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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

REVISTAS, RECORTES, RECORDAÇÕES


(Não necessariamente nesta ordem)


Chega um momento da vida que, queira ou não, temos que trabalhar o desapego. Seja por convicção, necessidade ou simplesmente por falta de espaço.
Eu cheguei no “tempo do desapego”.
Muitos sabem do meu fascínio (e loucuras) por conta dos livros e revistas. Não empresto (só a poucos privilegiados e ainda com muitas recomendações: não dobre as folhas, não vire a capa, me devolva, etc.), não dou, não vendo. Mas onde colocar tanta coisa? Eis a questão!
Decidi me desfazer das revistas que venho acumulando... juntei tudo, levei pro “meu cantinho” e decidi só retirar o que realmente me interessava e passar para frente. Compartilhar informações! (na teoria é lindo!)
Eu sabia o que queria – dicas de viagens, livros, músicas, filmes. E ponto mesmo!
Mas não deu.
Ao invés de seguir pelo índice e ir direto ao que interessava eu fui folheando cada uma. Foi muito difícil, mas no fim foi ótimo. Descobri uma série de coisas:
Quantas roupas lindas que gostaria ter comprado, à época, e se o tivesse feito estariam abarrotando meu armário, pois hoje me parecem horríveis!
Fui ler uma reportagem intitulada “50 tendências para os próximos 50 anos”. Legal, mas no terceiro item estava lá que mulheres, mesmo as casadas, iriam viajar mais, e sozinhas. Eu já faço isso há anos! E por que me interessaria saber dessas tendências se daqui a 50 anos não vou mais estar viva? Perda de tempo!
Confirmei que as mulheres felizes não são perfeitas. Que no Brasil existem milhares de Benzedeiras e que sim, as pessoas confiam!
Sou feliz sem ter um candelabro lindo (de vidro) que custa R$ 1.160,00 e um par de brincos de lápis-lazúli de R$ 6.860,00.
Se eu tivesse seguido todas as tendências de maquiagem, meu rosto teria passado por todas as cores do arco-íris. Em questão de meses teria ido do “Femme Fatale” (vermelho e preto) ao “Caminho do Ouro” (tudo dourado). Isso sem contar dos contrastes boca brilhante, boca opaca, tons pastel versus metalizados e por aí vai.
Ainda na área da beleza tinha o “Laser em gotas”, cremes que prometem rejuvenescer 10 anos em 10 semanas e um para a região do colo que custava tão caro que era preferível fazer plástica.
Na área decoração tinha mil e uma guirlandas de natal que eu estava a ponto de recortar mas refleti a tempo: para quê se nunca vou fazer?
Estava me sentindo como a adolescente que recortava retratos de artistas e colava em cadernos sonhando com o dia em que iria conhecê-los. Leram bem “que iria” e não “se iria”. Sonhos! É tão bom sonhar. Sonhos são minha válvula propulsora. Só que nessa altura da vida não dar para ficar sonhando sonhos impossíveis.
E por falar em sonhos impossíveis, vamos às Viagens!
Tinha para todo gosto, um tal Caminho de Abraão – (o da Bíblia, que dizem viveu 4.000 anos) que corta Israel, Turquia, Jordânia, Territórios Palestinos e Líbano. Deve ser uma verdadeira prova de vida ou morte. E outras dicas que já estão no meu caderno de recortes (sim, eu tenho um caderno de recortes, por assunto!): Caribe, rota de castelos entre a Espanha e a França, Cartagena e outras mais.
Também estão no meu caderno os livros que ainda vou comprar, como, por exemplo, “O Caso Neruda” do chileno Roberto Ampuero que conta a história de Neruda, já velho e doente, depois do Prêmio Nobel, em seu retorno ao Chile em busca de uma mulher que teria respostas sobre questões do seu passado. Também vou comprar “Falando com os Mortos” (história das irmãs Fox, precursoras do espiritismo), “A Delicadeza” (David Foenkinos), entre outros.
Reli reportagens maravilhosas como a história da caiçara Lydia Gonçalves que aprendeu a ler aos 65 anos e já escreveu um livro; a de Nellie Bly, escritora, única repórter mulher da primeira guerra mundial; e uma crônica linda do José Ruy Gandra onde fala de amor, mal, morte, tempo, um verdadeiro legado a seus filhos ensinando-os lições como “Alegrias extremas. As dores mais lancinantes. Agradeçam o que o destino lhes reservar. Os bons momentos alegram a alma. Os ruins ajudam a lapidá-la”.
Na seção Móveis – Decoração – Casa tem recortes de coisas que sei não vou comprar, mas são tão bonitinhas, como a capa para chaves em formato das bonequinhas russas Matrioskas ou o espremedor de limão em forma de barquinho.
Descobri que existe sorvete para cachorro, sabor bacon e custava (quando saiu a revista) a bagatela de R$ 5,50 o pote com 80 gr. – mais caro que sorvete diet, de gente!
Tudo recortado e guardado no caderno!
Foram horas e mais horas de recordações, reflexões, paz.
Recortar revistas faz bem para a alma!
Mas se vale um conselho, quando receber, em uma revista, alguma “amostra” de produtos, retire-os logo... coloquei no lixo inúmeros saquinhos com cremes hidratantes, creme dental, chás, etc. tudo vencido!

quarta-feira, 30 de maio de 2012

DESCULPAS

Meus queridos que por aqui passam, preciso pedir-lhes perdão.
Há tempos que estou ausente... não existem desculpas, mas existem justificativas.
Estive muito "para baixo" com as dores que me perseguem, devido à doença que tive... minha inspiração (se é que assim posso dizer) parece que resolveu se esconder!
Mas como já disse antes, entre desistir de viver por causa da dor e aprender a viver apesar da dor, escolhi VIVER! A dor é só um acessório que carrego comigo.
Porém me apresento para dizer-lhes que, com ou sem dor, estou partindo em viagem!
Minha primeira grande viagem depois da doença.
Entreguei para Deus!
E pé na tábua!
O México me aguarda!
Se der, postarei alguma coisa de lá!

Catedral - Cholula - Puebla

terça-feira, 26 de julho de 2011

Enfim, MANAUS!



Eu tardo e também falho!
Prometi postar sobre a viagem a Manaus e fui enrolando, enrolando, e agora, que já estou de partida novamente, estou me sentindo culpada.
Então... vamos ao que interessa!
Manaus é uma cidade que, num bom capixabês – língua falada pelos oriundos do Espírito Santo (rs) – é “esparramada”! Tirando o centro da cidade, tudo é muito amplo, muito verde.
Gente gentil, bem humorada, alegre.
Para vocês terem uma ideia, fomos informados que o Palácio Rio Negro não funcionava aos domingos (erroneamente), daí deixamos para ir na segunda, nosso último dia. Chegando lá estava fechado. Fiquei muito triste. Tinha uma senhora saindo e perguntei se estava realmente fechado, ela me respondeu que sim; disse da minha tristeza de não conhecer e que provavelmente não teria nova oportunidade. A senhora, que pelo visto trabalha lá, chamou um funcionário e pediu que nos mostrasse o Palácio. Fiquei encantada! Acredito que são poucos os lugares em que fazem isso.
Eu achava que a Zona Franca de Manaus fosse um lugar delimitado, onde tivessem lojas que venderiam produtos (principalmente eletrônicos) a preços menores. Ilusão! Isso não existe. Nem vale a pena comprar porque é mais caro do que aqui.
Eu sempre classifico os lugares que conheço em três categorias:

- Lugares que volto quantas vezes puder: Paris, São Paulo, Assis, Firenze, Toledo, Lisboa e arredores...

- Lugares que não volto nem se me pagarem: Roma, Roma, Roma

- Lugares que precisamos conhecer mas não precisamos voltar: Veneza, Brasília, São Luis, Madri, Manaus.

Acho que todos que puderem devem conhecer Manaus e tudo que a cidade e entorno proporcionam.

Nós compramos os passeios e tours numa agência de viagem, antes de irmos. Besteira! Podem deixar para comprar lá que sai mais barato e ainda tem a vantagem de adaptar o passeio ao clima do dia.

Calor – é quente! Muito quente! E as pessoas ainda diziam que a temperatura estava amena porque era inverno (março).

Outra coisa interessante é a quantidade de camelôs. Nunca vi tanto! Nem na 25 de Março (SP). Só que eles são organizados, é tudo setorizado por produto! rs

Manaus não é só o que listei abaixo. Tem muita mais... é só sair passeando... a pé!

PONTOS TURÍSTICOS

- Teatro Amazonas

Construído na época do Ciclo da Borracha, em plena Floresta amazônica. Imperdível! Um dos teatros mais lindos que já visitei. À noite, à sua volta, tem umas ruas só para pedestres, com barzinhos, lojas, quiosques, etc.

Não deixe de experimentar o Tacacá da Gisela, o melhor de Manaus, que fica ao lado do Teatro.

-Praia da Ponta Negra

É o local onde há maior presença de jovens, lá é possível encontrar apresentações de dança e música. No calçadão é possível praticar diversos esportes.

- Porto de Manaus

Foi inaugurado em 1902, é uma das obras mais interessantes, pois oscila com a subida e descida das águas do Rio Negro.

- Prédio da Alfândega

Inaugurado em 1906 e utilizando matéria-prima da Inglaterra, foi um dos primeiros prédios a ser construído no Brasil com blocos em pedra.

- Bosque da Ciência ou Parque do INPA

Localizado na sede INPA, possui uma grande área rica em vegetação e animais da Amazônia.

- Centro de Artes Chaminé

No passado foi uma importante estação de tratamento de esgotos, responsável por toda a cidade. Hoje, representa um importante espaço para apresentações e exposições de arte.

- Palácio Rio Negro

Por muitos anos, foi sede do Governo Estadual. Atualmente é palco de exposições, shows musicais e teatro. Mas ainda acontecem reuniões oficiais do Governo.

- Centro Cultural dos Povos da Amazônia

Área destinada ao conhecimento, exposições, artes, peças teatrais, reuniões, festivais.

- Igreja de São Sebastião

Construída em 1888, faz parte da Praça São Sebastião e do Teatro Amazonas.

- Igreja Matriz Nossa Sra da Conceição

Foi a primeira igreja construída na cidade de Manaus, no ano de 1695, é a primeira igreja construída em Manaus. Em 1850 sofreu um incêndio e em 1878 teve finalmente sua conclusão. Possui 6 sinos de origem portuguesa.

- Mercado Municipal Adolfo Lisboa

Uma réplica do mercado em Paris "Les Halles". Principal porta de entrada na cidade da produção pesqueira e rural do estado. (em reforma)

- Centro Cultural Palacete Provincial

No local é possível encontrar o Museu de Numismática, Museu da Imagem e do Som do Amazonas, Pinacoteca do Estado, Museu de Arqueologia e Museu Tiradentes.

PASSEIOS

- ENCONTRO DAS ÁGUAS

Fenômeno natural provocado pelo encontro das águas dos rios Solimões e Negro. É aquilo que estudamos e vimos nos livros de geografia. Muito bonito. Além disso, no mesmo passeio, conhecemos parte da floresta Amazônica, Vitória-régia, e se derem sorte, como nós, poderão até ver alguns animais.

- CACHOEIRAS DE FIGUEIREDO

Presidente Figueiredo é um destino certo pra quem quer fazer um passeio turístico na região de Manaus. A cidade fica a cerca de 110km da capital amazonense. Conhecida como "A Terra das Cachoeiras". Opção de banhos, Rafting, etc. Mais importantes são a do Santuário, de Iracema e da Suframa, além do Parque Urubuí, no centro da cidade.

- HOTEL ARIAÚ

Está localizado a 60 quilômetros de Manaus, ao longo da margem direita do Rio Negro, no Parque Estadual do Rio Negro e no começo do Arquipélago das Anavilhanas. Suas instalações ficam suspensas, o que permite a observação de flora e fauna da região. O hotel oferece o exclusivo programa de terapia com botos (golfinhos de água doce), a chamada "Bototerapia". Você pode ir só visitar.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

VAMOS VIAJAR?

Manaus - Aeroporto

Antes de mais nada gostaria de agradecer aos meus companheiros fiéis que, mesmo quando os abandono, nunca me esquecem.
Em especial à Vanuza Pantaleão, Maurício, Kátia GV (rs), George Bueno, Dauri Batisti, Elane, às recém-chegadas (odeio essa nova ortografia que me fez perder a certeza de onde tem hífen!) Maria Leite, Jussara Christina e Estefania Morandi, espero nunca desapontá-los!

Agora vamos ao que me trouxe aqui!
Prometi contar sobre a viagem! Pessoas! Pensem bem! Eu, que já andei mais de 800 km a pé, ficar parada por mais de dois anos, só pode ser castigo! rs Então vamos lá:
Tudo comigo nunca é como acontece com a maioria das pessoas, tem sempre que ter um "que" de diferente!
Pois é, estávamos (eu e Roberto) deitados, ele assistindo TV e eu no Note. Daí recebi um e-mail da Gol com o seguinte assunto: "Vamos Passear?" Não parece que eles me conhecem? Abri o dito cujo e lá estava: "Você quer passear para qualquer lugar do Brasil pagando R$ 10,00 a volta?"
Raciocinem comigo, não parece pegadinha?
- Não era!
Virei pro Roberto e perguntei:
- Vamos a Belém?
Ele olhou para mim sem entender nada e me perguntou o que estava passando na minha cabeça, porque na dele deveria estar uma porção de interrogações do tipo: essa mulher pirou de vez!
Mostrei o e-mail e disse que gostaria de conhecer Belém. Seria uma excelente oportunidade!
Então ele me perguntou por que não irmos a Manaus?
Ele já conhece Belém mas não conhecia Manaus. Daí respondi, tudo bem. Entrei no site, comprei as passagens e, simples assim, estávamos com viagem marcada para Manaus!
Foi um parto conseguir hotel. Eu queria ficar no Tropical - um resort na Ponta Negra que dizem ser excelente. Não consegui, só falavam que estava lotado. Já em Manaus descobri que estava acontecendo o Fórum Mundial de Sustentabilidade, com a presença, entre outros famosos, de Bill Clinton e Arnold Schwarzenegger, onde? No Tropical! Por isso o hotel estava lotado. Mas como eu tenho um anjo porreta foi a maior dentro da minha vida, com isso escolhi um hotel mais simples, no centro da cidade, (o Líder), que apesar de antigo, é super amplo, todo reformado, funcionários agradabilíssimos, restaurante muito bom e a vantagem de estar perto de quase todos os pontos turísticos, a ponto de passearmos a pé!

Dica: Se você for a Manaus aconselho o Hotel Líder! Se você ficar no Tropical Resort, fique sabendo que para cada passeio ao centro da cidade (onde ficam os Museus, Teatro, Mercado, etc) você vai gastar, por baixo, R$ 100,00.

Pesquisei os lugares que queria conhecer, os passeios, etc e fomos nós em direção a outro Brasil chamado Manaus!


quinta-feira, 24 de março de 2011

ABRAM ALAS!!!



Como a maioria de vocês têm conhecimento, passei por maus pedaços nos últimos dois anos. No entanto, esse espaço, a presença dos amigos, foram fundamentais para que eu não desistisse, que insistisse em ser maior que a enfermidade que me acometeu e cujas sequelas carregarei "ad infinitum". Havia dias em que eu necessitava tomar 16, isso mesmo, dezesseis comprimidos.
Diante do inevitável, tomei algumas decisões que compartilharei com vocês.

- Seguindo minha intuição e diante das dores persistentes, apesar da quantidade de medicamentos, decidi ir diminuindo as doses para ver se piorava. Afe!!! Não piorou, continuou a mesma coisa, daí diminui a maior parte até parar definitivamente, mesmo porque meu estômago já não aguentava mais. Daí, hoje, tomo apenas 5 comprimidos. (Não pensem que sou louca de pedra, quando cheguei aos 5 conversei com meu médico que me apoiou!)

- Se a dor vai me acompanhar por um tempo que nenhum de nós sabe qual e se vai doer estando eu na minha casa ou em Paris, prefiro, mil vezes, sentir dor em Paris.

- A dor é meu limite, mas não é mais minha comandante! Explico: antes eu deixava de fazer uma série de coisas por precaução para que a danada não chegasse. Agora não deixo de fazer nada, só que quando ela chega eu me recolho! Não ia a uma festa achando que a dor não me deixaria apreciar, agora eu vou, aproveito, e quando fica insuportável, volto para casa. Todos compreendem e eu voltei a me divertir.

- Minha vida esteve por suspenso durante dois anos. Tomei-a de volta!

- A coisa que mais gosto na vida é viajar. Não viajava mais por causa da dita cuja. Decidi por à prova!

Gente: EU VIAJEI!!!!!

Tudo bem que foram só seis dias. Mas eu e meu esposo fomos conhecer Manaus!
E foi ótimo!
É claro que não abusei, que precisei tomar alguns analgésicos (tá bom, muitos), mas eu fui!
Ganhei mais uma batalha nesta vida!
Nos próximos dias começo a postar sobre a viagem.
Obrigada, de coração, a todos que passaram por aqui, que não desistiram de mim, que me deram (e dão) forças para continuar lutando. Vocês estão num espaço muito especial do meu coração!
Saibam que a Dona Morte pode até pensar em me levar, mas vou dar um trabalhão, acho que já provei!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

PELO CAMINHO


Amigos do Caminho

Caminhando pela estrada das estrelas
Palmilhando o norte da Espanha,
Nunca pensei pudesse crescer tanto
Junto àquela gente, a princípio, estranha.
Foi no caminho que aprendi
O significado da amizade verdadeira,
Que ultrapassa credo, cor, posição social,
Que quebra toda barreira.
Quando as dificuldades da língua
Tornavam impossível a compreensão
Aprendi a falar e escutar
Somente com o coração.
Aprendi o real significado
De palavras como tolerância e paciência,
Que às vezes temos que rever conceitos,
Que não podemos nos deixar levar pela aparência.
O caminho nivela a todos
Consegue a todos igualar
Pois ficamos reduzidos
Ao que suportamos carregar.
Tanta amizade sincera
Fiz por estas paragens,
Um sentimento tão profundo
Que não se vê em conhecidos de viagens.
Amigos que se foram,
Outros que deixei para trás,
Alguns que ainda seguem comigo
Outros que sei, não verei nunca mais.
E agora, meus companheiros queridos,
Que o caminho chega ao fim
Sobrou este vazio imenso,
A alma em chamas, esta dor em mim,
Este não saber o que fazer,
Pois a cada passo que dou
Se me aproxima de Deus,
Mais me afasta de vocês.


Arca - Espanha



quinta-feira, 22 de julho de 2010

PALAS DE REI – MELIDE


E a saga segue seu curso... não sem antes agradecer ao meu querido Anjo da Guarda Mauricio, que mesmo quando eu xingo, não respondo, nem assim ele fica com raiva de mim... e ainda scaneia as fotos que eu não tirei!!!! ...Ah! nem adianta mandar largar do seu pé que é karma! ... Sei, também te amo, meu amigo!rs

Essa foto eu não poderia deixar de lado porque rendeu-nos boas gargalhadas... A gente passava e, às vezes, do nada, aparecia uma construção suspensa, com cruzes, elementos bíblicos, ora de madeira, ora de tijolo, e a gente tentava descobrir o que era, tentava "futucar" nas frestas, mas nada... como a maioria ficava no campo eu cismei que era onde eles colocavam os mortos. Um dia a Cris se encheu de razão, pegou um pedaço de pau e começou a tentar abrir uma fresta maior, nisso eu vim de trás, fiz "UUUUUUUUUUUUUUUU" e saí correndo fingindo estar assustada... ela disparou e só parou quando me viu me dobrando de rir... quase me bateu!

Daí nós resolvemos deixar de ser orgulhosos e perguntamos (o Mauricio, claro, a boa parte sempre sobrava para ele): Pois bem, chama-se Hórreo, também conhecido como Cabazo, Cabaceiro(a), Canastro ou Piorno é uma construção popular da região da Galícia, mas que se estende em outras zonas no norte ibérico. É destinada a secar, guardar e conservar o milho e outros cereais de ataques de ratos. Tem todo um simbolismo econômico na sua origem, quanto maior o Hórreo, maior a riqueza dos proprietários.
Este foi por fotografo por Mauricio em Gonzar, na saída de Portomarín.


Havíamos combinado percorrer só 15 km. Acredito que Cristina e Mauricio tenham feito esse acordo por piedade, mas não deixaram transparecer, e como estávamos muito bem acomodados e acompanhados nem nos preocupamos com as horas...

Erro fatal!

Acordamos com uma voz esganiçada (linguajar mineiro da Cris) aos berros, xingando e gritando que já tinha passado da hora de peregrino estar na estrada. Levei um susto tão grande que passei a juntar coisas, escovar dentes, lavar rosto, tudo ao mesmo tempo. Era a hospitaleira, que de hospitaleira só tinha o nome. Colocou todo mundo para fora, não respeitou Orlando e Micheline, um casal já “mais experiente”, tampouco o grupo de excepcionais.

Resolvemos fazer o desdejum num bar bem em frente ao albergue... segundo erro em tão pouco tempo!

As torradas vieram da parte reservada do restaurante já lambrecadas com uma coisa que parecia geléia passada da validade, rançosa. Uma senhora velha, gorda e porca, que limpava as mãos e o rosto com o mesmo pano que limpava o balcão, nos serviu rindo e mostrando os dentes todos estragados, sem contar o cheiro... A soma de tudo revolveu meu estômago e eu e Mauricio saímos sem comer, mas pagamos. A Madre Cristina de Calcutá ficou e comeu, por pena da senhora... Nós comemos em outro lugar.

E pé na estrada!

Também já eram 9 horas, isso lá é hora de peregrino sair? rs

Apesar da hora tinha muita neblina. Para nossa surpresa caminhamos muito tempo por dentro de bosques, o que foi muito agradável, mas não impediu do meu pé logo dar sinal de vida (ou de morte!). Porque volta e meia, ou melhor, subida e descida, apareciam uns atoleiros danados e difíceis de ultrapassar. Aí vocês podem perguntar, mas porque a demente não foi pelas pedras? As pedras acabavam no meio maior do lamaçal.

Chegamos cedo a Melide e pra variar a primeira coisa que fomos ver foram os banheiros. Só um chuveiro tinha porta. Eu e Cris corremos para tomar banho antes que ficássemos abertas à visitação pública nos boxes sem nem uma cortininha... água escaldante! Deliciosa!!!

Cris foi descansar e eu fui lavar roupa, comprar comida, coisa básica!

Quando voltei a Cris disse que ia sair para almoçar, eu e Mauricio já havíamos comido e ficamos no albergue.

Daí um tempo chega a Cris revoltada e rosada, para não dizer roxa, dizendo que tinha visto um anúncio num restaurante de um arroz com frango, naquela altura estávamos loucos para comer arroz, daí ela pediu... veio salada de entrada e foi só o que ela conseguiu comer, o tal arroz estava intragável, e enquanto tentava comer “encheu os chifres de vinho rosé”.

Convidei a Cris para conhecermos a cidade, calçada com Havaianas é claro!

Fachada da Iglesia de la Virgen de las Nieves - Leboreiro (caminho)

Quando estávamos de volta ao albergue só ouvi a Cris conversando em portunhol com um desconhecido e dizendo: “A Kátia sabe. Ela sabe tudo”, fiquei curiosa e fui ver. Era o marido de Ângeles que havia conseguido uma folga e estava percorrendo o Caminho de bicicleta em busca da esposa. Peguei minhas anotações, vi a última vez que estivemos juntas, mais os cálculos de bruxa e disse: Pode pedalar até Arzúa que ela está lá.

E não é que estava mesmo!!!!

A gente evitava conversar sobre o dia seguinte. Nosso tempo estava se esvaindo. Santiago chegando... e ao mesmo tempo uma vontade louca de continuar no Caminho...

Nem fotos eu queria mais tirar... era como se começasse a abrir um rombo dentro do meu peito, neste rombo tinha medo, tristeza, lágrimas não vertidas, palavras não ditas, saudade antecipada.

A chegada, ao mesmo tempo que representava nossa vitória, representava também adeus, despedida... e é tão triste separarmos daqueles que aprendemos a amar.

No coração só a certeza que nunca mais era nunca mais mesmo.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

SANTIAGO DE COMPOSTELA - O RETORNO

PORTOMARÍN – PALAS DE REI

Preâmbulo: Estava eu a contar minha (ou melhor, nossa, já que Mauricio e Cristina são companheiros de caminhada, reflexão, dores e risos) Saga pelo Caminho de Santiago de Compostela, daí adoeci e tive que interromper, já que as dores, internações, etc. impediam-me até de pensar... então, os capítulos anteriores vocês encontrarão no tag "Santiago de Compostela".
Estou reeditando o último percurso para, daqui em diante, seguir com a história.
Talvez necessitasse desse longo tempo para reavaliar valores e vivências!

Preâmbulo 2 (se é que existe rs): Quero agradecer à Vanuza Pantaleão pela linda homenagem que me prestou em seu último post. Fico emocionada e com um compromisso ainda maior em não decepciona-la.

Preâmbulo 3 (hahahaha): Pode ser que eu ainda tenha que "desaparecer" por algum tempo, essas idas e vindas para hospital já são rotina, mas prometo avisar!

Então vamos lá caminhar minha gente

Saída de Portomarín

Nesse dia acordamos cedo. Queríamos evitar o sol forte da tarde, portanto levantamos por volta de cinco da manhã, tomamos nosso café, e antes das seis já estávamos com o pé na estrada. Mas parecia noite. Lua cheia, ainda alta no céu. Não dava para ver onde pisava. Entretanto, Deus, na sua generosidade, presenteou-nos com um belíssimo amanhecer. Parecia o despertar da Terra! Indescritível!
Bem, foi só o que consegui fotografar...
Depois de três dias caminhando sem mochila até que o início não foi tão penoso, mas, à medida que os quilômetros iam ficando para trás (foram 22 naquele dia) e o sol cozinhava nossos miolos foi ficando quase insuportável. Mas eu também não podia ficar repetindo, a toda hora, que estava sentindo dor.
Primeiro: Ninguém merece uma pessoa lamuriando-se o tempo todo.
Segundo: Reclamar não vai aliviar a dor.
Terceiro: Eu tinha outra escolha... então... era fé em Deus e pé na trilha!

Caminho Portomarín - Palas de Rei

Lembro-me de ter rezado muito naquele dia. Não por mim, porque como disse eu havia escolhido ir até o fim, mas rezei por aqueles que gostariam de estar no meu lugar (mesmo com as dores) e talvez nunca tivessem a chance, pelos meus amigos, pela dádiva de ter a família que tenho, pela minha mãe que se recuperava do primeiro câncer, pela humanidade, pela paz.
Rezar ajudava-me a ter força para seguir adiante.
Por volta de duas da tarde chegamos a Palas de Rei.
O Albergue é dividido em vários quartos, subdivididos em três repartições com quatro camas cada. Eu e Cris ficamos com Orlando e Micheline, Mauricio ficou na repartição ao lado, e também tinha uma família de espanhóis conosco.
Como eram só três homens, eles tiveram a cortesia de deixar as mulheres tomarem banho primeiro, uma vez que os chuveiros não tinham nem cortininha...

Parêntesis 1: Banheiros – eu deveria dedicar um capítulo inteiro aos banheiros (ou ausência de) durante o caminho. Tinha banheiro de todo tipo. Banheiros individuais, separados por sexo, unissex, com porta, sem porta, de todos as maneiras que vocês puderem imaginar. Para nós, brasileiros, acostumados à privacidade, era meio difícil, então quando eram vários chuveiros do tipo chuveiros de sauna, sem porta, homem e mulher junto, eu e Cris escolhíamos os últimos e colocávamos o Mauricio de prontidão para que ninguém passasse! (Pobre Mauricio!)


Amanhecer

Pois bem, depois do banho eu, que já estava péssima, fiquei pior ainda, pois descobri mais duas bolhas, sendo uma exatamente ao lado da que estava infeccionada. É claro que chorona como sou, abri a torneira. A Cris, penalizada, chorava comigo e rezava dizendo que eu não merecia tanto sofrimento. Minha vontade era dormir e não acordar nunca mais.
A Cris foi lavar todas as nossas roupas (o albergue tinha máquina de lavar) e Mauricio cuidou de drenar minhas bolhas.
Fiquei descansando. A Cris me contou que tinham dois jovens acompanhando um grupo de adolescentes com Síndrome de Dawn e que ficou emocionada e encantada com o carinho e a dedicação que eles tinham para com os meninos...
Saí apenas para comer, daí não ter fotos de Palas de Rei.
Como eu não agüentaria caminhar muito mesmo, combinamos que levantaríamos mais tarde, no dia seguinte e iríamos somente até Melide, uma caminhada de 15 km.

terça-feira, 1 de junho de 2010

ANIVERSÁRIO


SANTIAGO DE COMPOSTELA

Meus queridos amigos que aqui comparecem, às vezes até mais do que eu, nestes últimos tempos. que têm sido tão difíceis. Mas não podia deixar de registrar uma data tão importante.
Foi exatamente há 10 anos que terminávamos nossa peregrinação pelo Caminho de Santiago.
Tanta coisa me aconteceu... muitas já compartilhei com vocês e ficou a promessa do retorno, por tanto tempo afastada mas a promessa não ficou esquecida... penso em retomá-la "de pronto".
Aos companheiros peregrinos o meu abraço.
Aos irmãos de jornada, em especial Cristina, Maurício, Marco, Maria do Socorro, Esperanza e Alonso, o meu mais fraterno beijo.
Que Deus siga nos abençoando a todos!

Ultreya y Suseya!

terça-feira, 20 de abril de 2010

POR AÍ...

"Se alguém perguntar por mim,
Diz que fui por aí..."



Vou fazer uma pequena viagem, com minha fiel companheira...
Testar meus limites, retomar os prazeres da vida, buscar o novo de novo.
Tentar olhar a cidade dos meus amores com um novo olhar,
Porque eu mudei, a dor me mudou,
As constatações, a cada dia, são novas.
Só a dor continua presente...
Porque a dor é uma constante
Mas Eu não sou a dor!
Sou mais!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

PORQUE RIR AINDA É O MELHOR REMÉDIO...

Estação de trem, metrô, etc em Berlim

OU PODERIA SER MAIS UM DA SÉRIE “COISAS QUE SÓ ACONTECEM COMIGO”
Estávamos nós em plena Europa, eu, meu marido e nossos vizinhos.
Cabe um parêntesis para que vocês compreendam as reações que virão, eu e eles somos amigos desde que nascemos, freqüentamos as mesmas escolas, moramos na mesma rua (é certo que na nossa cidade só existiam três principais, rs), seguimos nossas vidas juntos e eu os considero como irmãos, daí termos a intimidade que muitos irmãos consangüíneos não têm.
Já havíamos viajado por quase um mês, passeado bastante, rido bastante (dos outros e de nós mesmos) e, principalmente, comprado um monte de tranqueira. Para vocês terem idéia eu tive coragem de comprar uma chaleira e um escorredor de macarrão, logo no início da viagem, na Alemanha, e carregá-los pela Itália e França afora, sem contar a volta pela Alemanha... só coisa de brasileiro doido, ou seja, euzinha! Mas enquanto ele me zoava por causa da chaleira, eu o lembrava que no fundo de sua mala tinha dois serrotes!
Ainda no Brasil nós havíamos conseguido comprar passagens aéreas Milão-Berlim a preço de banana. Como fizemos todo o percurso em terras estrangeiras de trem, este foi o único trecho que necessitamos de avião para cumprirmos o roteiro que nos propusemos.
Tudo uma maravilha. Até que chegamos ao aeroporto de Milão. Embora tenhamos usado de todos os artifícios (bolsas de mão enormes, homens com mochilas, etc.), o peso de nossa bagagem excedeu um absurdo e lá fomos nós, depois de muita negociação, pagar o excesso: saiu mais caro que as passagens! Levamos na esportiva e seguimos em frente.
Ficamos uns dias em Berlim e depois seguimos para Frankfurt, de trem. Eu e o Roberto tínhamos duas malas (pesadíssimas), duas mochilas, uma bolsa de mão e mais minha bolsa pessoal, tudo isso para colocar dentro do trem – uma peripécia e tirar depois – outra maior ainda! Resultado, quando, enfim, chegamos ao aeroporto, despachamos as bagagens, etc. e tal, o Roberto estava tão suado que era impossível viajar quase doze horas naquela situação. Bem à nossa frente tinha uma lojinha da Nike, então eu disse: - Vocês me esperam aqui, eu vou à loja, compro a camisa mais barata que encontrar, volto, o Roberto vai ao banheiro, se lava e troca de camisa. Lembrei de um desodorante que eu havia esquecido na bagagem de mão e daí ele aproveitava para usar e jogar fora, porque eles não estavam aliviando quanto ao embarque de líquidos.
Estava eu no interior da loja quando, ao virar-me, um homem alto, afro-descendente, esbarra em mim e, educadamente, diz: - Sorry!
Ao mesmo tempo meus dois neurônios se ligaram e mandaram a mensagem de que eu conhecia aquela pessoa. Então respondi: - Não foi nada, pode falar em português mesmo!
Nós então, entabulamos uma conversa:
- Brasileira! Que alegria! Está chegando ou partindo?
- Estou indo para o Brasil e você?
Ele olha para mim com aquele olhar de “conheço você de algum lugar, mas de onde?” e eu, que perco tudo, mas não perco a pose, também fingi lembrar-me de onde o conhecia. Então continuamos conversando como velhos amigos que se encontram.
- Estou indo para Milão, disse ele.
- Acabo de chegar de lá, disse eu.
- Está muito frio?
- Não, está agradável. Quando você vai ao Brasil?
- Assim que tiver uma folga...
Nesta altura já estávamos na fila do caixa e a moça se desdobrando em amabilidades para atender-nos.
- Sinto muita saudade do Brasil,
- É assim mesmo, quando estamos fora do nosso país. Mas a gente acaba se acostumando, digo eu.
Pagamos e ele resolve olhar uns bonés, então nos despedimos:
- Tchau, foi um prazer te ver – disse ele.
- Tchau, também adorei te reencontrar, a gente se vê por aí – respondo eu.
Beijinhos para cá, beijinhos para lá, e eu saio da loja.
Encontro meu grupo e digo para eles, vamos ficar aqui, na moita, escondidos atrás desta pilastra porque vai sair um moreno alto da loja, que eu fiquei conversando um tempão, mas não consigo lembrar de onde eu conheço.
Assim fizemos. Estava meio dispersa quando, de repente, meu amigo me dá um safanão e pergunta:
- É aquele?
– Sim, sim, é... respondo.
E o meu amigo:
- É claro que você conhece, sua demente! Sabe de onde? Da televisão! É o Gilberto Silva, da Seleção!

domingo, 25 de janeiro de 2009

SARRIA – PORTOMARÍN


CHEGANDO AO MARCO 100 KM.

Caminho Sarria - Brea

Vocês lembram que o homem havia dito que seu amigo roncava? Brincadeira... roncava não... ele tinha era engolido uma britadeira que ficou ligada a noite toda, incomodando o albergue inteiro. Felizes os que resolveram caminhar à noite. Eu passei a noite praticamente em claro. Não havia silicone no ouvido que desse jeito. E o dito cujo estava bem na cama abaixo da do pobre do Mauricio. Lá pelas cinco e pouco da manhã, uma espanhola que não lembro o nome, levantou, acendeu a luz, começou a arrumar suas coisas e fazer barulho, daí houve quem reclamasse, ela retrucou dizendo que o sujeito havia incomodado todo mundo que reclamassem com ele, tudo isso aos berros... A maior baixaria!
Bom, não teve jeito, levantamos e preparamo-nos para seguir adiante.
Como Deus e Santiago não abandonam os seus, a Rosa – mãe de Angeles, estava com a perna machucada e iria de táxi até Portomarín e se ofereceu para levar minha mochila. Então foi um alívio saber que enfrentaria os 22 km. que me esperavam sem ter que levar peso.
Apesar de tudo foi uma boa caminhada. Muitos bosques, atoleiros, poucos povoados e muito, muito sol.

Atoleiro Brea - Portomarín

Fomos devagar, parando quando dava, ou quando eu cansava, e assim passamos por Barradelo, Rente, Brea.

Brea - Mauricio e Lua

Em Brea paramos num pequeno bar para comer alguma coisa e tinha uma cadela – “Lua” – que caiu de amores pelo Mauricio. Era a coisa mais linda, a gente sentada e ela buscava um bicho de pelúcia e ia até o Mauricio e ficava mexendo com ele até ele levantar e ir atrás dela fingindo que ia pegar o bichinho... Foram momentos agradabilíssimos e inesquecíveis. Uma alegria quase infantil. São momentos assim que me faziam esquecer as dores, as bolhas, infecção, antibiótico, o escambau!

Marco 100 km (tem gente mal educada em todo lugar)

Passamos pelo marco de 100 km. e deu um aperto no coração. Estávamos chegando ao final da nossa “epopéia”, mas ao mesmo tempo não queríamos chegar, pois chegar representava deixar de ser peregrino, assumir outra vez nossos papéis na sociedade, separar-nos.
Meu coração era uma total contradição e eu ainda não conseguia digerir o que estava acontecendo...

Portomarín

Chegamos a Portomarín com o sol a nos cozinhar os miolos. Depois da rotina de peregrino (lavar roupa, banho, arrumar mochila, etc.) fomos para um parque vizinho ao albergue. Deitamos na relva, à sombra de grandes árvores e ficamos ali, madornando e filosofando. Segundo lembranças da Cris, havíamos reunido tudo o que tínhamos para comer: 3 pêssegos, 2 Toddynhos, requeijão, torradas e 1 barra de cereal, dividimos irmanamente e fizemos nosso lanche. Mauricio estava com dores no pé e Cris fez uma massagem caprichada.
Saímos para conhecer a cidade.

Parêntesis 1: Portomarín é uma cidade recente. Embora antiga. Foi um importante povoado do Caminho no período medieval. O povoado original, formado por dois bairros, San Nicolás e San Pedro, ficava às margens do rio Miño e hoje jazem debaixo do grande lago, resultado da represa que construíram. O povoado que vemos hoje foi construído em 1960 para abrigar os antigos moradores. Porém nem tudo foi perdido. A grandiosa Igreja-fortaleza de San Nicolás, erguida pelos monges-cavalheiros da Ordem de San Juan de Jerusalén, no século XII, foi desmontada pedra a pedra (ainda hoje se pode ver a numeração na lateral de cada pedra) para ser reedificada na praça central do novo povoado, junto com o frontispício do antigo “Ayuntamiento” (prefeitura) e a fachada românica da Igreja de San Pedro.


Iglesia-Fortaleza de San Nicolás

O calor estava insuportável. Paramos num bar, tomamos uns refrigerantes e depois fomos jantar. Entupi-me de Torta de Santiago (um doce fantástico, e eu nem gosto de doce, que eles servem com uma bebida alcoólica por cima, delicioso!).

Detalhe das pedras numeradas

Combinamos de sair cedinho no dia seguinte para não termos que enfrentar o sol escaldante. E fomos dormir... ou melhor, pensamos que dormiríamos! Foi só a gente deitar que começou uma fuzarca no bar em frente, com gente rindo alto, falando alto, música alta. A Cris estava na cama de cima do beliche e havia deixado a janela aberta porque o calor estava insuportável, dava para ver a lua cheia, linda... Mas juro, nem a beleza da lua conseguia me acalmar. Nós já tínhamos passado uma noite em claro por causa da britadeira, agora passar outra noite sem dormir por conta daquele povo... Não sei qual vontade prevalecia dentro de mim, se era matar ou morrer.
No fim, acabei adormecendo, de exaustão.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

TRIACASTELA – SARRIA

FALTAVAM-NOS 132 QUILÔMETROS

Caminho San Xil - Calvor


Em Triacastela, remoendo meu complexo de inferioridade, minha culpa, minha dor e tudo o mais que me fez sentir a pior das criaturas, sem contar a vergonha, sem saber como encarar as pessoas, fiquei ali, naquele bar, por horas, remoendo... Mas uma coisa eu tinha certeza, não me esconderia nem fugiria do inevitável.
Então, à medida que os amigos peregrinos chegavam e me enchiam de carinho, compreensão, afeto, fui, aos poucos, percebendo que todos esses sentimentos estavam realmente somente dentro de mim.

Parêntesis 1: A gente passa tanto tempo na vida julgando com rigor as ações dos outros que não se dá conta que o que a gente mais condena são justamente onde estão nossos pontos fracos. Condenamos porque nos vemos na possibilidade de cometer os mesmos atos.

Quando a Cris e o Mauricio chegaram eu me joguei em seus braços e foi emocionante o reencontro. O modo como eles me receberam, o carinho com que cuidaram de mim... ultrapassa qualquer palavra que eu possa buscar, em qualquer idioma.
Dali, do bar, fomos ao albergue para cumprir as tarefas cotidianas, descansar um pouco e depois resolvemos ir à missa.
Foi a primeira vez que eu vi uma igreja cujo cemitério fica na entrada. Ou seja, para chegar até a igreja tem que atravessar por entre túmulos centenários, uma coisa meio mórbida. O Mauricio quando viu disse que não ia entrar... mas como eu não estava com espírito para brincadeira nem fiz onda com ele...
O Padre, ao final da cerimônia, veio cumprimentando um a um, todos os peregrinos que estavam na igreja (eu disse que peregrino é reconhecível em qualquer lugar! rs) e foi muito simpático conosco quando dissemos que éramos brasileiras.
Voltamos ao albergue e eu fui cuidar do meu pé. Estava horrível! Dava para ver o acúmulo de secreção por baixo da pele. Mesmo os antibióticos (oral e local) não estavam fazendo efeito. O Jorge (o da carona) havia dito que era necessário abrir, mas que teria que ser feito em hospital. Ou seja, eu tinha que dar um jeito de chegar até Santiago, nem que fosse voando na minha vassoura de bruxa.
No dia seguinte, eu e Micheline mandamos nossas mochilas de táxi até Sarria. Decidi que me pouparia ao máximo.

Parêntesis 2: Existem dois caminhos que levam a Sarria. Um passa pelo Monastério de Samos e é só trilha, sem nenhum povoado. Outro, apesar de ter mais subidas e descidas, passa por San Xil e Calvor. Optamos pelo segundo.

Fonte San Xil

O caminho é lindo, várias partes repletas de árvores centenárias, canto de pássaros... o ruim foi que tinha uns atoleiros e uma danada de uma catinga de “mierda de vaca” (eu tampava o nariz com um lenço e saía correndo, dentro do possível, para não fazer vômito).

Parêntesis 3: Acho que se tivesse que viver naquelas condições eu morreria! As pessoas moram no segundo andar das casas e o abrigo dos animais é embaixo... insuportável! Acho que eles nem sentem mais o cheiro!

Chegada a Sarria

Chegamos a Sarria. É uma cidade pequena, mas linda! Tem uma ruazinha para pedestres, chamada “Paseo dos Peregrinos” que fica às margens do Rio Sarria, com sua ilha, cachoeira artificial, cisnes, gansos... uma maravilha!
Isso sem contar com as pessoas nas suas melhores roupas, as mamães e suas filhinhas vestidas de bolo de casamento, os jovens paquerando...
Passamos por um restaurante e vimos as fotos dos pratos que eles serviam. Cada paella mais bonita que a outra. Fomos ao supermercado, fizemos nosso abastecimento para o dia seguinte, voltamos ao albergue, colocamos nossas melhores roupas (tentando disfarçar, claro!) e voltamos ao restaurante!
Comemos feito reis!
Voltando ao albergue encontramos a Angeles que convidou-nos a caminhar à noite. Era lua cheia. Tinha uma turma que ia fazer o percurso à luz da lua. O guia dizia que o trecho era úmido e escorregadio. Eu nem cogitei a hipótese, não poderia correr mais riscos. A Cris ficou muito tentada, mas como estava ainda meio gripada desistiu.
Ficamos sentados na porta do albergue conversando, quando um peregrino que não conhecíamos disse que seu amigo, que também estava no grupo, roncava muito... eu pensei que roncava como todos os outros... e, tentando não dar muito na vista, entabulei uma conversa perguntando de onde eles eram, qual o trecho que fariam no dia seguinte. Daí o cara, que de bobo só tinha a cara, virou para mim e perguntou se eu queria saber para não ficar no mesmo albergue que eles. A Cris quase desmaiou de vergonha quando respondi:
- Acertou em cheio! Estou fugindo de incômodos. Se vocês ficam, eu vou!
Ainda bem que ele levou na brincadeira, mas refizemos nossa programação para ficarmos bem longe deles.

Sarria - Albergue

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

RETOMANDO A SAGA - DE O CEBREIRO A TRIACASTELA

DOR, HUMILHAÇÃO, DERROTA


O Cebreiro - descida (e mais subias, descidas, subidas...)

De O Cebreiro até Triacastela, nossa próxima parada, seriam 20,5 km., uma caminhada considerada, pelo guia, fácil na sua maior parte, isso se descontarmos todas as subidas e descidas e a pior de todas: a descida do Cebreiro (toda descida é pior, exige muito mais esforço físico, atenção redobrada por conta das pedras soltas, e ainda ficar escolhendo onde pisar!), mas, por precaução, resolvi mandar minha mochila de carro, conseguir seguir adiante já era uma decisão difícil, carregar peso seria estupidez.
Saímos cedo... e começou o sobe e desce incontáveis vezes.
Ver no mapa é uma coisa. Percorrer é outra!
Meu pé começou a doer muito. Tentei disfarçar para não preocupar meus amigos, assim passamos por Limares, Alto de San Roque, mas a certa altura eu já mancava tanto que não dava mais para esconder meu tormento.
Quando chegamos a Hospital (também conhecido como Hospital La Condesa) eu sentei no meio fio do acostamento da estrada, desandei a chorar e disse que para mim não dava mais. Eu não tinha como continuar.
Ali, naquele chão, eu me senti a pior das criaturas. Era uma mistura de sentimentos: dor física, dor moral, humilhação, derrota.
Cristina, embora nervosa, tentou manter-me calma e disse que “Chavakiah” (seu anjo protetor) não nos abandonaria.
Nós estávamos na parte da Galícia em que o próprio guia diz: La Galicia más rural y desconocida surge ahora detrás de cada bosque... o junto a cada uma de las docenas de aldeas de piedras, sin apenas gente ni servicios... Ou seja não poderíamos esperar encontrar nada... mas a esperança é sempre a última que morre. E, mesmo humilhada e derrotada, na hora que eu mais precisava, Santiago não iria abandonar-me (esse pensamento me confortava um pouquinho).
Eu queria muito que a Cristina e o Mauricio decidissem por mim, talvez assim a derrota não fosse tão vergonhosa a meus olhos, mas eles, sabiamente, me fizeram ver que a ação tinha que partir de mim.
Então decidi pedir ajuda.
Cristina viu uma senhora passando e foi conversar com ela, que mostrou onde era a casa de sua filha que teria o telefone do motorista de táxi da cidade vizinha. Cris voltou até nós e disse que iria à casa indicada em busca do número de telefone.
Ficamos eu e Mauricio e eis que de repente, do nada, aparece um carro branco, tipo furgão, devagarzinho, vindo pela estrada. Pedi a Mauricio que fizesse sinal, ele se recusou, disse que eu teria que agir. Vocês não imaginam o quanto me custou levantar o braço e acenar para o carro, que parou...
Conversamos com o motorista e ele disse que me levaria até Triacastela.
Cris viu quando o carro parou e voltou correndo.
Daí não deu mais para segurar. Caí num pranto convulsivo.
Jorge, o motorista, era médico e fazia parte de um grupo de peregrinos ciclistas que se alternavam na direção do carro com os suprimentos e peças de bicicletas.
Ele foi o anjo que Santiago mandou-me. Falou-me que eu não tinha que envergonhar-me, que eu não estava falhando, que estava sim, aprendendo sobre limites, respeito ao corpo, que não era nenhuma humilhação, etc. e tal.
Ele foi fantástico. Levou-me até a porta do albergue, que fica afastado do pueblo, examinou meu pé, orientou que buscasse ajuda médica para fazer uma punção pois havia muita secreção interna... mas isso era impossível até chegarmos a Santiago.
Descansei um pouco, arrumei minhas coisas, peguei meus papéis (meu caderno eu tinha deixado para trás, então eu tinha umas folhas de caderneta, papel de embrulho, tudo que servisse para escrever) e fui para o barzinho que ficava na chegada da trilha para esperar Cris e Mauricio.
Foi lá que eu fiz as seguintes anotações:

Triacastela - Refúgio ou Albergue

“Foi uma das decisões mais difíceis do Caminho. Aceitar que minha vontade não é soberana, que acima de tudo há a vontade de Deus, avisando-nos quando é necessário parar. Ao subir no carro foi como parte de mim se rompesse, como se eu estivesse violentando todas as regras por mim mesma impostas. Foi como se, ao fazê-lo, eu deixasse de merecer o título de Peregrina. Como se isso me tornasse uma pessoa menos capaz que as outras, inferior. Senti-me ré e algoz. Eu, juíza da minha própria consciência, sentenciava-me: Culpada, culpada, culpada! Ainda não sei bem descrever esse sentimento, é uma confusão muito grande dentro de mim. Enquanto, racionalmente, eu sei que a decisão de preservar minha integridade física foi a mais acertada, a outra metade de mim não aceita eu ter rompido as regras. Gostaria de não me sentir assim...
No fundo eu sei que o aparecimento daquele carro, com uma pessoa tão maravilhosa como o Jorge, foi uma bênção de Deus, ainda mais que a Angeles me disse que era bem provável eu ter que esperar muito tempo até aparecer um carro de polícia ou algo parecido, porque naquela estrada quase não há movimento. Ele me consolou dizendo que temos que aprender a ler as lições que Deus nos passa e que era para eu não me sentir tão mal por estar fazendo aquele percurso de carro, era para eu “dar um tempo” e tentar “ler”.
Creio o que o que aconteceu foi para eu deixar de ser tão prepotente, achando que minha vontade é suficiente para as coisas acontecerem. Para eu parar de julgar as pessoas que, diante de alguma dificuldade, buscam ajuda em algum percurso, indo de carro, achando-as fracas. Cada qual sabe a dor que carrega.
Que Deus me ajude a compreender, aceitar e mudar.
Que eu aprenda essa lição.
Que esta dor (apenas mais uma do Caminho) sirva para eu me tornar uma pessoa melhor, mais compreensiva para com as outras pessoas e menos exigente para comigo mesma.
Foi difícil partir e deixar meus amigos para trás. Senti-me traidora, menor e este é um sentimento que dói tanto quanto a dor física.
Mais difícil será encará-los novamente, carregando essa vergonha imensa!

Alto de San Roque

Andar, andar,
Seguir sempre adiante.
Este é o lema.
Subir, subir,
Tentar encostar a mão nas nuvens.
Este é o sonho.
Descer até não mais poder
Este é o intento.
Superar os próprios limites.
Este é o desafio.
Parar,
Contra a vontade,
Violentando nosso querer,
Quando Deus assim determinar.
Se isso não é compreender o Caminho.
Pelo menos é tentar.

Triacastela – Espanha – 15/Junho/2000

domingo, 14 de dezembro de 2008

O CEBREIRO

APRENDENDO SOBRE LIMITES

Marco de subida O Cebreiro


Parêntesis 1: Este post vou começar no aqui e agora. No Caminho que percorro ao escrever essas memórias.
O Dauri (essapalavra) me perguntou qual era minha experiência espiritual de refazer o Caminho pelas palavras e eu me surpreendi com a pergunta porque não tinha parado para pensar sobre isso. Não havia pensado porque, depois de tanto tempo, de tantos pedidos, inclusive do Mauricio que eu amo de paixão, eu tenha esperado tanto para só agora ter resolvido escrever. É certo que, assim como rio nas partes engraçadas, às vezes uma lágrima furtiva vem de mansinho quando narro alguns momentos, como esse que estou para escrever agora... mas espiritualmente, sinceramente, não tinha pensado.
Então parei para refletir... por isso minha ausência... porque doeu... e ainda dói. Dói perceber que ao longo dos anos desperdicei muitas lições que aprendi no Caminho, dói a saudade daqueles que partiram para outro mundo como a Maria do Carmo e o Jose Miguel (pelo menos que eu tenha conhecimento), dói a saudade dos que partiram neste mesmo mundo e nunca mais vi, dói a distância do Mauricio, mais que amigo, irmão no mais verdadeiro sentido que essa palavra possa representar, dói, apesar de vivermos na mesma cidade, passar tanto tempo sem ver a Cris... são tantas as dores...
Mas nem tudo é dor. Hoje eu sou uma pessoa melhor, espiritualmente, me sinto mais próxima dos ensinamentos de Jesus e busco aplicá-los no meu dia a dia, e isso eu aprendi, em grande parte, naquelas trilhas.
Reviver esse percurso é relembrar o “Amai-vos uns aos outros” que Ele ensinou.
Isso eu acho que tenho feito!
Talvez no fundo eu esteja mesmo é me preparando para voltar... acho que é tempo de voltar, de ver tudo com outros olhos, viver novas experiências, aprender novas lições... mais uma vez me despir da “civilidade” e voltar a ser Peregrina. Quem sabe?

Trilha O Cebreiro

Pois bem, na noite anterior a Cris havia dito que queria sair cedinho (todos nós temíamos a subida d'O Cebreiro) mas eu não estava conseguindo dormir, era dor demais, então, pela manhãzinha, quando o cansaço falava mais alto, era que conseguia adormecer, às vezes de pura exaustão, então eu disse que não sairia cedo, que iria na hora que acordasse. Acho que o Mauricio disse que ia comigo por pura piedade, embora jamais ele tenha confessado isso.

Parêntesis 2: O Cebreiro é a porta da Galícia, ou “Las puertas del cielo” como diz o guia. È uma montanha de 1.300 m de altitude, que se sobre de uma só “tirada”!. O lugar é lindo, porém assustador. A gente não sabe o que vai encontrar pela frente, pois tudo vai depender do clima, pode ser um dia de neblina, onde não se vê nada, ou um dia de sol, onde se crê estar mesmo chegando mais perto de Deus. É uma trilha minúscula, serpenteando a montanha. Nós demos sorte, o dia estava magnífico.


Trilha serpenteada ficando para trás

A Cris se foi e eu e Mauricio fomos deixar minha mochila no ponto combinado para ser levada de carro. Já seria uma grande proeza conseguir chegar lá em cima, carregar a mochila seria estupidez da minha parte, uma vez que estava no limite das minhas forças.
É lindo! Muito verde, pastores pelo caminho, pequeninos povoados Ruitelán, Las Herrerías, La Faba e Laguna.
Fomos subindo devagar, fotografando o que ficava para trás.
Mauricio foi todo paciência. Seguiu no meu ritmo, sem reclamar, incentivando-me e acredito que forças maiores me acompanharam, pois consegui chegar até o pico, sem sofrer muito.

O Cebreiro - pueblo

O Cebreiro é lindo! São (ou eram) 12 casas de pedra, com floreiras nas janelas, um bar-restaurante, o albergue acolhedor e a Igreja pré-românica Santa Maria La Real, toda em pedras. O Cebreiro é considerado um dos pioneiros na existência de albergues para peregrinos e, como não poderia deixar de ser, também tem sua história de milagre.

Igreja Santa Maria La Real


Parêntesis 3: Conta-se que no ano de 1.300, um pastor que vivia em Barxamaior, apesar de uma grande tempestade, subiu a montanha para assistir à missa. Porém o sacerdote, vendo apenas uma pessoa na igreja, não se sentiu muito incentivado, e não se empenhou no ofício, momento em que a hóstia se converteu em carne e o vinho em sangue. O cálice do milagre, obra do século XII, encontra-se ainda na igrejinha. Contam também, que Isabel, a Católica, quando de regresso de sua peregrinação em 1488, resolveu levar o cálice para um lugar mais seguro, porém os cavalos se negaram a passar além de Pereje (lugarejo próximo). Tomando isso como sinal divino, o cálice, que eles chamam de Santo Graal, foi devolvido e está lá, para quem quiser ver.


Igreja Santa Maria La Real - Santo Graal

Ao chegarmos a Cris já havia pego minha mochila e fomos para o albergue. Fizemos nossas tarefas corriqueiras e depois saímos... cada qual pegou seu rumo. Eu resolvi ir para a igreja.
Logo ao entrar ouvem-se cantos gregorianos que tocam ininterruptamente. Creio que foi a igreja mais simples que visitei, mas a mais linda. Pequenina, pedras aparentes, bancos de madeira, apenas um crucifixo, uma janelinha de vidro onde entram raios de sol e um nicho, onde estão o cálice e outros elementos de ofício. Ali eu sentei e conversei com Deus.
Chorei muito. Sentia-me injustiçada ao ver tanta gente fazendo o caminho de farra e não acontecer nada e eu, que tinha verdadeiramente o propósito de me encontrar e assim tornar-me uma pessoa melhor, mais digna, passar por tanta dificuldade, tanta dor.
Quanto mais eu chorava mais calma eu ficava, era como se as lágrimas lavassem minha alma e levassem com elas meu sofrimento. Era como se Deus me respondesse lembrando-me de todas as vezes em que quis ter as rédeas da vida nas minhas mãos crendo que o poder estava no meu querer, desprezando aqueles que não seguiam adiante julgando-os fracos.
Deus estava me dando uma grande oportunidade para rever meus conceitos, preconceitos e posturas.

Igreja Santa Maria La Real - Crucifixo

Só sei que consegui me acalmar bastante, mas essa leitura eu só vim fazer tempos depois... como também a leitura de que Deus estava me ensinando sobre a diferença entre dor e sofrimento.
Que a dor a gente não pode evitar. A dor física, a dor de uma perda, as dores impostas pela vida. Mas o sofrimento é uma escolha. Sofrer é alimentar a dor. Eu vinha alimentando dores muito tempo... era hora de parar de sofrer...
Mas eu ainda teria que passar por um longo aprendizado.

O Cebreiro - entardecer visto do albergue