DOR, HUMILHAÇÃO, DERROTA
O Cebreiro - descida (e mais subias, descidas, subidas...)
De O Cebreiro até Triacastela, nossa próxima parada, seriam 20,5 km., uma caminhada considerada, pelo guia, fácil na sua maior parte, isso se descontarmos todas as subidas e descidas e a pior de todas: a descida do Cebreiro (toda descida é pior, exige muito mais esforço físico, atenção redobrada por conta das pedras soltas, e ainda ficar escolhendo onde pisar!), mas, por precaução, resolvi mandar minha mochila de carro, conseguir seguir adiante já era uma decisão difícil, carregar peso seria estupidez.
Saímos cedo... e começou o sobe e desce incontáveis vezes.
Ver no mapa é uma coisa. Percorrer é outra!
Meu pé começou a doer muito. Tentei disfarçar para não preocupar meus amigos, assim passamos por Limares, Alto de San Roque, mas a certa altura eu já mancava tanto que não dava mais para esconder meu tormento.
Quando chegamos a Hospital (também conhecido como Hospital La Condesa) eu sentei no meio fio do acostamento da estrada, desandei a chorar e disse que para mim não dava mais. Eu não tinha como continuar.
Ali, naquele chão, eu me senti a pior das criaturas. Era uma mistura de sentimentos: dor física, dor moral, humilhação, derrota.
Cristina, embora nervosa, tentou manter-me calma e disse que “Chavakiah” (seu anjo protetor) não nos abandonaria.
Nós estávamos na parte da Galícia em que o próprio guia diz: La Galicia más rural y desconocida surge ahora detrás de cada bosque... o junto a cada uma de las docenas de aldeas de piedras, sin apenas gente ni servicios... Ou seja não poderíamos esperar encontrar nada... mas a esperança é sempre a última que morre. E, mesmo humilhada e derrotada, na hora que eu mais precisava, Santiago não iria abandonar-me (esse pensamento me confortava um pouquinho).
Eu queria muito que a Cristina e o Mauricio decidissem por mim, talvez assim a derrota não fosse tão vergonhosa a meus olhos, mas eles, sabiamente, me fizeram ver que a ação tinha que partir de mim.
Então decidi pedir ajuda.
Cristina viu uma senhora passando e foi conversar com ela, que mostrou onde era a casa de sua filha que teria o telefone do motorista de táxi da cidade vizinha. Cris voltou até nós e disse que iria à casa indicada em busca do número de telefone.
Ficamos eu e Mauricio e eis que de repente, do nada, aparece um carro branco, tipo furgão, devagarzinho, vindo pela estrada. Pedi a Mauricio que fizesse sinal, ele se recusou, disse que eu teria que agir. Vocês não imaginam o quanto me custou levantar o braço e acenar para o carro, que parou...
Conversamos com o motorista e ele disse que me levaria até Triacastela.
Cris viu quando o carro parou e voltou correndo.
Daí não deu mais para segurar. Caí num pranto convulsivo.
Jorge, o motorista, era médico e fazia parte de um grupo de peregrinos ciclistas que se alternavam na direção do carro com os suprimentos e peças de bicicletas.
Ele foi o anjo que Santiago mandou-me. Falou-me que eu não tinha que envergonhar-me, que eu não estava falhando, que estava sim, aprendendo sobre limites, respeito ao corpo, que não era nenhuma humilhação, etc. e tal.
Ele foi fantástico. Levou-me até a porta do albergue, que fica afastado do pueblo, examinou meu pé, orientou que buscasse ajuda médica para fazer uma punção pois havia muita secreção interna... mas isso era impossível até chegarmos a Santiago.
Descansei um pouco, arrumei minhas coisas, peguei meus papéis (meu caderno eu tinha deixado para trás, então eu tinha umas folhas de caderneta, papel de embrulho, tudo que servisse para escrever) e fui para o barzinho que ficava na chegada da trilha para esperar Cris e Mauricio.
Foi lá que eu fiz as seguintes anotações:
Triacastela - Refúgio ou Albergue
“Foi uma das decisões mais difíceis do Caminho. Aceitar que minha vontade não é soberana, que acima de tudo há a vontade de Deus, avisando-nos quando é necessário parar. Ao subir no carro foi como parte de mim se rompesse, como se eu estivesse violentando todas as regras por mim mesma impostas. Foi como se, ao fazê-lo, eu deixasse de merecer o título de Peregrina. Como se isso me tornasse uma pessoa menos capaz que as outras, inferior. Senti-me ré e algoz. Eu, juíza da minha própria consciência, sentenciava-me: Culpada, culpada, culpada! Ainda não sei bem descrever esse sentimento, é uma confusão muito grande dentro de mim. Enquanto, racionalmente, eu sei que a decisão de preservar minha integridade física foi a mais acertada, a outra metade de mim não aceita eu ter rompido as regras. Gostaria de não me sentir assim...
No fundo eu sei que o aparecimento daquele carro, com uma pessoa tão maravilhosa como o Jorge, foi uma bênção de Deus, ainda mais que a Angeles me disse que era bem provável eu ter que esperar muito tempo até aparecer um carro de polícia ou algo parecido, porque naquela estrada quase não há movimento. Ele me consolou dizendo que temos que aprender a ler as lições que Deus nos passa e que era para eu não me sentir tão mal por estar fazendo aquele percurso de carro, era para eu “dar um tempo” e tentar “ler”.
Creio o que o que aconteceu foi para eu deixar de ser tão prepotente, achando que minha vontade é suficiente para as coisas acontecerem. Para eu parar de julgar as pessoas que, diante de alguma dificuldade, buscam ajuda em algum percurso, indo de carro, achando-as fracas. Cada qual sabe a dor que carrega.
Que Deus me ajude a compreender, aceitar e mudar.
Que eu aprenda essa lição.
Que esta dor (apenas mais uma do Caminho) sirva para eu me tornar uma pessoa melhor, mais compreensiva para com as outras pessoas e menos exigente para comigo mesma.
Foi difícil partir e deixar meus amigos para trás. Senti-me traidora, menor e este é um sentimento que dói tanto quanto a dor física.
Mais difícil será encará-los novamente, carregando essa vergonha imensa!
Alto de San Roque
Andar, andar,
Seguir sempre adiante.
Este é o lema.
Subir, subir,
Tentar encostar a mão nas nuvens.
Este é o sonho.
Descer até não mais poder
Este é o intento.
Superar os próprios limites.
Este é o desafio.
Parar,
Contra a vontade,
Violentando nosso querer,
Quando Deus assim determinar.
Se isso não é compreender o Caminho.
Pelo menos é tentar.
Triacastela – Espanha – 15/Junho/2000