terça-feira, 30 de setembro de 2008

A MENINA E SEU CÃO

RÉQUIEM PARA THUNDER


Desde pequena seu sonho era ter um cachorro.
A mãe dizia que não e elencava os motivos: cachorro não combina com apartamento, quem vai cuidar?, você ainda é muito pequena para tanta responsabilidade, e a minha alergia? etc... e prometia: quando mudarmos para a casa dos nossos sonhos você poderá ter seu cachorro!
Mas a casa e o sonho e o cachorro estavam tão longe!
O pai tentava aliviar a falta trazendo animaizinhos para “passear”. A menina teve pintinhos, periquitos, passarinho, peixe, patinho... até um porquinho da índia passou uns dias na casa da menina.
A casa passou do estágio do sonho e começou a transformar-se em realidade.
O cachorro também!
Era necessário escolher com todo cuidado.
Não poderia ser um cachorro qualquer. Tinha que ser especial. E especial não tinha nada a ver com raças e pedigree. Tinha a ver com empatia, alma, encanto.
Optou por um Husky Siberiano. Mas não poderia ser puro. Queria-o com os dois olhos azuis e descobriu que os puros não os tinham.
Um amigo do pai encontrou o cachorro, filhote de dois meses, em Belo Horizonte.
Despachou-o, depois de grande trabalho, de avião...
O pai no aeroporto a esperar o avião que nunca chegava!
Foram três longas horas... tudo esquecido ao ver o brilho do olhar da menina quando chegou em casa e encontrou seu cão pela primeira vez.
Já tinha nome: Thunder.
Mais desapropriado impossível. Pois nos primeiros meses acreditava-se que era mudo, ou surdo, ou as duas coisas, pois não emitia sons. Tinha medo de tudo e todos que não fossem aqueles restritos ao ambiente da casa.
A menina estava no céu.
Que importava se o cachorro não latia?
Que fosse medroso?
Era lindo, era dela e os dois se entendiam às mil maravilhas.
Com certeza foi ele quem ouviu seus segredos mais secretos. Foi com ele que chorou suas lágrimas mais sofridas. Foi ele quem a consolou, quem a acalentou, quem mais a amou.
Amor incondicional.
Sabia quando estava alegre e correspondia com seus pulos desajeitados.
Percebia sua tristeza e encostava de mansinho nas suas pernas...
Poderia dizer que era quase um ser humano, se ser humano fosse elogio!
Era, para a menina, seu companheiro, seu amigo.
A menina era para ele sua fonte de afeto, alegria, certeza de segurança.
Os anos passaram... quatorze ao todo.
O cão envelheceu e adoeceu.
A menina, agora mulher, entristeceu de dar dó.
Tudo fez. Na última semana, tendo viagem inadiável já agendada, pediu ao amigo:
- Não parta na minha ausência. Espera-me voltar...
Ele, num esforço sobrenatural superou duas convulsões na sua ausência.
Estava em pé quando ela chegou.
E brincou, e bateu com as patas no chão, e lambeu-lhe as mãos e beijou-lhe o rosto...
Depois partiu...


segunda-feira, 29 de setembro de 2008

RUMO A SAN JUAN DE ORTEGA


San Juan de Ortega


Parêntesis 1 – Como ainda não consegui fazer com que meu dia tenha mais que as 24 horas normais, preciso optar, ou atualizo o blog, ou visito-os... Desta vez vou atualizar... espero que compreendam, com diz meu querido amigo Anderson Meireles, “... Se estou "não-presente" aqui, não significa que estou ausente.”

Para variar não tínhamos comprado comida para o café da manhã. Tudo por conta do La Rioja da noite anterior. Pois bem, estávamos outra vez na mesma situação: domingo, tudo fechado, sem comida, com fome!
Quando levantamos vários peregrinos já tinham saído, pois era uma caminhada de 24 km, com muitas subidas...

Parêntesis 2 – Tinha um alemão, com perdão da má palavra, mas o homem era um “bundão”! Não se relacionava com ninguém, espaçoso e se não me falha a memória foi o mesmo que a Cris viu nu, então o adjetivo cabe em todos os aspectos (rs) e quando chegamos a Belorado demos de cara com ele, na mesma hora eu falei: Não mereço! Mas...

Pois bem, quando vimos que não tínhamos comida eu comecei a “garimpar” e descobri que o dito cujo havia deixado uma sacola amarrada à cama, com um pão daqueles bem grandes! Não pensamos duas vezes, pegamos um resto de requeijão da mochila do Mauricio, umas “mermeladas” que eu tinha e fizemos nosso desjejum pedindo a Deus para aquele alimento não nos matasse. Requeijão passado, geléia aberta fora da geladeira, pão impregnado sei lá de que energia... Mas aprendemos mais uma lição: às vezes a mão que nos alimenta é a mesma que nós rechaçamos. Sentimo-nos gratos, e envergonhados por termos alimentado tanta antipatia pelo alemão. Mas isso não o transformou em santo não, ele tinha mesmo um jeito muito esquisito...
Quando pegamos a trilha fazia muito frio. Ventava horrores.

Tosantos - Ermida de La Virgen de La Peña

Passamos por Tosantos. Da trilha se avista uma Igreja que foi construída no que parece ser uma gruta. Uma visão fascinante! Ermita de La Virgen de La Peña. Não sei como se chega até lá, mesmo porque parece ser longe.
Seguimos por Villambistia, Espinosa Del Camino até Villafranca Montes de Oca. Muita água, barro, ovelhas, fedor de “mierda de vaca”...
O frio doía na alma.

Tosantos - Ovelhas e cia

Meus pés já estavam em petição de miséria. Só tinha vontade de chorar... Sentamos à porta da igreja, quais pedintes, eu e Maurício, e eu fiquei a lamber minhas feridas. A boa alma da Cris saiu em busca de alguma coisa para comermos...

Villambistia

Preparamo-nos para enfrentar os Montes de Oca. São montanhas de pinheiros, algumas bem íngremes, que tornam a caminhada, para mim, que do quadril para baixo era só dor, um tanto difícil. Mas o lugar é lindíssimo.

Parêntesis 2 – Tinha um rapazinho, devia ter uns 20 anos, o Phillip, que sempre quando a gente estava saindo do albergue ele estava acordando... Quando nós menos esperávamos, no meio do Caminho, ele aparecia do nada e passava pela gente feito um furacão. Daí, toda vez que ele passava, nós começávamos a cantar o tema de Carruagens de Fogo, ele dava uma boa gargalhada e seguia. Era uma linguagem só nossa.

Villafranca Montes de Oca


Pois bem, íamos nós pelos Montes de Oca e, eis que de repente, eu avisto o Phillip recostado nuns sacos de feno. Faço sinal para a Cris ficar caladinha e chegamos de mansinho sem que ele percebesse. Quando estávamos a uns dois passos dele, começamos a cantar Carruagens de Fogo e saímos correndo, e rindo. Havíamos ganho uma!
Chegamos a San Juan de Ortega, que só tem a igreja, o albergue, a casa paroquial, um bar-restaurante, uma fonte e? Mais nada... Ah! Tinha o Padre José Maria, figura lendária do Caminho, que oferecia sopa aos peregrinos, mas que não conhecemos pois estava viajando, e que agora não vamos mais conhecer pois desencarnou.

San Juan de Ortega

O albergue é muito bom mas só tem água fria. Foi preciso tomar umas três “cañas” ou cerveja, sei lá, para enfrentar o gelo da água aliado ao gelo da temperatura.
A Cris negociou com o Maurício para ele levar sua mochila (o albergue fica num prédio) e ela lavaria algumas peças de roupa para ele.
Fomos para o poço, na verdade um grande tanque de pedra, retangular, fundo, em frente ao albergue, em plena rua, lavar as roupas. Com todo o meu jeito para esses serviços, deixei o sabonete cair dentro do tanque, tentamos pescá-lo com uma vara, ele espatifou em vários pedaços, a Cris me emprestou o dela, deixei cair também... uma loucura! Roupas lavadas, estendemos ali mesmo, em uns varais dispostos entre as árvores e tomamos mais umas cervejas para ver se a roupa secava mais rápido.
Eis que chegam Esperanza e Alonso. Alonso caminhando e Esperanza já de carro, alugado, pois não mais conseguia caminhar... Conversamos um pouco e eles seguiram adiante.
Quando a Cris chegou ao albergue, encontrou o Phillip andando com muita dificuldade... o tornozelo todo inchado! Aí encontramos a explicação por termos conseguido ultrapassá-lo. Ele estava machucado, e nós, egoístas, no afã de “aparecermos” não pensamos nesta hipótese. Com muito custo conseguimos nos comunicar e a Cris ofereceu-lhe uma massagem... cuidamos do pé dele direitinho, com direito a antiinflamatório, imobilização, recomendação de repouso e um pouco de alívio de nossas consciências.
Fomos jantar no restaurante – único – e eis que surge Sir Lancelot. Conversamos um pouco, naquela linguagem universal dos sinais e dos bêbados... descobri que ele se chama Anthony e trabalhava na BBC de Londres (lá se foi nossa teoria do espião – rs).
Como não sou acostumada a beber, o álcool subiu diretinho para a cabeça e eu fiquei rindo à toa.
O Lindinho (é esse o apelido do Mauricio, porque ele é mesmo uma pessoa linda!) ficou andando comigo para cima e para baixo, na trilha, até eu me sentir melhor e poder ir para o beliche sem ele ficar se movendo...

Dica: Neste restaurante eles servem uma comida que dizem ser típica, parecendo uma lingüiça, só que preta que nem chouriço... e é muito ruim o gosto. Portanto, por mais que insistam, declinem o convite para experimentar... o intestino agradece!

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

PORQUE MEU DIA NECESSITA DE 36 HORAS...


Por conta do acúmulo de compromissos assumidos, estou sem tempo para escrever... ao mesmo tempo, custa-me abandoná-los... Cheguei a um meio termo.

Vou deixá-los com a bela "Cantares", canção do espanhol Joan Manuel Serrat inspirada nos famosos versos de Antonio Cipriano Jose María Machardo y Ruiz, poeta modernista espanhol:

"Caminante, no hay camino, se hace camino al andar."

Monumento ao Peregrino - Estrada Viana-Logroño



Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre el mar.

Nunca perseguí la gloria,
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles,
ingrávidos y gentiles,
como pompas de jabón.

Me gusta verlos pintarse
de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
súbitamente y quebrarse...
Nunca perseguí la gloria.
Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

Caminante no hay camino
sino estelas en la mar...

Hace algún tiempo en ese lugar
donde hoy los bosques se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar:
"Caminante no hay camino,
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso...

Murió el poeta lejos del hogar.
Le cubre el polvo de un país vecino.
Al alejarse, le vieron llorar.
"Caminante no hay camino,
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso...

Cuando el jilguero no puede cantar.
Cuando el poeta es un peregrino,
cuando de nada nos sirve rezar.
"Caminante no hay camino,
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

PARA AGRADAR A TODOS: "A SAGA SEGUE SEU CAMINHO" OU "O CAMINHO SEGUE SUA SAGA"

APRENDER A COMPARTILHAR, COMO É DIFÍCIL

Marco da Divisa das Regiões La Rioja e Burgos


Não havíamos comprado muita coisa, daí tomamos o café no albergue, pão com um restinho de patê e um resto de suco que a Marie Jô havia deixado para trás. Marie Jô é uma canadense que viajava com a filha adolescente e com quem eu me comunicava só pelo olhar... uma coisa incrível! A gente se compreendia sem falar uma só palavra, mas naquele dia nós estávamos nos vendo pela primeira vez, eu percebi que ela ia embora, que deixava o suco para trás, e como não sou boba... passei a mão no suco. Pirão pouco o meu primeiro! Mesmo porque eu havia passado uma experiência não muito boa com comida e ainda não havia aprendido sobre compartilhar.

Parêntesis 1 – A Cris havia descoberto no supermercado um potinho, desses parecidos de iogurte, com arroz doce. Eu amo arroz doce! Então comprei um potinho, duas bananas e a inevitável barrinha de chocolate, que seria o meu lanche do dia. Paramos para lanchar, minha boca salivava de tanta vontade de comer o tal do arroz, nisso passa uma francesa, a Barbie, eu, por educação, convidei-a a lanchar, ela não só aceitou, como pegou o pote de arroz, que eu só tinha dado uma colherada, e comeu todinho... Eu fiquei para morrer ou para matar. Quando terminou, agradeceu, despediu e foi embora. Gente! Solidariedade nessas horas não dá certo! Que vontade de pegá-la pelos cabelos! Daí falei pra Cris, revoltada, que ela tinha comido meu arroz, que falta de educação... no que a Cris retrucou, no maior estilo Zen:
- Se não queria compartilhar, para quê ofereceu?
- Ora, por educação!
- Então nunca mais faça isso. Nunca faça nada por educação, faça o que seu coração realmente quer. Você poderia tê-la cumprimentado e só.
E não é que ela tinha razão. Mania besta essa de brasileiro de oferecer as coisas achando que o outro vai responder: Não, obrigado!
Aprendi a lição...

Parêntesis 2 – Eu sei o nome da Barbie mas vou resguardar por educação... Foi a Cris quem colocou esse apelido nela. E na maior cara de pau chamava a mulher de Barbie, na frente dela. Eu, boba que nem só, não compreendia direito, mas passei a chamar a mulher de Barbie também. Até que um dia virei para a Cris e perguntei:
- Cris, porque você chama a fulana de Barbie?
- Sabe aquelas bonecas magrinhas, branquinhas, de cabelo amarelo, que as meninas brincam, brincam, brincam, vão ficando sujinhas, o cabelos perde o brilho, ficam todas desgrenhadas? Sabe aquelas Barbies que as meninas jogam fora? Ela não é igualzinha?
Foi uma gargalhada que durou por muito tempo, toda vez que olhava para a mulher (e olha que nossos caminhos se cruzaram até o final) eu ria e disfarçava.

Pois bem, saímos de Santo Domingo de La Calzada, para uma caminhada considerada fácil, pois havíamos decidido ir só até Redecilla Del Camino, portanto seriam 10 km e meio... só não contávamos com as condições desfavoráveis do clima. Chuva e frio e vento, em quantidade!
Paramos em Grañon, num bar chamado “Cuatro Cantos”, para tomar um café e aquecer-nos um pouco. A dona do lugar, Maria Júlia, é uma fada ou bruxa (do bem). Além de servir a todos, massageou os pés de uma alemã que estava com câimbra, fez-me uma massagem nas mãos que acabou com o meu congestionamento nasal, fez uma massagem com palitinhos na mão do Mauricio cujo resultado não posso confessar, fez massagem na Cris... em suma, ela tinha um carinho especial, de toque, para cada peregrino, além de servir café, chocolate quente, chá, etc. Que vontade de ficar ali... Maria Júlia era amor em forma de gente!
Mas a estrada não sai do caminho, então quem tem que seguir é o peregrino...
Chegamos ao albergue de Redecilha Del Camino e estava tudo vazio. O livro de peregrinos sobre a mesa, com um recado dizendo para sentir-nos à vontade e que o bar abriria às 12 horas. Desfizemos, mais ou menos, nossas mochilas e fomos vistoriar a área... Moscas! Havia moscas para todo lado. Os peregrinos do dia anterior tinham deixado uma sujeira... até panela com resto de macarrão! Varremos e arrumamos tudo, mas decidimos seguir até Belorado, mais 12 km.
Deixávamos a região de La Rioja e ingressávamos em Burgos.

Vista de Belorado - chegada

Chegamos a Belorado e encontramos todos os nossos amigos... só haviam duas camas vagas. O Mauricio, como bom cavalheiro, dispôs-se a dormir no chão. Conhecemos mais três brasileiras, gaúchas, mas eu não lembro os nomes (por enquanto!).
Fomos à missa (nem quando eu era obrigada pela minha mãe, fui a tanta missa na minha vida!) e depois jantamos num pub muito legal, tomamos vinho “La Rioja” (um luxo!), comemos “hamburguesas com papas fritas e huevos”, quase um McDonalds!
Minha vida por um sanduíche de verdade!
Estava mais feliz que pinto no lixo!

Igreja de Santa Maria - Belorado (aquela portinha à direita é o Albergue)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

INTERLÚDIO - POR AMOR

Anoitecer - Praia da Costa - Vila Velha/ES

Foi amor ao primeiro instante, porque quando ocorreu a primeira vista já era amor.
Viveram intensamente e verdadeiramente o que de melhor este sentimento, aliado à paixão, ao desejo e todas outras necessidades que o amor impõe, pode proporcionar a duas pessoas.
Variantes fizeram com que o que era um só caminho, um só destino, se transformasse em dois caminhos...
O tempo foi passando, ele seguiu seu destino, ela ficou presa a este amor idealizado.
Em nome deste amor cometeu desatinos, ultrapassou limites, sofreu a dor dos abandonados, perdeu a pouca paz que tinha.
Buscou (sobre)viver.
O tempo passou. Ela insistia em viver das recordações, das sensações, da ausência, da falta.
Vivia uma vida pela metade, pois já não era inteira.
Quando, de anos em anos, ele aparecia, ela, em nome de uma amizade que julgava ser capaz de oferecer, separada deste amor que a corroía por dentro, acabava metendo os pés pelas mãos e sempre acabava em mais um abandono, mais uma separação.
Ela juntava seus cacos, seu desejo, sua fome de beijo... e tentava seguir adiante.
Um dia, quando já não havia esperança, já não havia angústia, aconteceu um encontro.
Poderia-se dizer um encontro banal, se banal pudesse ser aplicado a esses dois seres que tanto de amaram (ou se amam?!).
E eles conversaram noite adentro...
Trocaram experiências, falaram de suas vidas, suas perspectivas...
Pouco a pouco ela foi percebendo que ainda havia amor, mas era diferente. Já não existia fome de beijo, já não ansiava por suas mãos percorrendo-a cada íntimo hemisfério, nem sua boca nos seus seios... já não havia desejo.
Havia sublimado o amor carnal.
Quis deitar a cabeça sobre seu peito, como em outros tempos, mas para apenas sentir seu calor... como fazem dois seres que se amam, apenas pela proximidade, pela troca de energia.
Sabia que ainda era amor! Mas era diferente, ela estava diferente.
Então, num lampejo de lucidez, descobriu-se completa. Pela primeira vez bastava-se a si própria.
E livre.
Ainda o amava?
Sim!
Mas cabia ao destino fixar datas e limites...
Já não sofria.
Era inteira.
Era livre,
E se liberdade tem um sabor, para ela era de chocolate recheado com creme de menta.

domingo, 21 de setembro de 2008

PRÊMIO DARDOS - BLOGUEIROS DO MUNDO


Recebi o selo Prêmio Dardos da Vanuza Pantaleão.
Quero agradecer imensamente por ser lembrada desta forma e dizer que fico contente e honrada por ter por perto, neste mundo tão real que é a blogesfera, pessoas tão interessantes e especiais como ela.
O Prêmio Dardos significa o reconhecimento os valores que cada blogueiro mostra a cada dia, seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. Em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras
As regras são simples:
a) Aceitar e exibir a imagem do selo no seu blog.
b) Linkar a pessoa que lhe entregou o prêmio.
c) Escolher 5 blogs para entregar o mesmo prêmio.
Escolhi blogs com estilos e assuntos diferentes, mas todos com valores culturais e muita criatividade. Pessoas que escrevem e quando leio, falo para mim mesma, poderia estar falando de mim! Pessoas que admiro, acima de tudo. Assim, segue a minha listinha:
01. Tell Aragão - Por onde andei
02. Nadezhda - Where is my mind?
03. Jorge Elias Neto - O Estalo da Palavra
04. Ilaine Kunz - Baú de Espanto
05. Mariana - Meus casos, minhas neuras...
PS Sei que muita gente já recebeu o mesmo prêmio de outras pessoas. Os indicados que não quiserem passar para frente, fiquem à vontade!

Um grande beijo e amanhã a saga segue seu caminho( ou seria o caminho segue sua saga?...)

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

EM DIREÇÃO A SANTO DOMINGO DE LA CALZADA

Este post é dedicado a Marco Pingret
Catedral de Santo Domingo de La Calzada
O percurso que nos esperava era curto, pouco mais de 15 km, então decidimos dormir um pouquinho mais, afinal Peregrino também é gente! Apesar de às vezes não parecer...
Tomamos nosso café da manhã (desayuno) num restaurante – luxo para peregrino – na companhia de Orlando e Micheline, de quem, a cada dia, aproximávamos mais e mais. No restaurante conhecemos Isabel, uma enfermeira espanhola, que estava fazendo o Caminho por etapas. Como ela não tem tempo, ela junta suas folgas, procura acumulá-las e usufruí-las junto a algum feriado, e, a cada folga, ela percorre um trecho. Pessoa maravilhosa, de uma sabedoria incrível. Caminhamos juntos este trecho. Papo bom, ritmo também, e eis que nos surge, numa casa na estrada, um senhor, já idoso, que ao ver-nos correu a colher rosas vermelhas e ramos de hortelã para nos oferecer. Além da água fresquinha, o Sr. Gregório exalava amor e caridade pelos poros. São pessoas assim que fazem nossos caminhos valerem à pena, seja na Espanha ou aqui. Ele só estranhou um pouco quando comecei a comer as folhas de hortelã... mas estavam tão lindas! Não resisti!
Chegamos muito cedo, antes do almoço, e resolvemos ficar no albergue das Monjas (Irmãzinhas, como logo começamos a chamá-las).

Parêntesis 1 – Santo Domingo de La Calzada é uma cidade muito bonita e cheia de lendas e histórias. A Catedral da cidade está construída sobre o túmulo de Santo Domingo, em estilo gótico. Em seu interior se conserva um galinheiro com uma galinha e um galo, como recordação e veneração ao maior milagre de Santo Domingo. Diz a história que uma família de peregrinos da Alemanha parou para pernoitar na cidade. A criada da hospedaria se apaixonou instantaneamente pelo filho do casal, porém sem ser correspondida, escondeu uma taça de prata em seu casaco e denunciou o rapaz pelo roubo. O jovem foi preso, condenado e enforcado. Os pais, aflitos, continuaram sua peregrinação até Santiago, e, ao regressar encontraram o filho ainda vivo (Santiago fica a mais ou menos 580 km. de Santo Domingo), pois o Santo lhe sustentava o corpo pelos pés. Correram então até o Corregedor da cidade, porém este não acreditou e disse “Teu filho está tão vivo quanto esta galinha que estou comendo”. No exato momento em que disse isso, a galinha retornou ao seu corpo vivo e cantou, de modo a fazer o refrão: “Santo Domingo de La Calzada, onde cantou a galinha assada”. O Corregedor assustado mandou soltar o rapaz, que retornou com seus pais à Alemanha. Desde então, na Catedral, mantém-se um casal de galináceos e dizem ser de bom agouro se eles cantarem quando as pessoas estão no interior da Catedral.
Histórias do Caminho...

Havia festa na cidade e como bons brasileiros logo estávamos prontos para aproveitar a cidade e a festa, embora com os pés em brasa. Uma banda tocava ali pertinho e nós fomos assistir, vestidas de peregrinas (nem vestidinho de liganete tinha rolado!) e quando percebemos, as pessoas estavam vestidas nas suas roupas domingueiras, as crianças com seus vestidos de bolo de noiva, mesmo assim fomos muito bem recebidos por um casal que se aproximou de nós, conversou, se interessou em saber sobre nossa peregrinação.
A festa era a comemoração de aniversário (não sei quantos séculos) do primeiro Albergue de Peregrinos da cidade.
As Irmãzinhas serviam almoço e nós resolvemos comer no convento. Isa permanecia conosco, mas enquanto a Cris se banhava ela se despediu de mim e seguiu seu caminho, sem deixar nome, endereço, telefone... só a certeza de que foi mais uma alma iluminada que cruzou nossos caminhos. A Cris ficou muito triste, mas eu acho que, como ela se identificou muito com ela, não quis mesmo despedidas...
Mais tarde resolvi acompanhar a Cris e o Mauricio à missa. Eles foram comungar e eu fiquei quietinha. Quando eles voltaram e a Cris ajoelhou, não é que o galo começou a cantar? Juro que fiquei toda arrepiada...
A comida das Irmãzinhas era tão boa que neste dia até jantamos! E conhecemos outra pessoa iluminada: Marco Pingret! Sabe aquelas pessoas que você olha e sabe que vai amar pelo resto da vida... foi assim com o Marco. Ele conseguiu até uma foto com a Irmãzinha...

Parêntesis 2 – Tempos depois tive o privilégio de receber Marco e sua esposa em minha casa, junto com a Maria do Socorro e esposo e a Helenice. Tivemos o prazer de fazer “Os Passos de Anchieta” (caminhada realizada todos os anos no ES) juntos.
Deus coloca anjos nos nossos caminhos e muitas vezes, na correria do dia a dia, não damos conta. Daí perdemos uma grande oportunidade de evoluir, de melhorar, de aprender... Tanta coisa aprendi com Marco, com o modo como ele encara a vida e trata as pessoas como verdadeiros irmãos.
A gente não se fala muito, mas não precisa. Acho que isso é amor de verdade. A gente sabe. Só isso importa!
E só quem ama assim se lembra do amigo, no alto do Everest, e de lá traz uma pedrinha porque sabe que o outro tem pedrinhas dos lugares místicos do mundo. Foi esse presente que ganhei do Marco!

Apesar do Convento ser de Irmãzinhas, elas serviram um excelente vinho no jantar... Não sei o que tinha naquele vinho, mas dormi uma noite maravilhosa!