomarín - Palas de Rei

Lembro-me de ter rezado muito naquele dia. Não por mim, porque como disse eu havia escolhido ir até o fim, mas rezei por aqueles que gostariam de estar no meu lugar (mesmo com as dores) e talvez nunca tivessem a chance, pelos meus amigos, pela dádiva de ter a família que tenho, pela minha mãe que se recuperava do primeiro câncer, pela humanidade, pela paz.
Rezar ajudava-me a ter força para seguir adiante.
Por volta de duas da tarde chegamos a Palas de Rei.
O Albergue é dividido em vários quartos, subdivididos em três repartições com quatro camas cada. Eu e Cris ficamos com Orlando e Micheline, Mauricio ficou na repartição ao lado, e também tinha uma família de espanhóis conosco.
Como eram só três homens, eles tiveram a cortesia de deixar as mulheres tomarem banho primeiro, uma vez que os chuveiros não tinham nem cortininha...

Parêntesis 1: Banheiros – eu deveria dedicar um capítulo inteiro aos banheiros (ou ausência de) durante o caminho. Tinha banheiro de todo tipo. Banheiros individuais, separados por sexo, unissex, com porta, sem porta, de todos as maneiras que vocês puderem imaginar. Para nós, brasileiros, acostumados à privacidade, era meio difícil, então quando eram vários chuveiros do tipo chuveiros de sauna, sem porta, homem e mulher junto, eu e Cris escolhíamos os últimos e colocávamos o Mauricio de prontidão para que ninguém passasse! (Pobre Mauricio!)


Amanhecer

Pois bem, depois do banho eu, que já estava péssima, fiquei pior ainda, pois descobri mais duas bolhas, sendo uma exatamente ao lado da que estava infeccionada. É claro que chorona como sou, abri a torneira. A Cris, penalizada, chorava comigo e rezava dizendo que eu não merecia tanto sofrimento. Minha vontade era dormir e não acordar nunca mais.
A Cris foi lavar todas as nossas roupas (o albergue tinha máquina de lavar) e Mauricio cuidou de drenar minhas bolhas.
Fiquei descansando. A Cris me contou que tinham dois jovens acompanhando um grupo de adolescentes com Síndrome de Dawn e que ficou emocionada e encantada com o carinho e a dedicação que eles tinham para com os meninos...
Saí apenas para comer, daí não ter fotos de Palas de Rei.
Como eu não agüentaria caminhar muito mesmo, combinamos que levantaríamos mais tarde, no dia seguinte e iríamos somente até Melide, uma caminhada de 15 km.

terça-feira, 1 de junho de 2010

ANIVERSÁRIO


SANTIAGO DE COMPOSTELA

Meus queridos amigos que aqui comparecem, às vezes até mais do que eu, nestes últimos tempos. que têm sido tão difíceis. Mas não podia deixar de registrar uma data tão importante.
Foi exatamente há 10 anos que terminávamos nossa peregrinação pelo Caminho de Santiago.
Tanta coisa me aconteceu... muitas já compartilhei com vocês e ficou a promessa do retorno, por tanto tempo afastada mas a promessa não ficou esquecida... penso em retomá-la "de pronto".
Aos companheiros peregrinos o meu abraço.
Aos irmãos de jornada, em especial Cristina, Maurício, Marco, Maria do Socorro, Esperanza e Alonso, o meu mais fraterno beijo.
Que Deus siga nos abençoando a todos!

Ultreya y Suseya!

domingo, 25 de janeiro de 2009

SARRIA – PORTOMARÍN


CHEGANDO AO MARCO 100 KM.

Caminho Sarria - Brea

Vocês lembram que o homem havia dito que seu amigo roncava? Brincadeira... roncava não... ele tinha era engolido uma britadeira que ficou ligada a noite toda, incomodando o albergue inteiro. Felizes os que resolveram caminhar à noite. Eu passei a noite praticamente em claro. Não havia silicone no ouvido que desse jeito. E o dito cujo estava bem na cama abaixo da do pobre do Mauricio. Lá pelas cinco e pouco da manhã, uma espanhola que não lembro o nome, levantou, acendeu a luz, começou a arrumar suas coisas e fazer barulho, daí houve quem reclamasse, ela retrucou dizendo que o sujeito havia incomodado todo mundo que reclamassem com ele, tudo isso aos berros... A maior baixaria!
Bom, não teve jeito, levantamos e preparamo-nos para seguir adiante.
Como Deus e Santiago não abandonam os seus, a Rosa – mãe de Angeles, estava com a perna machucada e iria de táxi até Portomarín e se ofereceu para levar minha mochila. Então foi um alívio saber que enfrentaria os 22 km. que me esperavam sem ter que levar peso.
Apesar de tudo foi uma boa caminhada. Muitos bosques, atoleiros, poucos povoados e muito, muito sol.

Atoleiro Brea - Portomarín

Fomos devagar, parando quando dava, ou quando eu cansava, e assim passamos por Barradelo, Rente, Brea.

Brea - Mauricio e Lua

Em Brea paramos num pequeno bar para comer alguma coisa e tinha uma cadela – “Lua” – que caiu de amores pelo Mauricio. Era a coisa mais linda, a gente sentada e ela buscava um bicho de pelúcia e ia até o Mauricio e ficava mexendo com ele até ele levantar e ir atrás dela fingindo que ia pegar o bichinho... Foram momentos agradabilíssimos e inesquecíveis. Uma alegria quase infantil. São momentos assim que me faziam esquecer as dores, as bolhas, infecção, antibiótico, o escambau!

Marco 100 km (tem gente mal educada em todo lugar)

Passamos pelo marco de 100 km. e deu um aperto no coração. Estávamos chegando ao final da nossa “epopéia”, mas ao mesmo tempo não queríamos chegar, pois chegar representava deixar de ser peregrino, assumir outra vez nossos papéis na sociedade, separar-nos.
Meu coração era uma total contradição e eu ainda não conseguia digerir o que estava acontecendo...

Portomarín

Chegamos a Portomarín com o sol a nos cozinhar os miolos. Depois da rotina de peregrino (lavar roupa, banho, arrumar mochila, etc.) fomos para um parque vizinho ao albergue. Deitamos na relva, à sombra de grandes árvores e ficamos ali, madornando e filosofando. Segundo lembranças da Cris, havíamos reunido tudo o que tínhamos para comer: 3 pêssegos, 2 Toddynhos, requeijão, torradas e 1 barra de cereal, dividimos irmanamente e fizemos nosso lanche. Mauricio estava com dores no pé e Cris fez uma massagem caprichada.
Saímos para conhecer a cidade.

Parêntesis 1: Portomarín é uma cidade recente. Embora antiga. Foi um importante povoado do Caminho no período medieval. O povoado original, formado por dois bairros, San Nicolás e San Pedro, ficava às margens do rio Miño e hoje jazem debaixo do grande lago, resultado da represa que construíram. O povoado que vemos hoje foi construído em 1960 para abrigar os antigos moradores. Porém nem tudo foi perdido. A grandiosa Igreja-fortaleza de San Nicolás, erguida pelos monges-cavalheiros da Ordem de San Juan de Jerusalén, no século XII, foi desmontada pedra a pedra (ainda hoje se pode ver a numeração na lateral de cada pedra) para ser reedificada na praça central do novo povoado, junto com o frontispício do antigo “Ayuntamiento” (prefeitura) e a fachada românica da Igreja de San Pedro.


Iglesia-Fortaleza de San Nicolás

O calor estava insuportável. Paramos num bar, tomamos uns refrigerantes e depois fomos jantar. Entupi-me de Torta de Santiago (um doce fantástico, e eu nem gosto de doce, que eles servem com uma bebida alcoólica por cima, delicioso!).

Detalhe das pedras numeradas

Combinamos de sair cedinho no dia seguinte para não termos que enfrentar o sol escaldante. E fomos dormir... ou melhor, pensamos que dormiríamos! Foi só a gente deitar que começou uma fuzarca no bar em frente, com gente rindo alto, falando alto, música alta. A Cris estava na cama de cima do beliche e havia deixado a janela aberta porque o calor estava insuportável, dava para ver a lua cheia, linda... Mas juro, nem a beleza da lua conseguia me acalmar. Nós já tínhamos passado uma noite em claro por causa da britadeira, agora passar outra noite sem dormir por conta daquele povo... Não sei qual vontade prevalecia dentro de mim, se era matar ou morrer.
No fim, acabei adormecendo, de exaustão.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

TRIACASTELA – SARRIA

FALTAVAM-NOS 132 QUILÔMETROS

Caminho San Xil - Calvor


Em Triacastela, remoendo meu complexo de inferioridade, minha culpa, minha dor e tudo o mais que me fez sentir a pior das criaturas, sem contar a vergonha, sem saber como encarar as pessoas, fiquei ali, naquele bar, por horas, remoendo... Mas uma coisa eu tinha certeza, não me esconderia nem fugiria do inevitável.
Então, à medida que os amigos peregrinos chegavam e me enchiam de carinho, compreensão, afeto, fui, aos poucos, percebendo que todos esses sentimentos estavam realmente somente dentro de mim.

Parêntesis 1: A gente passa tanto tempo na vida julgando com rigor as ações dos outros que não se dá conta que o que a gente mais condena são justamente onde estão nossos pontos fracos. Condenamos porque nos vemos na possibilidade de cometer os mesmos atos.

Quando a Cris e o Mauricio chegaram eu me joguei em seus braços e foi emocionante o reencontro. O modo como eles me receberam, o carinho com que cuidaram de mim... ultrapassa qualquer palavra que eu possa buscar, em qualquer idioma.
Dali, do bar, fomos ao albergue para cumprir as tarefas cotidianas, descansar um pouco e depois resolvemos ir à missa.
Foi a primeira vez que eu vi uma igreja cujo cemitério fica na entrada. Ou seja, para chegar até a igreja tem que atravessar por entre túmulos centenários, uma coisa meio mórbida. O Mauricio quando viu disse que não ia entrar... mas como eu não estava com espírito para brincadeira nem fiz onda com ele...
O Padre, ao final da cerimônia, veio cumprimentando um a um, todos os peregrinos que estavam na igreja (eu disse que peregrino é reconhecível em qualquer lugar! rs) e foi muito simpático conosco quando dissemos que éramos brasileiras.
Voltamos ao albergue e eu fui cuidar do meu pé. Estava horrível! Dava para ver o acúmulo de secreção por baixo da pele. Mesmo os antibióticos (oral e local) não estavam fazendo efeito. O Jorge (o da carona) havia dito que era necessário abrir, mas que teria que ser feito em hospital. Ou seja, eu tinha que dar um jeito de chegar até Santiago, nem que fosse voando na minha vassoura de bruxa.
No dia seguinte, eu e Micheline mandamos nossas mochilas de táxi até Sarria. Decidi que me pouparia ao máximo.

Parêntesis 2: Existem dois caminhos que levam a Sarria. Um passa pelo Monastério de Samos e é só trilha, sem nenhum povoado. Outro, apesar de ter mais subidas e descidas, passa por San Xil e Calvor. Optamos pelo segundo.

Fonte San Xil

O caminho é lindo, várias partes repletas de árvores centenárias, canto de pássaros... o ruim foi que tinha uns atoleiros e uma danada de uma catinga de “mierda de vaca” (eu tampava o nariz com um lenço e saía correndo, dentro do possível, para não fazer vômito).

Parêntesis 3: Acho que se tivesse que viver naquelas condições eu morreria! As pessoas moram no segundo andar das casas e o abrigo dos animais é embaixo... insuportável! Acho que eles nem sentem mais o cheiro!

Chegada a Sarria

Chegamos a Sarria. É uma cidade pequena, mas linda! Tem uma ruazinha para pedestres, chamada “Paseo dos Peregrinos” que fica às margens do Rio Sarria, com sua ilha, cachoeira artificial, cisnes, gansos... uma maravilha!
Isso sem contar com as pessoas nas suas melhores roupas, as mamães e suas filhinhas vestidas de bolo de casamento, os jovens paquerando...
Passamos por um restaurante e vimos as fotos dos pratos que eles serviam. Cada paella mais bonita que a outra. Fomos ao supermercado, fizemos nosso abastecimento para o dia seguinte, voltamos ao albergue, colocamos nossas melhores roupas (tentando disfarçar, claro!) e voltamos ao restaurante!
Comemos feito reis!
Voltando ao albergue encontramos a Angeles que convidou-nos a caminhar à noite. Era lua cheia. Tinha uma turma que ia fazer o percurso à luz da lua. O guia dizia que o trecho era úmido e escorregadio. Eu nem cogitei a hipótese, não poderia correr mais riscos. A Cris ficou muito tentada, mas como estava ainda meio gripada desistiu.
Ficamos sentados na porta do albergue conversando, quando um peregrino que não conhecíamos disse que seu amigo, que também estava no grupo, roncava muito... eu pensei que roncava como todos os outros... e, tentando não dar muito na vista, entabulei uma conversa perguntando de onde eles eram, qual o trecho que fariam no dia seguinte. Daí o cara, que de bobo só tinha a cara, virou para mim e perguntou se eu queria saber para não ficar no mesmo albergue que eles. A Cris quase desmaiou de vergonha quando respondi:
- Acertou em cheio! Estou fugindo de incômodos. Se vocês ficam, eu vou!
Ainda bem que ele levou na brincadeira, mas refizemos nossa programação para ficarmos bem longe deles.

Sarria - Albergue

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

RETOMANDO A SAGA - DE O CEBREIRO A TRIACASTELA

DOR, HUMILHAÇÃO, DERROTA


O Cebreiro - descida (e mais subias, descidas, subidas...)

De O Cebreiro até Triacastela, nossa próxima parada, seriam 20,5 km., uma caminhada considerada, pelo guia, fácil na sua maior parte, isso se descontarmos todas as subidas e descidas e a pior de todas: a descida do Cebreiro (toda descida é pior, exige muito mais esforço físico, atenção redobrada por conta das pedras soltas, e ainda ficar escolhendo onde pisar!), mas, por precaução, resolvi mandar minha mochila de carro, conseguir seguir adiante já era uma decisão difícil, carregar peso seria estupidez.
Saímos cedo... e começou o sobe e desce incontáveis vezes.
Ver no mapa é uma coisa. Percorrer é outra!
Meu pé começou a doer muito. Tentei disfarçar para não preocupar meus amigos, assim passamos por Limares, Alto de San Roque, mas a certa altura eu já mancava tanto que não dava mais para esconder meu tormento.
Quando chegamos a Hospital (também conhecido como Hospital La Condesa) eu sentei no meio fio do acostamento da estrada, desandei a chorar e disse que para mim não dava mais. Eu não tinha como continuar.
Ali, naquele chão, eu me senti a pior das criaturas. Era uma mistura de sentimentos: dor física, dor moral, humilhação, derrota.
Cristina, embora nervosa, tentou manter-me calma e disse que “Chavakiah” (seu anjo protetor) não nos abandonaria.
Nós estávamos na parte da Galícia em que o próprio guia diz: La Galicia más rural y desconocida surge ahora detrás de cada bosque... o junto a cada uma de las docenas de aldeas de piedras, sin apenas gente ni servicios... Ou seja não poderíamos esperar encontrar nada... mas a esperança é sempre a última que morre. E, mesmo humilhada e derrotada, na hora que eu mais precisava, Santiago não iria abandonar-me (esse pensamento me confortava um pouquinho).
Eu queria muito que a Cristina e o Mauricio decidissem por mim, talvez assim a derrota não fosse tão vergonhosa a meus olhos, mas eles, sabiamente, me fizeram ver que a ação tinha que partir de mim.
Então decidi pedir ajuda.
Cristina viu uma senhora passando e foi conversar com ela, que mostrou onde era a casa de sua filha que teria o telefone do motorista de táxi da cidade vizinha. Cris voltou até nós e disse que iria à casa indicada em busca do número de telefone.
Ficamos eu e Mauricio e eis que de repente, do nada, aparece um carro branco, tipo furgão, devagarzinho, vindo pela estrada. Pedi a Mauricio que fizesse sinal, ele se recusou, disse que eu teria que agir. Vocês não imaginam o quanto me custou levantar o braço e acenar para o carro, que parou...
Conversamos com o motorista e ele disse que me levaria até Triacastela.
Cris viu quando o carro parou e voltou correndo.
Daí não deu mais para segurar. Caí num pranto convulsivo.
Jorge, o motorista, era médico e fazia parte de um grupo de peregrinos ciclistas que se alternavam na direção do carro com os suprimentos e peças de bicicletas.
Ele foi o anjo que Santiago mandou-me. Falou-me que eu não tinha que envergonhar-me, que eu não estava falhando, que estava sim, aprendendo sobre limites, respeito ao corpo, que não era nenhuma humilhação, etc. e tal.
Ele foi fantástico. Levou-me até a porta do albergue, que fica afastado do pueblo, examinou meu pé, orientou que buscasse ajuda médica para fazer uma punção pois havia muita secreção interna... mas isso era impossível até chegarmos a Santiago.
Descansei um pouco, arrumei minhas coisas, peguei meus papéis (meu caderno eu tinha deixado para trás, então eu tinha umas folhas de caderneta, papel de embrulho, tudo que servisse para escrever) e fui para o barzinho que ficava na chegada da trilha para esperar Cris e Mauricio.
Foi lá que eu fiz as seguintes anotações:

Triacastela - Refúgio ou Albergue

“Foi uma das decisões mais difíceis do Caminho. Aceitar que minha vontade não é soberana, que acima de tudo há a vontade de Deus, avisando-nos quando é necessário parar. Ao subir no carro foi como parte de mim se rompesse, como se eu estivesse violentando todas as regras por mim mesma impostas. Foi como se, ao fazê-lo, eu deixasse de merecer o título de Peregrina. Como se isso me tornasse uma pessoa menos capaz que as outras, inferior. Senti-me ré e algoz. Eu, juíza da minha própria consciência, sentenciava-me: Culpada, culpada, culpada! Ainda não sei bem descrever esse sentimento, é uma confusão muito grande dentro de mim. Enquanto, racionalmente, eu sei que a decisão de preservar minha integridade física foi a mais acertada, a outra metade de mim não aceita eu ter rompido as regras. Gostaria de não me sentir assim...
No fundo eu sei que o aparecimento daquele carro, com uma pessoa tão maravilhosa como o Jorge, foi uma bênção de Deus, ainda mais que a Angeles me disse que era bem provável eu ter que esperar muito tempo até aparecer um carro de polícia ou algo parecido, porque naquela estrada quase não há movimento. Ele me consolou dizendo que temos que aprender a ler as lições que Deus nos passa e que era para eu não me sentir tão mal por estar fazendo aquele percurso de carro, era para eu “dar um tempo” e tentar “ler”.
Creio o que o que aconteceu foi para eu deixar de ser tão prepotente, achando que minha vontade é suficiente para as coisas acontecerem. Para eu parar de julgar as pessoas que, diante de alguma dificuldade, buscam ajuda em algum percurso, indo de carro, achando-as fracas. Cada qual sabe a dor que carrega.
Que Deus me ajude a compreender, aceitar e mudar.
Que eu aprenda essa lição.
Que esta dor (apenas mais uma do Caminho) sirva para eu me tornar uma pessoa melhor, mais compreensiva para com as outras pessoas e menos exigente para comigo mesma.
Foi difícil partir e deixar meus amigos para trás. Senti-me traidora, menor e este é um sentimento que dói tanto quanto a dor física.
Mais difícil será encará-los novamente, carregando essa vergonha imensa!

Alto de San Roque

Andar, andar,
Seguir sempre adiante.
Este é o lema.
Subir, subir,
Tentar encostar a mão nas nuvens.
Este é o sonho.
Descer até não mais poder
Este é o intento.
Superar os próprios limites.
Este é o desafio.
Parar,
Contra a vontade,
Violentando nosso querer,
Quando Deus assim determinar.
Se isso não é compreender o Caminho.
Pelo menos é tentar.

Triacastela – Espanha – 15/Junho/2000

domingo, 14 de dezembro de 2008

O CEBREIRO

APRENDENDO SOBRE LIMITES

Marco de subida O Cebreiro


Parêntesis 1: Este post vou começar no aqui e agora. No Caminho que percorro ao escrever essas memórias.
O Dauri (essapalavra) me perguntou qual era minha experiência espiritual de refazer o Caminho pelas palavras e eu me surpreendi com a pergunta porque não tinha parado para pensar sobre isso. Não havia pensado porque, depois de tanto tempo, de tantos pedidos, inclusive do Mauricio que eu amo de paixão, eu tenha esperado tanto para só agora ter resolvido escrever. É certo que, assim como rio nas partes engraçadas, às vezes uma lágrima furtiva vem de mansinho quando narro alguns momentos, como esse que estou para escrever agora... mas espiritualmente, sinceramente, não tinha pensado.
Então parei para refletir... por isso minha ausência... porque doeu... e ainda dói. Dói perceber que ao longo dos anos desperdicei muitas lições que aprendi no Caminho, dói a saudade daqueles que partiram para outro mundo como a Maria do Carmo e o Jose Miguel (pelo menos que eu tenha conhecimento), dói a saudade dos que partiram neste mesmo mundo e nunca mais vi, dói a distância do Mauricio, mais que amigo, irmão no mais verdadeiro sentido que essa palavra possa representar, dói, apesar de vivermos na mesma cidade, passar tanto tempo sem ver a Cris... são tantas as dores...
Mas nem tudo é dor. Hoje eu sou uma pessoa melhor, espiritualmente, me sinto mais próxima dos ensinamentos de Jesus e busco aplicá-los no meu dia a dia, e isso eu aprendi, em grande parte, naquelas trilhas.
Reviver esse percurso é relembrar o “Amai-vos uns aos outros” que Ele ensinou.
Isso eu acho que tenho feito!
Talvez no fundo eu esteja mesmo é me preparando para voltar... acho que é tempo de voltar, de ver tudo com outros olhos, viver novas experiências, aprender novas lições... mais uma vez me despir da “civilidade” e voltar a ser Peregrina. Quem sabe?

Trilha O Cebreiro

Pois bem, na noite anterior a Cris havia dito que queria sair cedinho (todos nós temíamos a subida d'O Cebreiro) mas eu não estava conseguindo dormir, era dor demais, então, pela manhãzinha, quando o cansaço falava mais alto, era que conseguia adormecer, às vezes de pura exaustão, então eu disse que não sairia cedo, que iria na hora que acordasse. Acho que o Mauricio disse que ia comigo por pura piedade, embora jamais ele tenha confessado isso.

Parêntesis 2: O Cebreiro é a porta da Galícia, ou “Las puertas del cielo” como diz o guia. È uma montanha de 1.300 m de altitude, que se sobre de uma só “tirada”!. O lugar é lindo, porém assustador. A gente não sabe o que vai encontrar pela frente, pois tudo vai depender do clima, pode ser um dia de neblina, onde não se vê nada, ou um dia de sol, onde se crê estar mesmo chegando mais perto de Deus. É uma trilha minúscula, serpenteando a montanha. Nós demos sorte, o dia estava magnífico.


Trilha serpenteada ficando para trás

A Cris se foi e eu e Mauricio fomos deixar minha mochila no ponto combinado para ser levada de carro. Já seria uma grande proeza conseguir chegar lá em cima, carregar a mochila seria estupidez da minha parte, uma vez que estava no limite das minhas forças.
É lindo! Muito verde, pastores pelo caminho, pequeninos povoados Ruitelán, Las Herrerías, La Faba e Laguna.
Fomos subindo devagar, fotografando o que ficava para trás.
Mauricio foi todo paciência. Seguiu no meu ritmo, sem reclamar, incentivando-me e acredito que forças maiores me acompanharam, pois consegui chegar até o pico, sem sofrer muito.

O Cebreiro - pueblo

O Cebreiro é lindo! São (ou eram) 12 casas de pedra, com floreiras nas janelas, um bar-restaurante, o albergue acolhedor e a Igreja pré-românica Santa Maria La Real, toda em pedras. O Cebreiro é considerado um dos pioneiros na existência de albergues para peregrinos e, como não poderia deixar de ser, também tem sua história de milagre.

Igreja Santa Maria La Real


Parêntesis 3: Conta-se que no ano de 1.300, um pastor que vivia em Barxamaior, apesar de uma grande tempestade, subiu a montanha para assistir à missa. Porém o sacerdote, vendo apenas uma pessoa na igreja, não se sentiu muito incentivado, e não se empenhou no ofício, momento em que a hóstia se converteu em carne e o vinho em sangue. O cálice do milagre, obra do século XII, encontra-se ainda na igrejinha. Contam também, que Isabel, a Católica, quando de regresso de sua peregrinação em 1488, resolveu levar o cálice para um lugar mais seguro, porém os cavalos se negaram a passar além de Pereje (lugarejo próximo). Tomando isso como sinal divino, o cálice, que eles chamam de Santo Graal, foi devolvido e está lá, para quem quiser ver.


Igreja Santa Maria La Real - Santo Graal

Ao chegarmos a Cris já havia pego minha mochila e fomos para o albergue. Fizemos nossas tarefas corriqueiras e depois saímos... cada qual pegou seu rumo. Eu resolvi ir para a igreja.
Logo ao entrar ouvem-se cantos gregorianos que tocam ininterruptamente. Creio que foi a igreja mais simples que visitei, mas a mais linda. Pequenina, pedras aparentes, bancos de madeira, apenas um crucifixo, uma janelinha de vidro onde entram raios de sol e um nicho, onde estão o cálice e outros elementos de ofício. Ali eu sentei e conversei com Deus.
Chorei muito. Sentia-me injustiçada ao ver tanta gente fazendo o caminho de farra e não acontecer nada e eu, que tinha verdadeiramente o propósito de me encontrar e assim tornar-me uma pessoa melhor, mais digna, passar por tanta dificuldade, tanta dor.
Quanto mais eu chorava mais calma eu ficava, era como se as lágrimas lavassem minha alma e levassem com elas meu sofrimento. Era como se Deus me respondesse lembrando-me de todas as vezes em que quis ter as rédeas da vida nas minhas mãos crendo que o poder estava no meu querer, desprezando aqueles que não seguiam adiante julgando-os fracos.
Deus estava me dando uma grande oportunidade para rever meus conceitos, preconceitos e posturas.

Igreja Santa Maria La Real - Crucifixo

Só sei que consegui me acalmar bastante, mas essa leitura eu só vim fazer tempos depois... como também a leitura de que Deus estava me ensinando sobre a diferença entre dor e sofrimento.
Que a dor a gente não pode evitar. A dor física, a dor de uma perda, as dores impostas pela vida. Mas o sofrimento é uma escolha. Sofrer é alimentar a dor. Eu vinha alimentando dores muito tempo... era hora de parar de sofrer...
Mas eu ainda teria que passar por um longo aprendizado.

O Cebreiro - entardecer visto do albergue

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

DE CACABELOS A VEGA DE VALCARCE

APRENDENDO A LIDAR COM AS DIFICULDADES
(mais...)

Villafranca Del Bierzo

Como no dia anterior nós (por minha causa) não havíamos conseguido chegar a Villafranca Del Bierzo, decidimos que não iríamos até O Cebreiro, pois seria uma caminhada longa e difícil demais. Combinamos seguir até Vega de Valcarce, o que daria 25 km naquele dia e onde descansaríamos para enfrentar o terror de subir O Cebreiro.
Orlando e Micheline foram-se cedo. Mauricio estava enrolado com o seu “Inconsciente”, daí eu e a Cris decidimos ir na frente. Logo na saída meu calcanhar começou doer, apesar dos remédios. Paramos para eu colar Compeed (é um adesivo que se aquece com as mãos e se cola para evitar atrito na área sensível) e nisso Mauricio nos alcançou.
Esta trilha é escolher entre o mal e o pior... são mais de 17 km que a gente anda no acostamento de uma rodovia federal, super movimentada, caminhões imensos cujo deslocamento de ar fazia-nos perder o equilíbrio. Para completar a estrada estava em obras, então era poeira até não poder mais! Era uma verdadeira tentativa de suicídio.

"Trilha" ou "Caminho" ou "Tentativa de Suicídio"

Com muito custo chegamos a Villafranca Del Bierzo, terra de Jesus Jato, personagem (real) de “O Diário de um Mago” (e todos os livros sobre o Caminho). Tido por Paulo Coelho como Druida, no livro ele nos conta o místico ritual de preparação da Queimada, bebida alcoólica de origem celta, feita à base de um destilado de frutas e que tem como função afastar maus espíritos, entre outras histórias.

Villafranca Del Bierzo

Jesus Jato, há mais de trinta anos recebe peregrinos do Caminho em sua própria casa transformada em refúgio. Tido como bruxo, as pessoas da aldeia incendiaram o local, porém ele e sua esposa, MariCarmen, não se deixaram intimidar, recomeçaram do nada. O local passou a chamar-se Ave Fênix, porque renasceria das cinzas.

Refúgio Ave Fênix - Na placa: "Bienvenido al Hospital Ave Fenix, Un Refugio por amor, si tu ánimo es optimista, bien recibido serás, si quieres colavorar, todos te lo agradecerán. Que la luz de las estrellas, refleje tu caminar, y que la luz de Cristo, sea tu camino y su verdad. Ultreia"

Eu, que não sou nem um pouquinho mística (rs), na minha ilusão achava que estando na presença de Jato e, sendo ele um Druida, iria amenizar minhas dores...
Quando chegamos lá ele estava super atarefado – é um homem do campo, que lida com as tarefas do plantar e do colher e acolher – mas mesmo assim deu-nos atenção e, não sei se atraído pelo meu olhar que emanava dor, pedido de socorro, ele se aproximou de mim e me disse que usasse no meu pé uma determinada erva. Disse também que nada que acontece no Caminho é por obra do acaso, que tem um objetivo específico, que eu buscasse naqueles últimos acontecimentos a lição que faltava aprender.


Albergue Ave Fênix de Jesus Jato

Parêntesis 1: Vou confessar, saí decepcionada! Pois queria que ele, com seus poderes mágicos, me curasse... Queria que ele impusesse suas mãos calosas sobre meus pés e fizesse desaparecer toda a dor. Naquele momento não imaginava que a dor do corpo, muitas vezes, vem para que nos curemos de uma dor muito maior, que carregamos na alma... Mas como diz o Pequeno Príncipe: Eu era jovem demais para entender... (e quando falo em juventude não falo em idade...)

Saímos de lá, eu mancando e voltamos para a maldita estrada.
O Guia dizia que depois de Villafranca teria uma rota alternativa que, embora aumentasse o caminho em dois quilômetros e fosse mais íngreme, nos livraria da “via rápida”, o problema é que por mais que procurássemos não encontrávamos onde entrar para este desvio... chegamos até a ver dois peregrinos num monte próximo, mas não sabíamos como chegar até lá. Desistimos e seguimos nossa tentativa de suicídio.
A coisa boa deste dia foi que encontramos um albergue em Pereje. Sensacional! Tinha camas e lençóis! Um campo verde... foi difícil deixar aquele lugar e retomar a estrada.
Passamos por Trabadelo, La Portela, Ambasmestas até, enfim, chegarmos a Vega de Valcarce.
Eu sentia tanta dor que nem uma foto eu tirei desses lugares...
No albergue já estavam Ângeles e Rosa e ficamos muito felizes de nos reencontrarmos.

Parêntesis 2: É sempre assim, a gente se despede de um companheiro, todas as manhãs, sem saber se vamos voltar a vê-lo ou não. É como se não existisse futuro. Vive-se o dia de hoje e entrega às forças maiores os acontecimentos de nossa vida. Se estiver escrito, nos reencontraremos, se não, ficará para sempre a lembrança.

Vega de Valcarce - Albergue

Rosa estava com o tornozelo enfaixado e tinha chegado a Valcarce de carro. Tomamos banho e em companhia da Cris saímos em busca de uma farmácia, pois ela havia examinado meu pé e não tinha gostado nada do que tinha visto. A farmacêutica examinou-me e comprovou que uma das bolhas estava em adiantado processo de infecção, já com secreção, receitando-me antibióticos oral e local. Eu entrei em pânico. Como seguir o caminho naquelas condições? Chorei bastante, senti-me injustiçada e outras coisitas mais.
Resolvemos, então, mandar nossas mochilas de carro até O Cebreiro (ainda hoje acho que a Cris só mandou a dela em solidariedade, para que eu não me sentisse pior). A Cris sugeriu que eu seguisse de carro com a Rosa, mas eu não podia aceitar.
A minha cabeça era um turbilhão.
Embora Cris e Mauricio (e todos os demais) tenham se mostrado muito solidários eu não conseguia aceitar o que estava acontecendo.
Chorei até conciliar no sono, sentindo-me a pior das criaturas...

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

E VAMOS NÓS!


TRECHO MOLINASECA – CACABELOS

Molinaseca - ponte medival


Seriam quase 30 Km. Mas dizia o guia que era uma caminhada tranqüila... ainda bem, porque meus pés, principalmente o direito, piorava a cada dia, não sabia o que estava acontecendo, era dor, dor e dor... andar exigia de mim um grande sacrifício. Ainda bem que a Cris havia levado uns comprimidos (que não lembro o nome) e eu tomava pela manhã, mas eram poucos, eu tinha que racionar, então eram umas quatro horas de alívio (médio), depois disso, vou dizer, era duro!
Mas eu não encarava aquilo como penitência, ou castigo, ou pagamento de pecados passados ou futuros, tudo aquilo que as Igrejas costumam pregar... simplesmente era fruto da escolha que eu fiz. Eu escolhi fazer o Caminho. Escolhi marcar, ali, o encontro comigo mesma. Tudo foi escolha minha! Então não havia aquela de que “eu tenho”, “eu preciso”... eu simplesmente queria... era a realização de um sonho. Uns sonham em comprar um carro importado, outros em passar uma semana num resort, outros em ir jogar em Las Vegas. Respeito cada escolha. Eu havia feito a minha.

Parêntesis 1: É incrível como tem pessoas que não compreendem as escolhas dos outros... Por muito tempo ouvi que eu era louca, que o que fiz era um absurdo e coisas do gênero. Ontem meu sobrinho me disse que está programando escalar o Aconcágua, mas que era segredo, porque seus pais não compreendem, e eu lhe disse: Meu querido, cerca-te de todos os cuidados possíveis, escolha os melhores equipamentos e guias, tenha certeza de sua segurança e vá em frente. Realize seu sonho enquanto tem idade e saúde para isso, senão, corre o risco de passar o resto da vida infeliz pelo não realizado.
Eu jamais escalaria o Aconcágua ou qualquer outra montanha, mas respeito as escolhas alheias, mesmo que não as compreenda (o que não é o caso)!

Saída de Molinaseca

Pois bem, fomos até Ponferrada, última cidade “grande” até Santiago... Tomamos nosso café, fomos ao banco, fizemos essas coisas burocráticas por precaução já que não sabíamos o que viria adiante além do terror de O Cebreiro. A Cris resolveu comprar um tênis. Nós rimos bastante porque ela disse que a sapatilha Azaléia dela estava com a sola tão fina que era capaz de ler em braile com os pés...
Passamos por Columbrianos, Fuentes Nuevas, Camponanaraya e enfim chegamos a Cacabelos.
Já havia terminado o “meu prazo de validade”... o remédio não mais fazia efeito. Não dava para seguir adiante, embora nosso projeto inicial seria ir até Villafranca Del Bierzo, terra de Jesus Jato...
Orlando e Micheline já estavam no albergue e nos acolheram com o maior carinho, resolvemos ficar. Acho que Mauricio e Cris ficaram por solidariedade, embora, em nenhum momento, tenham demonstrado desapontamento por não seguirem adiante (eles não imaginam o quanto sou grata por eles não me deixarem sentir como um fardo em seus caminhos...)

Ponferrada - Castillo de Temples


Parêntesis 2: Acho que a verdadeira amizade se oculta nos menores gestos. Grandes ações todos somos capazes. Fazemos e depois seguimos nosso rumo. Mas seguir dia-a-dia acompanhando o passo do outro, no ritmo do outro porque ele não suporta outro ritmo, demonstra um carinho e amor que vão além das palavras. Embora Mauricio e Cris saibam o quanto os amo e admiro, talvez não saibam a gratidão que lhes devoto por haverem permanecido comigo... e era só o começo!

O Albergue de Cacabelos tem compartimento com seis vagas cada, acomodamo-nos com Orlando e Micheline e logo depois chegou Alonso, que ficou conosco.
Cris estava com a garganta doendo, meio gripada, daí o Mauricio saiu para fazer compras e nós fomos lavar roupa, tomar banho, etc.
Nisso chegou a Amasvinda. E como eu falei anteriormente sobre simpatias e antipatias, a Santa Cris, que ama tudo e todos, sentiu uma antipatia gratuita por ela, desde a primeira vez que nos vimos, e a pobre estava toda estropeada, havia torcido o tornozelo, que estava inchado, doendo muito, então, para se redimir, a Cris fez uma massagem nela.
Descansamos um pouco e depois saímos para comprar nossas provisões do dia seguinte e conhecer um pouquinho da cidade. Encontramos nossos amigos e Orlando disse que faria uma macarronada italiana e que estávamos convidados para jantar com eles.

Cacabelos - Eu, Micheline, Orlando e Cris

Quando estávamos terminando de jantar chegou um brasileiro que se dizia jornalista, muito espaçoso, “entrão”, sem desconfiômetro e chato (nossa! Mas o cara era uma mala mesmo!), que sem ser convidado foi logo sentando, se servindo do macarrão, falando sem parar (só abobrinhas) e fazendo propaganda de si mesmo... Nem um pouco simpático...
Quando ele se foi o Orlando, que é um gentleman, comentou:
- Ainda bem que nem todos brasileiros são iguais!
Tivemos que rir...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

FONCEBADÓN – O MITO

DE RABANAL DEL CAMINO A MOLINASECA


Rabanal - Foncebadón - Caminho


Amanheceu muito frio. Minhas mãos estavam dormentes... Quando o povo do estábulo acordou, e aí estávamos eu e Maurício, o povo da Casa Grande já estava pronto. A Cris já estava cansada de esperar... perguntou se eu não me importava se ela seguisse na frente com a Graça, uma vez que havíamos combinado passar por Foncebadón juntas, e eu disse que não, que ela podia ir...

Parêntesis 1: Quando vamos para o Caminho em companhia de outra pessoa é igual a um casamento, é no dia-a-dia que a gente vai descobrindo as diferenças. Eu e a Cris descobrimos muitas diferenças, ela gostava de sair bem cedo, eu gosto de dormir até mais tarde, ela prefere o almoço, eu prefiro o jantar, ou seja, cada pessoa tem seu ritmo e a gente ou aprende a respeitar o ritmo do outro ou cria um abismo intransponível. Conhecemos amigas que foram juntas para o Caminho e lá se tornaram inimigas. Não souberam lidar com as diferenças. Eu e a Cris, apesar de tudo, voltamos com nossa amizade fortalecida. É como sempre repito: o amor que nos une foi maior que as diferenças que poderiam separar-nos.

Fizemos um lanche e saímos rumo a Foncebadón...

Foncebadón

Parêntesis 2: Foncebadón é uma cidade tida como abandonada e cheia de histórias e mitos. Paulo Coelho, em seu livro “Diário de um Mago”, primeira leitura para todo peregrino àquela época, narra que ali encontrou o demônio num cão, Legião, e sua luta com ele numa batalha pelo domínio do poder. É comum muitos peregrinos tomarem um desvio e não passarem por dentro de Foncebadón.

Para chegar até Foncebadón temos que atravessar uma cadeia de montanhas bem íngremes, subida difícil, muito frio e o medo pelo desconhecido. Mas não era ali que iríamos “dar para trás”.
Chegamos e logo à entrada tem uma placa que conta a história do lugar, como teve seu papel de destaque na rota, no século XI, como centro de acolhimento aos peregrinos no alto do Monte Irago e como aos poucos, foi sendo abandonada.
Na minha cabeça só ficava martelando a história dos cães, então eu fotografava com um olho e com o outro ficava vigiando. Não vou mentir, estava com medo sim! E eis que de repente, do nada, surgem três ou quatro cães, pelo menos foi o que me pareceu no momento, mas eles tinham um chefe, negro e seus olhos eram amarelos (o Mauricio está aí mesmo para comprovar a história). Eu tremia que nem vara de bambu! Mas sabia que ninguém iria acreditar na nossa história se não tivéssemos uma prova, e os seres parecidos com cães se aproximando, rosnando, eu gritava pro Mauricio:
- Fica quieto, não se mexe, deixa eu fotografar!
Mauricio gritava de volta:
- Tá louca, eu não vou servir de comida para esses demônios.
E o chefe de olhos amarelos, de repente, do nada, parou, encarou-nos, os outros fizeram o mesmo, deu-nos as costas e desapareceu.
A foto ficou uma porcaria! Mas está aí para comprovar.

Foncebadón - O Chefe da Quadrilha


Precisei de um tempinho para minha respiração voltar ao normal...
Seguimos pela Calle Real, paramos junto ao cruzeiro que deve ter muito séculos, observando aquelas ruínas... quanta história devem guardar aquelas pedras!

Foncebadón


Mais à frente vimos uma placa indicando alguma coisa habitada (havia postes e fios de energia, o que significava civilização). Logo no pátio da entrada, no chão, tem um mosaico meio místico, com uns desenhos, parece um cisne, símbolos, etc... era os primórdios do restaurante medieval Gaia, do Henrique... Mais uma vez me lembrei das palavras de Paulo Coelho, que disse que um dia Foncebadón ressurgiria de suas próprias cinzas.
Encontramos com um brasileiro que morava em Portugal, mas não consigo lembrar o nome, e ele nos disse que havia passado a noite ali...
Gente, só se tivesse fumado unzinho... era um salão enorme, ainda em construção, com coisas penduradas, pencas de alho, penas, galhos retorcidos, ramos de folhas, panelas, tudo que vocês possam imaginar... Conhecemos o Henrique, fizemos uma paradinha, recuperamos o fôlego e seguimos adiante, em meio à tristeza e desolação das ruínas contrastando com a exuberância da vegetação...
Logo adiante (uns oito quilômetros) chegamos à Cruz de Hierro, quase no ponto mais alto de todo Caminho, a 1.504 m de altitude. O ritual é, cada peregrino, depositar uma pedra a seus pés (já é uma montanha!) para pedir proteção para a viagem.

Parêntesis 3: É uma cruz simples, sobre um imenso tronco. Há séculos é tido como um lugar místico e se crê que a cruz atual substitui a original instalada por Gaucelmo (fundador de Foncebadón) sobre um altar romano dedicado a Mercúrio, Deus dos Caminhos.

Cumpri o ritual... Eu levei do Brasil quatro pequenas pedras: um quartzo rosa (amor), uma ametista (lilás, harmonia), um ônix (proteção) e uma ágata (fortalecimento). O ônix eu deixei nos Pirineus... Deixava agora o quartzo rosa na Cruz de Hierro.

Cruz de Hierro

Fiz uma pequena oração, tirei fotos e fomos embora. Encontramos com a Cris e a Graça...
Devo reconhecer que eu esperava sentir uma emoção maior. Esperava me emocionar mais ao chegar naquele lugar, mas o lugar não chamou minha alma... Devo ser mesmo diferente da maioria das pessoas...
Como fomos logo embora, elas resolveram ficar. A Cris não deve ter compreendido porque eu não fiquei mais tempo...
Logo adiante ouvimos um sino tocando. Era Tomás, hospitaleiro, que toda vez que se aproxima um peregrino toca seu sino para saudá-lo e para orientar os peregrinos em dias de neblina. Ele mantém um albergue simples, humilde, e está sempre pronto a ajudar quem quer que seja, também acolher a todos para um café e um dedo de prosa.

Manjarín - Refúgio do Tomás


De Manjarín, refúgio de Tomás, lugar que não tem mais nada, seguimos para El Acebo, onde paramos para um lanche rápido.

Manjarín - El Acebo


Daí foi enfrentar mais morros... a subida até que não foi muito difícil, mas a descida... insuportável! Eram pedras soltas, escorregávamos a toda hora, meus pés doíam até não poder mais, não dava nem para apreciar a paisagem, linda, por sinal, tamanha a dor que sentia.
Assim, aos trancos e barrancos, chegamos a Molinaseca.

El Acebo - Molinaseca


O refúgio fica na saída da cidade, o frio já havia passado, muitas pessoas se banhavam no rio que corta a cidade.
Eu só queria saber de um lugar tranqüilo para colocar os pés para cima... e costurar mais bolhas... e chorar mais lágrimas... e descansar para recomeçar no outro dia.

Monumento a um ciclista alemão, morto atropelado, neste trecho do Caminho