segunda-feira, 10 de setembro de 2012
REVISTAS, RECORTES, RECORDAÇÕES
Postado por Katia De Carli às 12:53 6 comentários
Marcadores: Livros e Leituras, Reflexões, Revistas, Viagens
quarta-feira, 30 de maio de 2012
DESCULPAS
Há tempos que estou ausente... não existem desculpas, mas existem justificativas.
Estive muito "para baixo" com as dores que me perseguem, devido à doença que tive... minha inspiração (se é que assim posso dizer) parece que resolveu se esconder!
Mas como já disse antes, entre desistir de viver por causa da dor e aprender a viver apesar da dor, escolhi VIVER! A dor é só um acessório que carrego comigo.
Porém me apresento para dizer-lhes que, com ou sem dor, estou partindo em viagem!
Minha primeira grande viagem depois da doença.
Entreguei para Deus!
E pé na tábua!
O México me aguarda!
Se der, postarei alguma coisa de lá!
Postado por Katia De Carli às 17:24 1 comentários
terça-feira, 26 de julho de 2011
Enfim, MANAUS!

- Lugares que não volto nem se me pagarem: Roma, Roma, Roma
- Lugares que precisamos conhecer mas não precisamos voltar: Veneza, Brasília, São Luis, Madri, Manaus.
Acho que todos que puderem devem conhecer Manaus e tudo que a cidade e entorno proporcionam.
Nós compramos os passeios e tours numa agência de viagem, antes de irmos. Besteira! Podem deixar para comprar lá que sai mais barato e ainda tem a vantagem de adaptar o passeio ao clima do dia.
Calor – é quente! Muito quente! E as pessoas ainda diziam que a temperatura estava amena porque era inverno (março).
Outra coisa interessante é a quantidade de camelôs. Nunca vi tanto! Nem na 25 de Março (SP). Só que eles são organizados, é tudo setorizado por produto! rs
Manaus não é só o que listei abaixo. Tem muita mais... é só sair passeando... a pé!
PONTOS TURÍSTICOS
- Teatro Amazonas

Construído na época do Ciclo da Borracha, em plena Floresta amazônica. Imperdível! Um dos teatros mais lindos que já visitei. À noite, à sua volta, tem umas ruas só para pedestres, com barzinhos, lojas, quiosques, etc.

Não deixe de experimentar o Tacacá da Gisela, o melhor de Manaus, que fica ao lado do Teatro.
-Praia da Ponta Negra
É o local onde há maior presença de jovens, lá é possível encontrar apresentações de dança e música. No calçadão é possível praticar diversos esportes.
- Porto de Manaus
Foi inaugurado em 1902, é uma das obras mais interessantes, pois oscila com a subida e descida das águas do Rio Negro.
- Prédio da Alfândega

Inaugurado em 1906 e utilizando matéria-prima da Inglaterra, foi um dos primeiros prédios a ser construído no Brasil com blocos em pedra.
- Bosque da Ciência ou Parque do INPA

Localizado na sede INPA, possui uma grande área rica em vegetação e animais da Amazônia.
- Centro de Artes Chaminé
No passado foi uma importante estação de tratamento de esgotos, responsável por toda a cidade. Hoje, representa um importante espaço para apresentações e exposições de arte.
- Palácio Rio Negro

Por muitos anos, foi sede do Governo Estadual. Atualmente é palco de exposições, shows musicais e teatro. Mas ainda acontecem reuniões oficiais do Governo.
- Centro Cultural dos Povos da Amazônia
Área destinada ao conhecimento, exposições, artes, peças teatrais, reuniões, festivais.
- Igreja de São Sebastião

Construída em 1888, faz parte da Praça São Sebastião e do Teatro Amazonas.
- Igreja Matriz Nossa Sra da Conceição
Foi a primeira igreja construída na cidade de Manaus, no ano de 1695, é a primeira igreja construída em Manaus. Em 1850 sofreu um incêndio e em 1878 teve finalmente sua conclusão. Possui 6 sinos de origem portuguesa.
- Mercado Municipal Adolfo Lisboa
Uma réplica do mercado em Paris "Les Halles". Principal porta de entrada na cidade da produção pesqueira e rural do estado. (em reforma)
- Centro Cultural Palacete Provincial

No local é possível encontrar o Museu de Numismática, Museu da Imagem e do Som do Amazonas, Pinacoteca do Estado, Museu de Arqueologia e Museu Tiradentes.
PASSEIOS
- ENCONTRO DAS ÁGUAS

Fenômeno natural provocado pelo encontro das águas dos rios Solimões e Negro. É aquilo que estudamos e vimos nos livros de geografia. Muito bonito. Além disso, no mesmo passeio, conhecemos parte da floresta Amazônica, Vitória-régia, e se derem sorte, como nós, poderão até ver alguns animais.
- CACHOEIRAS DE FIGUEIREDO

Presidente Figueiredo é um destino certo pra quem quer fazer um passeio turístico na região de Manaus. A cidade fica a cerca de 110km da capital amazonense. Conhecida como "A Terra das Cachoeiras". Opção de banhos, Rafting, etc. Mais importantes são a do Santuário, de Iracema e da Suframa, além do Parque Urubuí, no centro da cidade.
- HOTEL ARIAÚ
Está localizado a 60 quilômetros de Manaus, ao longo da margem direita do Rio Negro, no Parque Estadual do Rio Negro e no começo do Arquipélago das Anavilhanas. Suas instalações ficam suspensas, o que permite a observação de flora e fauna da região. O hotel oferece o exclusivo programa de terapia com botos (golfinhos de água doce), a chamada "Bototerapia". Você pode ir só visitar.
Postado por Katia De Carli às 12:53 4 comentários
segunda-feira, 2 de maio de 2011
VAMOS VIAJAR?
Postado por Katia De Carli às 20:53 5 comentários
quinta-feira, 24 de março de 2011
ABRAM ALAS!!!
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
PELO CAMINHO
Postado por Katia De Carli às 22:21 9 comentários
Marcadores: Amizade, Memórias, Peregrino, Poemas, Santiago de Compostela, Viagens
quinta-feira, 22 de julho de 2010
PALAS DE REI – MELIDE

Erro fatal!
Acordamos com uma voz esganiçada (linguajar mineiro da Cris) aos berros, xingando e gritando que já tinha passado da hora de peregrino estar na estrada. Levei um susto tão grande que passei a juntar coisas, escovar dentes, lavar rosto, tudo ao mesmo tempo. Era a hospitaleira, que de hospitaleira só tinha o nome. Colocou todo mundo para fora, não respeitou Orlando e Micheline, um casal já “mais experiente”, tampouco o grupo de excepcionais.
Resolvemos fazer o desdejum num bar bem em frente ao albergue... segundo erro em tão pouco tempo!
As torradas vieram da parte reservada do restaurante já lambrecadas com uma coisa que parecia geléia passada da validade, rançosa. Uma senhora velha, gorda e porca, que limpava as mãos e o rosto com o mesmo pano que limpava o balcão, nos serviu rindo e mostrando os dentes todos estragados, sem contar o cheiro... A soma de tudo revolveu meu estômago e eu e Mauricio saímos sem comer, mas pagamos. A Madre Cristina de Calcutá ficou e comeu, por pena da senhora... Nós comemos em outro lugar.
E pé na estrada!
Também já eram 9 horas, isso lá é hora de peregrino sair? rs
Apesar da hora tinha muita neblina. Para nossa surpresa caminhamos muito tempo por dentro de bosques, o que foi muito agradável, mas não impediu do meu pé logo dar sinal de vida (ou de morte!). Porque volta e meia, ou melhor, subida e descida, apareciam uns atoleiros danados e difíceis de ultrapassar. Aí vocês podem perguntar, mas porque a demente não foi pelas pedras? As pedras acabavam no meio maior do lamaçal.

Chegamos cedo a Melide e pra variar a primeira coisa que fomos ver foram os banheiros. Só um chuveiro tinha porta. Eu e Cris corremos para tomar banho antes que ficássemos abertas à visitação pública nos boxes sem nem uma cortininha... água escaldante! Deliciosa!!!
Cris foi descansar e eu fui lavar roupa, comprar comida, coisa básica!
Quando voltei a Cris disse que ia sair para almoçar, eu e Mauricio já havíamos comido e ficamos no albergue.
Daí um tempo chega a Cris revoltada e rosada, para não dizer roxa, dizendo que tinha visto um anúncio num restaurante de um arroz com frango, naquela altura estávamos loucos para comer arroz, daí ela pediu... veio salada de entrada e foi só o que ela conseguiu comer, o tal arroz estava intragável, e enquanto tentava comer “encheu os chifres de vinho rosé”.
Convidei a Cris para conhecermos a cidade, calçada com Havaianas é claro!
Fachada da Iglesia de la Virgen de las Nieves - Leboreiro (caminho)
Quando estávamos de volta ao albergue só ouvi a Cris conversando em portunhol com um desconhecido e dizendo: “A Kátia sabe. Ela sabe tudo”, fiquei curiosa e fui ver. Era o marido de Ângeles que havia conseguido uma folga e estava percorrendo o Caminho de bicicleta em busca da esposa. Peguei minhas anotações, vi a última vez que estivemos juntas, mais os cálculos de bruxa e disse: Pode pedalar até Arzúa que ela está lá.
E não é que estava mesmo!!!!
A gente evitava conversar sobre o dia seguinte. Nosso tempo estava se esvaindo. Santiago chegando... e ao mesmo tempo uma vontade louca de continuar no Caminho...
Nem fotos eu queria mais tirar... era como se começasse a abrir um rombo dentro do meu peito, neste rombo tinha medo, tristeza, lágrimas não vertidas, palavras não ditas, saudade antecipada.
A chegada, ao mesmo tempo que representava nossa vitória, representava também adeus, despedida... e é tão triste separarmos daqueles que aprendemos a amar.
No coração só a certeza que nunca mais era nunca mais mesmo.
Postado por Katia De Carli às 01:00 7 comentários
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quinta-feira, 8 de julho de 2010
SANTIAGO DE COMPOSTELA - O RETORNO
Saída de Portomarín
Nesse dia acordamos cedo. Queríamos evitar o sol forte da tarde, portanto levantamos por volta de cinco da manhã, tomamos nosso café, e antes das seis já estávamos com o pé na estrada. Mas parecia noite. Lua cheia, ainda alta no céu. Não dava para ver onde pisava. Entretanto, Deus, na sua generosidade, presenteou-nos com um belíssimo amanhecer. Parecia o despertar da Terra! Indescritível!
Bem, foi só o que consegui fotografar...
Depois de três dias caminhando sem mochila até que o início não foi tão penoso, mas, à medida que os quilômetros iam ficando para trás (foram 22 naquele dia) e o sol cozinhava nossos miolos foi ficando quase insuportável. Mas eu também não podia ficar repetindo, a toda hora, que estava sentindo dor.
Primeiro: Ninguém merece uma pessoa lamuriando-se o tempo todo.
Segundo: Reclamar não vai aliviar a dor.
Terceiro: Eu tinha outra escolha... então... era fé em Deus e pé na trilha!
Caminho Portomarín - Palas de Rei
Lembro-me de ter rezado muito naquele dia. Não por mim, porque como disse eu havia escolhido ir até o fim, mas rezei por aqueles que gostariam de estar no meu lugar (mesmo com as dores) e talvez nunca tivessem a chance, pelos meus amigos, pela dádiva de ter a família que tenho, pela minha mãe que se recuperava do primeiro câncer, pela humanidade, pela paz.
Rezar ajudava-me a ter força para seguir adiante.
Por volta de duas da tarde chegamos a Palas de Rei.
O Albergue é dividido em vários quartos, subdivididos em três repartições com quatro camas cada. Eu e Cris ficamos com Orlando e Micheline, Mauricio ficou na repartição ao lado, e também tinha uma família de espanhóis conosco.
Como eram só três homens, eles tiveram a cortesia de deixar as mulheres tomarem banho primeiro, uma vez que os chuveiros não tinham nem cortininha...
Parêntesis 1: Banheiros – eu deveria dedicar um capítulo inteiro aos banheiros (ou ausência de) durante o caminho. Tinha banheiro de todo tipo. Banheiros individuais, separados por sexo, unissex, com porta, sem porta, de todos as maneiras que vocês puderem imaginar. Para nós, brasileiros, acostumados à privacidade, era meio difícil, então quando eram vários chuveiros do tipo chuveiros de sauna, sem porta, homem e mulher junto, eu e Cris escolhíamos os últimos e colocávamos o Mauricio de prontidão para que ninguém passasse! (Pobre Mauricio!)
Amanhecer
Pois bem, depois do banho eu, que já estava péssima, fiquei pior ainda, pois descobri mais duas bolhas, sendo uma exatamente ao lado da que estava infeccionada. É claro que chorona como sou, abri a torneira. A Cris, penalizada, chorava comigo e rezava dizendo que eu não merecia tanto sofrimento. Minha vontade era dormir e não acordar nunca mais.
A Cris foi lavar todas as nossas roupas (o albergue tinha máquina de lavar) e Mauricio cuidou de drenar minhas bolhas.
Fiquei descansando. A Cris me contou que tinham dois jovens acompanhando um grupo de adolescentes com Síndrome de Dawn e que ficou emocionada e encantada com o carinho e a dedicação que eles tinham para com os meninos...
Saí apenas para comer, daí não ter fotos de Palas de Rei.
Como eu não agüentaria caminhar muito mesmo, combinamos que levantaríamos mais tarde, no dia seguinte e iríamos somente até Melide, uma caminhada de 15 km.
Postado por Katia De Carli às 17:17 8 comentários
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terça-feira, 1 de junho de 2010
ANIVERSÁRIO
Postado por Katia De Carli às 23:25 4 comentários
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terça-feira, 20 de abril de 2010
POR AÍ...

quinta-feira, 3 de setembro de 2009
PORQUE RIR AINDA É O MELHOR REMÉDIO...
Estação de trem, metrô, etc em BerlimEstávamos nós em plena Europa, eu, meu marido e nossos vizinhos.
Cabe um parêntesis para que vocês compreendam as reações que virão, eu e eles somos amigos desde que nascemos, freqüentamos as mesmas escolas, moramos na mesma rua (é certo que na nossa cidade só existiam três principais, rs), seguimos nossas vidas juntos e eu os considero como irmãos, daí termos a intimidade que muitos irmãos consangüíneos não têm.
Já havíamos viajado por quase um mês, passeado bastante, rido bastante (dos outros e de nós mesmos) e, principalmente, comprado um monte de tranqueira. Para vocês terem idéia eu tive coragem de comprar uma chaleira e um escorredor de macarrão, logo no início da viagem, na Alemanha, e carregá-los pela Itália e França afora, sem contar a volta pela Alemanha... só coisa de brasileiro doido, ou seja, euzinha! Mas enquanto ele me zoava por causa da chaleira, eu o lembrava que no fundo de sua mala tinha dois serrotes!
Ainda no Brasil nós havíamos conseguido comprar passagens aéreas Milão-Berlim a preço de banana. Como fizemos todo o percurso em terras estrangeiras de trem, este foi o único trecho que necessitamos de avião para cumprirmos o roteiro que nos propusemos.
Tudo uma maravilha. Até que chegamos ao aeroporto de Milão. Embora tenhamos usado de todos os artifícios (bolsas de mão enormes, homens com mochilas, etc.), o peso de nossa bagagem excedeu um absurdo e lá fomos nós, depois de muita negociação, pagar o excesso: saiu mais caro que as passagens! Levamos na esportiva e seguimos em frente.
Ficamos uns dias em Berlim e depois seguimos para Frankfurt, de trem. Eu e o Roberto tínhamos duas malas (pesadíssimas), duas mochilas, uma bolsa de mão e mais minha bolsa pessoal, tudo isso para colocar dentro do trem – uma peripécia e tirar depois – outra maior ainda! Resultado, quando, enfim, chegamos ao aeroporto, despachamos as bagagens, etc. e tal, o Roberto estava tão suado que era impossível viajar quase doze horas naquela situação. Bem à nossa frente tinha uma lojinha da Nike, então eu disse: - Vocês me esperam aqui, eu vou à loja, compro a camisa mais barata que encontrar, volto, o Roberto vai ao banheiro, se lava e troca de camisa. Lembrei de um desodorante que eu havia esquecido na bagagem de mão e daí ele aproveitava para usar e jogar fora, porque eles não estavam aliviando quanto ao embarque de líquidos.
Estava eu no interior da loja quando, ao virar-me, um homem alto, afro-descendente, esbarra em mim e, educadamente, diz: - Sorry!
Ao mesmo tempo meus dois neurônios se ligaram e mandaram a mensagem de que eu conhecia aquela pessoa. Então respondi: - Não foi nada, pode falar em português mesmo!
Nós então, entabulamos uma conversa:
- Brasileira! Que alegria! Está chegando ou partindo?
- Estou indo para o Brasil e você?
Ele olha para mim com aquele olhar de “conheço você de algum lugar, mas de onde?” e eu, que perco tudo, mas não perco a pose, também fingi lembrar-me de onde o conhecia. Então continuamos conversando como velhos amigos que se encontram.
- Estou indo para Milão, disse ele.
- Acabo de chegar de lá, disse eu.
- Está muito frio?
- Não, está agradável. Quando você vai ao Brasil?
- Assim que tiver uma folga...
Nesta altura já estávamos na fila do caixa e a moça se desdobrando em amabilidades para atender-nos.
- Sinto muita saudade do Brasil,
- É assim mesmo, quando estamos fora do nosso país. Mas a gente acaba se acostumando, digo eu.
Pagamos e ele resolve olhar uns bonés, então nos despedimos:
- Tchau, foi um prazer te ver – disse ele.
- Tchau, também adorei te reencontrar, a gente se vê por aí – respondo eu.
Encontro meu grupo e digo para eles, vamos ficar aqui, na moita, escondidos atrás desta pilastra porque vai sair um moreno alto da loja, que eu fiquei conversando um tempão, mas não consigo lembrar de onde eu conheço.
Assim fizemos. Estava meio dispersa quando, de repente, meu amigo me dá um safanão e pergunta:
E o meu amigo:
- É claro que você conhece, sua demente! Sabe de onde? Da televisão! É o Gilberto Silva, da Seleção!
domingo, 25 de janeiro de 2009
SARRIA – PORTOMARÍN
CHEGANDO AO MARCO 100 KM.
Caminho Sarria - Brea
Vocês lembram que o homem havia dito que seu amigo roncava? Brincadeira... roncava não... ele tinha era engolido uma britadeira que ficou ligada a noite toda, incomodando o albergue inteiro. Felizes os que resolveram caminhar à noite. Eu passei a noite praticamente em claro. Não havia silicone no ouvido que desse jeito. E o dito cujo estava bem na cama abaixo da do pobre do Mauricio. Lá pelas cinco e pouco da manhã, uma espanhola que não lembro o nome, levantou, acendeu a luz, começou a arrumar suas coisas e fazer barulho, daí houve quem reclamasse, ela retrucou dizendo que o sujeito havia incomodado todo mundo que reclamassem com ele, tudo isso aos berros... A maior baixaria!
Bom, não teve jeito, levantamos e preparamo-nos para seguir adiante.
Como Deus e Santiago não abandonam os seus, a Rosa – mãe de Angeles, estava com a perna machucada e iria de táxi até Portomarín e se ofereceu para levar minha mochila. Então foi um alívio saber que enfrentaria os 22 km. que me esperavam sem ter que levar peso.
Apesar de tudo foi uma boa caminhada. Muitos bosques, atoleiros, poucos povoados e muito, muito sol.

Atoleiro Brea - Portomarín
Fomos devagar, parando quando dava, ou quando eu cansava, e assim passamos por Barradelo, Rente, Brea.
Brea - Mauricio e Lua
Em Brea paramos num pequeno bar para comer alguma coisa e tinha uma cadela – “Lua” – que caiu de amores pelo Mauricio. Era a coisa mais linda, a gente sentada e ela buscava um bicho de pelúcia e ia até o Mauricio e ficava mexendo com ele até ele levantar e ir atrás dela fingindo que ia pegar o bichinho... Foram momentos agradabilíssimos e inesquecíveis. Uma alegria quase infantil. São momentos assim que me faziam esquecer as dores, as bolhas, infecção, antibiótico, o escambau!
Marco 100 km (tem gente mal educada em todo lugar)
Passamos pelo marco de 100 km. e deu um aperto no coração. Estávamos chegando ao final da nossa “epopéia”, mas ao mesmo tempo não queríamos chegar, pois chegar representava deixar de ser peregrino, assumir outra vez nossos papéis na sociedade, separar-nos.
Meu coração era uma total contradição e eu ainda não conseguia digerir o que estava acontecendo...
Portomarín
Chegamos a Portomarín com o sol a nos cozinhar os miolos. Depois da rotina de peregrino (lavar roupa, banho, arrumar mochila, etc.) fomos para um parque vizinho ao albergue. Deitamos na relva, à sombra de grandes árvores e ficamos ali, madornando e filosofando. Segundo lembranças da Cris, havíamos reunido tudo o que tínhamos para comer: 3 pêssegos, 2 Toddynhos, requeijão, torradas e 1 barra de cereal, dividimos irmanamente e fizemos nosso lanche. Mauricio estava com dores no pé e Cris fez uma massagem caprichada.
Saímos para conhecer a cidade.
Parêntesis 1: Portomarín é uma cidade recente. Embora antiga. Foi um importante povoado do Caminho no período medieval. O povoado original, formado por dois bairros, San Nicolás e San Pedro, ficava às margens do rio Miño e hoje jazem debaixo do grande lago, resultado da represa que construíram. O povoado que vemos hoje foi construído em 1960 para abrigar os antigos moradores. Porém nem tudo foi perdido. A grandiosa Igreja-fortaleza de San Nicolás, erguida pelos monges-cavalheiros da Ordem de San Juan de Jerusalén, no século XII, foi desmontada pedra a pedra (ainda hoje se pode ver a numeração na lateral de cada pedra) para ser reedificada na praça central do novo povoado, junto com o frontispício do antigo “Ayuntamiento” (prefeitura) e a fachada românica da Igreja de San Pedro.
Iglesia-Fortaleza de San Nicolás
O calor estava insuportável. Paramos num bar, tomamos uns refrigerantes e depois fomos jantar. Entupi-me de Torta de Santiago (um doce fantástico, e eu nem gosto de doce, que eles servem com uma bebida alcoólica por cima, delicioso!).
Detalhe das pedras numeradas
Combinamos de sair cedinho no dia seguinte para não termos que enfrentar o sol escaldante. E fomos dormir... ou melhor, pensamos que dormiríamos! Foi só a gente deitar que começou uma fuzarca no bar em frente, com gente rindo alto, falando alto, música alta. A Cris estava na cama de cima do beliche e havia deixado a janela aberta porque o calor estava insuportável, dava para ver a lua cheia, linda... Mas juro, nem a beleza da lua conseguia me acalmar. Nós já tínhamos passado uma noite em claro por causa da britadeira, agora passar outra noite sem dormir por conta daquele povo... Não sei qual vontade prevalecia dentro de mim, se era matar ou morrer.
No fim, acabei adormecendo, de exaustão.
Postado por Katia De Carli às 14:24 22 comentários
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
TRIACASTELA – SARRIA
Caminho San Xil - Calvor
Em Triacastela, remoendo meu complexo de inferioridade, minha culpa, minha dor e tudo o mais que me fez sentir a pior das criaturas, sem contar a vergonha, sem saber como encarar as pessoas, fiquei ali, naquele bar, por horas, remoendo... Mas uma coisa eu tinha certeza, não me esconderia nem fugiria do inevitável.
Então, à medida que os amigos peregrinos chegavam e me enchiam de carinho, compreensão, afeto, fui, aos poucos, percebendo que todos esses sentimentos estavam realmente somente dentro de mim.
Parêntesis 1: A gente passa tanto tempo na vida julgando com rigor as ações dos outros que não se dá conta que o que a gente mais condena são justamente onde estão nossos pontos fracos. Condenamos porque nos vemos na possibilidade de cometer os mesmos atos.
Quando a Cris e o Mauricio chegaram eu me joguei em seus braços e foi emocionante o reencontro. O modo como eles me receberam, o carinho com que cuidaram de mim... ultrapassa qualquer palavra que eu possa buscar, em qualquer idioma.
Dali, do bar, fomos ao albergue para cumprir as tarefas cotidianas, descansar um pouco e depois resolvemos ir à missa.
Foi a primeira vez que eu vi uma igreja cujo cemitério fica na entrada. Ou seja, para chegar até a igreja tem que atravessar por entre túmulos centenários, uma coisa meio mórbida. O Mauricio quando viu disse que não ia entrar... mas como eu não estava com espírito para brincadeira nem fiz onda com ele...
O Padre, ao final da cerimônia, veio cumprimentando um a um, todos os peregrinos que estavam na igreja (eu disse que peregrino é reconhecível em qualquer lugar! rs) e foi muito simpático conosco quando dissemos que éramos brasileiras.
Voltamos ao albergue e eu fui cuidar do meu pé. Estava horrível! Dava para ver o acúmulo de secreção por baixo da pele. Mesmo os antibióticos (oral e local) não estavam fazendo efeito. O Jorge (o da carona) havia dito que era necessário abrir, mas que teria que ser feito em hospital. Ou seja, eu tinha que dar um jeito de chegar até Santiago, nem que fosse voando na minha vassoura de bruxa.
No dia seguinte, eu e Micheline mandamos nossas mochilas de táxi até Sarria. Decidi que me pouparia ao máximo.
Parêntesis 2: Existem dois caminhos que levam a Sarria. Um passa pelo Monastério de Samos e é só trilha, sem nenhum povoado. Outro, apesar de ter mais subidas e descidas, passa por San Xil e Calvor. Optamos pelo segundo.
Fonte San Xil
Parêntesis 3: Acho que se tivesse que viver naquelas condições eu morreria! As pessoas moram no segundo andar das casas e o abrigo dos animais é embaixo... insuportável! Acho que eles nem sentem mais o cheiro!
Chegada a Sarria
Chegamos a Sarria. É uma cidade pequena, mas linda! Tem uma ruazinha para pedestres, chamada “Paseo dos Peregrinos” que fica às margens do Rio Sarria, com sua ilha, cachoeira artificial, cisnes, gansos... uma maravilha!
Isso sem contar com as pessoas nas suas melhores roupas, as mamães e suas filhinhas vestidas de bolo de casamento, os jovens paquerando...
Passamos por um restaurante e vimos as fotos dos pratos que eles serviam. Cada paella mais bonita que a outra. Fomos ao supermercado, fizemos nosso abastecimento para o dia seguinte, voltamos ao albergue, colocamos nossas melhores roupas (tentando disfarçar, claro!) e voltamos ao restaurante!
Comemos feito reis!
Voltando ao albergue encontramos a Angeles que convidou-nos a caminhar à noite. Era lua cheia. Tinha uma turma que ia fazer o percurso à luz da lua. O guia dizia que o trecho era úmido e escorregadio. Eu nem cogitei a hipótese, não poderia correr mais riscos. A Cris ficou muito tentada, mas como estava ainda meio gripada desistiu.
Ficamos sentados na porta do albergue conversando, quando um peregrino que não conhecíamos disse que seu amigo, que também estava no grupo, roncava muito... eu pensei que roncava como todos os outros... e, tentando não dar muito na vista, entabulei uma conversa perguntando de onde eles eram, qual o trecho que fariam no dia seguinte. Daí o cara, que de bobo só tinha a cara, virou para mim e perguntou se eu queria saber para não ficar no mesmo albergue que eles. A Cris quase desmaiou de vergonha quando respondi:
- Acertou em cheio! Estou fugindo de incômodos. Se vocês ficam, eu vou!
Ainda bem que ele levou na brincadeira, mas refizemos nossa programação para ficarmos bem longe deles.
Sarria - Albergue
Postado por Katia De Carli às 16:36 21 comentários
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
RETOMANDO A SAGA - DE O CEBREIRO A TRIACASTELA
O Cebreiro - descida (e mais subias, descidas, subidas...)
De O Cebreiro até Triacastela, nossa próxima parada, seriam 20,5 km., uma caminhada considerada, pelo guia, fácil na sua maior parte, isso se descontarmos todas as subidas e descidas e a pior de todas: a descida do Cebreiro (toda descida é pior, exige muito mais esforço físico, atenção redobrada por conta das pedras soltas, e ainda ficar escolhendo onde pisar!), mas, por precaução, resolvi mandar minha mochila de carro, conseguir seguir adiante já era uma decisão difícil, carregar peso seria estupidez.
Saímos cedo... e começou o sobe e desce incontáveis vezes.
Ver no mapa é uma coisa. Percorrer é outra!
Meu pé começou a doer muito. Tentei disfarçar para não preocupar meus amigos, assim passamos por Limares, Alto de San Roque, mas a certa altura eu já mancava tanto que não dava mais para esconder meu tormento.
Quando chegamos a Hospital (também conhecido como Hospital La Condesa) eu sentei no meio fio do acostamento da estrada, desandei a chorar e disse que para mim não dava mais. Eu não tinha como continuar.
Ali, naquele chão, eu me senti a pior das criaturas. Era uma mistura de sentimentos: dor física, dor moral, humilhação, derrota.
Cristina, embora nervosa, tentou manter-me calma e disse que “Chavakiah” (seu anjo protetor) não nos abandonaria.
Nós estávamos na parte da Galícia em que o próprio guia diz: La Galicia más rural y desconocida surge ahora detrás de cada bosque... o junto a cada uma de las docenas de aldeas de piedras, sin apenas gente ni servicios... Ou seja não poderíamos esperar encontrar nada... mas a esperança é sempre a última que morre. E, mesmo humilhada e derrotada, na hora que eu mais precisava, Santiago não iria abandonar-me (esse pensamento me confortava um pouquinho).
Eu queria muito que a Cristina e o Mauricio decidissem por mim, talvez assim a derrota não fosse tão vergonhosa a meus olhos, mas eles, sabiamente, me fizeram ver que a ação tinha que partir de mim.
Então decidi pedir ajuda.
Cristina viu uma senhora passando e foi conversar com ela, que mostrou onde era a casa de sua filha que teria o telefone do motorista de táxi da cidade vizinha. Cris voltou até nós e disse que iria à casa indicada em busca do número de telefone.
Ficamos eu e Mauricio e eis que de repente, do nada, aparece um carro branco, tipo furgão, devagarzinho, vindo pela estrada. Pedi a Mauricio que fizesse sinal, ele se recusou, disse que eu teria que agir. Vocês não imaginam o quanto me custou levantar o braço e acenar para o carro, que parou...
Conversamos com o motorista e ele disse que me levaria até Triacastela.
Cris viu quando o carro parou e voltou correndo.
Daí não deu mais para segurar. Caí num pranto convulsivo.
Jorge, o motorista, era médico e fazia parte de um grupo de peregrinos ciclistas que se alternavam na direção do carro com os suprimentos e peças de bicicletas.
Ele foi o anjo que Santiago mandou-me. Falou-me que eu não tinha que envergonhar-me, que eu não estava falhando, que estava sim, aprendendo sobre limites, respeito ao corpo, que não era nenhuma humilhação, etc. e tal.
Ele foi fantástico. Levou-me até a porta do albergue, que fica afastado do pueblo, examinou meu pé, orientou que buscasse ajuda médica para fazer uma punção pois havia muita secreção interna... mas isso era impossível até chegarmos a Santiago.
Descansei um pouco, arrumei minhas coisas, peguei meus papéis (meu caderno eu tinha deixado para trás, então eu tinha umas folhas de caderneta, papel de embrulho, tudo que servisse para escrever) e fui para o barzinho que ficava na chegada da trilha para esperar Cris e Mauricio.
Foi lá que eu fiz as seguintes anotações:
Triacastela - Refúgio ou Albergue
“Foi uma das decisões mais difíceis do Caminho. Aceitar que minha vontade não é soberana, que acima de tudo há a vontade de Deus, avisando-nos quando é necessário parar. Ao subir no carro foi como parte de mim se rompesse, como se eu estivesse violentando todas as regras por mim mesma impostas. Foi como se, ao fazê-lo, eu deixasse de merecer o título de Peregrina. Como se isso me tornasse uma pessoa menos capaz que as outras, inferior. Senti-me ré e algoz. Eu, juíza da minha própria consciência, sentenciava-me: Culpada, culpada, culpada! Ainda não sei bem descrever esse sentimento, é uma confusão muito grande dentro de mim. Enquanto, racionalmente, eu sei que a decisão de preservar minha integridade física foi a mais acertada, a outra metade de mim não aceita eu ter rompido as regras. Gostaria de não me sentir assim...
No fundo eu sei que o aparecimento daquele carro, com uma pessoa tão maravilhosa como o Jorge, foi uma bênção de Deus, ainda mais que a Angeles me disse que era bem provável eu ter que esperar muito tempo até aparecer um carro de polícia ou algo parecido, porque naquela estrada quase não há movimento. Ele me consolou dizendo que temos que aprender a ler as lições que Deus nos passa e que era para eu não me sentir tão mal por estar fazendo aquele percurso de carro, era para eu “dar um tempo” e tentar “ler”.
Creio o que o que aconteceu foi para eu deixar de ser tão prepotente, achando que minha vontade é suficiente para as coisas acontecerem. Para eu parar de julgar as pessoas que, diante de alguma dificuldade, buscam ajuda em algum percurso, indo de carro, achando-as fracas. Cada qual sabe a dor que carrega.
Que Deus me ajude a compreender, aceitar e mudar.
Que eu aprenda essa lição.
Que esta dor (apenas mais uma do Caminho) sirva para eu me tornar uma pessoa melhor, mais compreensiva para com as outras pessoas e menos exigente para comigo mesma.
Foi difícil partir e deixar meus amigos para trás. Senti-me traidora, menor e este é um sentimento que dói tanto quanto a dor física.
Mais difícil será encará-los novamente, carregando essa vergonha imensa!
Alto de San Roque
Andar, andar,
Seguir sempre adiante.
Este é o lema.
Subir, subir,
Tentar encostar a mão nas nuvens.
Este é o sonho.
Descer até não mais poder
Este é o intento.
Superar os próprios limites.
Este é o desafio.
Parar,
Contra a vontade,
Violentando nosso querer,
Quando Deus assim determinar.
Se isso não é compreender o Caminho.
Pelo menos é tentar.
Triacastela – Espanha – 15/Junho/2000
Postado por Katia De Carli às 11:17 23 comentários
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domingo, 14 de dezembro de 2008
O CEBREIRO

Parêntesis 1: Este post vou começar no aqui e agora. No Caminho que percorro ao escrever essas memórias.
O Dauri (essapalavra) me perguntou qual era minha experiência espiritual de refazer o Caminho pelas palavras e eu me surpreendi com a pergunta porque não tinha parado para pensar sobre isso. Não havia pensado porque, depois de tanto tempo, de tantos pedidos, inclusive do Mauricio que eu amo de paixão, eu tenha esperado tanto para só agora ter resolvido escrever. É certo que, assim como rio nas partes engraçadas, às vezes uma lágrima furtiva vem de mansinho quando narro alguns momentos, como esse que estou para escrever agora... mas espiritualmente, sinceramente, não tinha pensado.
Então parei para refletir... por isso minha ausência... porque doeu... e ainda dói. Dói perceber que ao longo dos anos desperdicei muitas lições que aprendi no Caminho, dói a saudade daqueles que partiram para outro mundo como a Maria do Carmo e o Jose Miguel (pelo menos que eu tenha conhecimento), dói a saudade dos que partiram neste mesmo mundo e nunca mais vi, dói a distância do Mauricio, mais que amigo, irmão no mais verdadeiro sentido que essa palavra possa representar, dói, apesar de vivermos na mesma cidade, passar tanto tempo sem ver a Cris... são tantas as dores...
Mas nem tudo é dor. Hoje eu sou uma pessoa melhor, espiritualmente, me sinto mais próxima dos ensinamentos de Jesus e busco aplicá-los no meu dia a dia, e isso eu aprendi, em grande parte, naquelas trilhas.
Reviver esse percurso é relembrar o “Amai-vos uns aos outros” que Ele ensinou.
Isso eu acho que tenho feito!
Talvez no fundo eu esteja mesmo é me preparando para voltar... acho que é tempo de voltar, de ver tudo com outros olhos, viver novas experiências, aprender novas lições... mais uma vez me despir da “civilidade” e voltar a ser Peregrina. Quem sabe?
Trilha O Cebreiro
Pois bem, na noite anterior a Cris havia dito que queria sair cedinho (todos nós temíamos a subida d'O Cebreiro) mas eu não estava conseguindo dormir, era dor demais, então, pela manhãzinha, quando o cansaço falava mais alto, era que conseguia adormecer, às vezes de pura exaustão, então eu disse que não sairia cedo, que iria na hora que acordasse. Acho que o Mauricio disse que ia comigo por pura piedade, embora jamais ele tenha confessado isso.
Parêntesis 2: O Cebreiro é a porta da Galícia, ou “Las puertas del cielo” como diz o guia. È uma montanha de 1.300 m de altitude, que se sobre de uma só “tirada”!. O lugar é lindo, porém assustador. A gente não sabe o que vai encontrar pela frente, pois tudo vai depender do clima, pode ser um dia de neblina, onde não se vê nada, ou um dia de sol, onde se crê estar mesmo chegando mais perto de Deus. É uma trilha minúscula, serpenteando a montanha. Nós demos sorte, o dia estava magnífico.
Trilha serpenteada ficando para trás
A Cris se foi e eu e Mauricio fomos deixar minha mochila no ponto combinado para ser levada de carro. Já seria uma grande proeza conseguir chegar lá em cima, carregar a mochila seria estupidez da minha parte, uma vez que estava no limite das minhas forças.
É lindo! Muito verde, pastores pelo caminho, pequeninos povoados Ruitelán, Las Herrerías, La Faba e Laguna.
Fomos subindo devagar, fotografando o que ficava para trás.
Mauricio foi todo paciência. Seguiu no meu ritmo, sem reclamar, incentivando-me e acredito que forças maiores me acompanharam, pois consegui chegar até o pico, sem sofrer muito.
O Cebreiro - pueblo
O Cebreiro é lindo! São (ou eram) 12 casas de pedra, com floreiras nas janelas, um bar-restaurante, o albergue acolhedor e a Igreja pré-românica Santa Maria La Real, toda em pedras. O Cebreiro é considerado um dos pioneiros na existência de albergues para peregrinos e, como não poderia deixar de ser, também tem sua história de milagre.
Igreja Santa Maria La Real
Parêntesis 3: Conta-se que no ano de 1.300, um pastor que vivia em Barxamaior, apesar de uma grande tempestade, subiu a montanha para assistir à missa. Porém o sacerdote, vendo apenas uma pessoa na igreja, não se sentiu muito incentivado, e não se empenhou no ofício, momento em que a hóstia se converteu em carne e o vinho em sangue. O cálice do milagre, obra do século XII, encontra-se ainda na igrejinha. Contam também, que Isabel, a Católica, quando de regresso de sua peregrinação em 1488, resolveu levar o cálice para um lugar mais seguro, porém os cavalos se negaram a passar além de Pereje (lugarejo próximo). Tomando isso como sinal divino, o cálice, que eles chamam de Santo Graal, foi devolvido e está lá, para quem quiser ver.
Igreja Santa Maria La Real - Santo Graal
Ao chegarmos a Cris já havia pego minha mochila e fomos para o albergue. Fizemos nossas tarefas corriqueiras e depois saímos... cada qual pegou seu rumo. Eu resolvi ir para a igreja.
Logo ao entrar ouvem-se cantos gregorianos que tocam ininterruptamente. Creio que foi a igreja mais simples que visitei, mas a mais linda. Pequenina, pedras aparentes, bancos de madeira, apenas um crucifixo, uma janelinha de vidro onde entram raios de sol e um nicho, onde estão o cálice e outros elementos de ofício. Ali eu sentei e conversei com Deus.
Chorei muito. Sentia-me injustiçada ao ver tanta gente fazendo o caminho de farra e não acontecer nada e eu, que tinha verdadeiramente o propósito de me encontrar e assim tornar-me uma pessoa melhor, mais digna, passar por tanta dificuldade, tanta dor.
Quanto mais eu chorava mais calma eu ficava, era como se as lágrimas lavassem minha alma e levassem com elas meu sofrimento. Era como se Deus me respondesse lembrando-me de todas as vezes em que quis ter as rédeas da vida nas minhas mãos crendo que o poder estava no meu querer, desprezando aqueles que não seguiam adiante julgando-os fracos.
Deus estava me dando uma grande oportunidade para rever meus conceitos, preconceitos e posturas.
Igreja Santa Maria La Real - Crucifixo
Só sei que consegui me acalmar bastante, mas essa leitura eu só vim fazer tempos depois... como também a leitura de que Deus estava me ensinando sobre a diferença entre dor e sofrimento.
Que a dor a gente não pode evitar. A dor física, a dor de uma perda, as dores impostas pela vida. Mas o sofrimento é uma escolha. Sofrer é alimentar a dor. Eu vinha alimentando dores muito tempo... era hora de parar de sofrer...
Mas eu ainda teria que passar por um longo aprendizado.
O Cebreiro - entardecer visto do albergue
Postado por Katia De Carli às 18:10 21 comentários
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