Mas antes disso, ontem eu fui à casa da Cristina. E conversa vai, conversa vem, a gente se lembrou de uma porção de coisas e pessoas que eu estou deixando fora da história (bem que ela tentou comentar no blog, mas não conseguiu... mas agora eu já orientei direitinho!), então, no capítulo de hoje vou resgatar isso. Mesmo porque ela me emprestou suas anotações, que servirão de grande ajuda para eu não me esquecer mais das pessoas nos lugares certos (rs).
1) As primeiras pessoas realmente legais nós encontramos ainda no Hotel Deville, em São Paulo, para onde fomos despachadas quando o vôo foi cancelado. É claro que chamávamos atenção, roupas idênticas, mochilas idem, sem mais bagagem, uma expectativa que transbordava por todos nossos poros... daí travamos conversa com dois casais, Sérgio Lopes e Lilia, de Porto Alegre, que acabamos descobrindo serem amigos do Sérgio Reis (não o cantor, mas o jornalista), autor de um livro lindo “O Caminho de Santiago”, que eu havia lido e tirado lições importantes, que disse que falaria de nós para ele e com quem mantive contato por anos depois, até perdê-los... o que foi uma pena... O outro casal, madrilenho, não me recordo o nome, mas disse que um dos filhos havia feito a peregrinação como forma de suportar e compreender a morte do irmão e que estaria orando por nós. O hotel, de primeira, quebrou um pouco o nosso medo antecipado e quando nos deparamos com aquelas camas imensas, lençóis impecáveis, fizemos que nem adolescentes, nos pusemos a pular sobre os colchões...
2) Havia esquecido como eu sou realmente cara de pau. Como nós chegamos cedo ao aeroporto (até compramos o bendito tucano da Mme Debrill), acabamos entrando muito cedo para a sala de embarque. Só que o vôo atrasou outra vez, aquele avião não caiu porque não era nossa hora mesmo! É claro que ficamos com fome. Fomos pedir para sair. O povo da Polícia Federal com aquelas caras sérias nem olharam para a gente, só responderam que não. Daí eu olhei bem para um deles, jovem, o rapaz, e saí com essa: “Se fosse a sua mãezinha, presa aqui dentro, com fome, você não ia deixá-la sair?” Ele não resistiu e com um sorriso deixou que saíssemos.
3) Rodoviária de Madri – Depois de comprar passagem para Pamplona. Cristina poliglota tenta falar pro cara da lanchonete que queria um misto-quente. Daí ela falava: um “bocadilho com queso, jamón, caliente” e tentava mostrar as camadas fazendo gesto. Daí o cara vira para trás e grita: “Sai um misto!”. Por pouco eu nem mais preciso de banheiro, de tanto que eu ri.

Mauricio tentando fazer-me equilibrar a mochila!
4) Todos os albergues têm um livro de registros-recados onde as pessoas escrevem suas mensagens e é muito legal você ler as palavras de incentivo quando você está para morrer de cansaço e descobrir que outros sentiram a mesma coisa e seguiram em frente. E também é uma forma dos que estão à frente se comunicar com aqueles que ficaram para trás. No livro de Trinidad lemos o registro do peregrino mais velho que passou por lá – 78 anos e do mais novo, 4 anos.
5) Puente La Reina foi o primeiro albergue que tinha “Treliche” – eu já morria só de pensar em dormir na parte de cima do beliche, imagina se ia dormir acima de duas pessoas. Juro que dormiria no chão. Ainda bem que chegamos cedo e ainda tinha vaga em baixo. À noite fomos jantar no Bar do Joaquim, mas chegamos antes de abrir o “comedor” daí ficamos tomando vinho (sim, eu bebi, confesso!) e comendo uns petiscos. Conhecemos a Helenice, de São Paulo, que depois viria ao Espírito Santo fazer conosco os Passos de Anchieta e, anos depois, já viúva, se casou com um companheiro que conhecemos no Caminho e hoje vive na Europa!, O Jairo se juntou a nós e a Fátima (cozinheira) – com esses nomes é claro que eram portugueses – fez para nós F E I J Ã O!!!! Foi uma festa. No final o Joaquim nem nos cobrou o vinho, disse que era presente pela nossa alegria.
6) Descartes do Caminho não contabilizados:
Roncesvalles
– A blusa que usei na viagem (que a Cris insistia que eu tinha que deixar limpa... nem viva!!!! Porque eu estava morta!)
- A bolsa de mão que usei na viagem,
- 1 calcinha (lavada!)
Trinidad de Arre:
- Pregadores de roupa
- Par de meias
Próximo capítulo, não percam, os Romanos atravessam meu caminho!















