quarta-feira, 14 de maio de 2014

PESSOAS QUE PERDI



Tem dias, como hoje, que sinto muita falta das pessoas que perdi.
Sinto falta daquelas que foram embora levadas pela morte. Essas ficam na parte rasgada do meu coração mas que não tem como suturar... existem fatos inevitáveis e a morte é um deles.
Porém sinto muita falta das pessoas que perdi para a vida.
Fico perguntando-me se poderia ter feito mais. 
Se poderia tê-las retido. 
Onde errei.
Não encontro respostas... 
Sei que não vale a pena correr atrás de pessoas que já não me querem, mas dói. Dói lembrar, dói saber que não volta, dói não reviver.

Sabe, posso ser ingênua, mas sinto muita saudade das pessoas que perdi...

quarta-feira, 26 de março de 2014

SOLITUDE, SOLIDÃO



Hoje acordei com desejo de solitude.
Não ouvir o barulho da obra em frente,
Não ouvir o rádio tocando música brega,
Nem o sujeito gritando “olha o gás”.
Não quero os sons produzidos pelo homo sapiens
Nem pelos seres do mundo animal.
Não quero palavra sussurrada,
Nem canto de pássaro,
Nem a mais linda balada.
Hoje queria ausência de mim,
Como se pudesse abandonar meu corpo na cama
E ir para um lugar qualquer, em outra dimensão
Um lugar onde não houvesse espaço
Para pensamento, saudade, cansaço.
E de lá observá-lo quieto, mudo, imóvel,
Como acho que devem ser os corpos mortos,
Sem dor...
Hoje queria mesmo era solidão.


(Kátia Corrêa De Carli)

sábado, 8 de março de 2014

PORQUE TODO DIA É DIA DA MULHER



MÃE – MULHER

As pessoas, invariavelmente, colocam as mães
Numa redoma, num pedestal,
Acima do bem e do mal.
Esquecem que sob o manto da santa
Bate o coração de mulher
Cheio de desejo,
Com sede de beijo,
Fome de amor.
A mulher se torna prisioneira
Das aparências, dos preconceitos, das convenções.
Quando ousa se libertar
Das amarras, dos grilhões,
É taxada de louca, insana, demente;
A sociedade a olha
Com os olhos de acusação,
A pergunta velada:
Como pôde?
Eu a invejo, mulher corajosa,
Banida, proscrita, desterrada.
Saciada.

Autoria: Kátia Corrêa De Carli

sábado, 1 de março de 2014

DE PASSADO E PRESENTE


Ela saiu cedo da casa paterna, aos 17 anos, contra a vontade do pai que achava que filha de pobre tinha que estudar para ser professora – profissão que ela amava, mas que não queria para si – casar-se com um rapaz na mesma cidadezinha do interior e criar seus filhos, tementes a Deus e corteses para com os mais velhos.
Mas a menina, que se julgava mulher, queria mais da vida.
Queria realizar sonhos que para o pai eram impossíveis.
Queria ganhar muito dinheiro, com trabalho honesto (ilusão!), queria ter seu próprio apartamento, quem sabe comprar o carro que o pai nunca teve... mas, sobretudo, queria viajar, conhecer o mundo, ir além da Capital.
O pai, na sua sabedoria de homem vivido e sofrido, dizia: Não sonha tão alto, a decepção pode ser maior. Mas a menina respondia, do alto de sua arrogância de julgar saber tudo da vida, que com ela não, ela venceria e ainda traria muito orgulho para ele.
Passou por muitas dificuldades, fome até; do cofre da irmã conseguia que escorregassem, através de uma faca de mesa, as moedas necessárias para o transporte do dia (a necessidade faz com se criem mecanismos que até Deus duvidaria).
Orgulhosa, não sabia pedir nada... nem dinheiro, nem ajuda, nem consolo.
Assim foi, e quando a luz da saudade insistia em iluminar seu coração ela logo tratava de apagá-la, pois não podia regressar, tinha uma meta: Vencer!
O tempo foi passando e a menina finalmente virou mulher.
Através da dor, do sofrimento, mas, sobretudo, através das alegrias, das conquistas, das amizades verdadeiras.
Dor é coisa passageira, aprendeu. Chora-se um pouco, ou muito, mas o tempo cura. Felicidade não, felicidade não passa, deixa um gosto saboroso de eterno presente, toda vez que vem à mente.
Parida e parideira a mulher se transformou.
Para melhor.
Conquistou os bens materiais, viajou, rodou o mundo, venceu...
Aprendeu a dar, mas mais importante, aprendeu a pedir.
Sentada no gramado do Epcot Center, chorou ao lembrar-se do pai.
Mas o pai não estava mais aqui para ver.

Daí, sua vitória ficou incompleta.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

CARTA AO MEU FILHO


Meu querido,

Eu sabia que a sua ausência ia doer fundo na minha alma, mas não sabia que a saudade vinha nas grandes e pequenas coisas.
Sinto muito a sua falta, fisicamente falando, seu quarto vazio é um túnel sem luz ao final, mas quando fica insuportável, não tenho vergonha de falar, deito na sua cama, cheiro suas roupas, choro e depois de um tempo, levanto-me, lavo o rosto, e volto a enfrentar a vida.
Porém existem coisas que eu só me dei conta quando perdi...
Ninguém mais pergunta, ao apagar das luzes, se quero um copo d’água.
Ninguém me oferece uma bolsa de gelo, só de olhar para meu rosto, com a finalidade de aliviar a dor de cabeça.
Ninguém mais chega à porta do meu quarto só para perguntar: - Mãe, tudo bem? Precisa de alguma coisa?
Mãe, vou sair, se quiser alguma coisa é só ligar...
Sabe, meu filho, com essas pequenas coisas a saudade só faz aumentar. Mas como sempre repetiram para mim, como um mantra, “você é forte”, estou tentando sê-lo e seguir adiante.
Com o tempo eu vou aprender que a distância é só um detalhe, que o mais importante é a consciência tranquila de que o homem que eu criei e eduquei está mais do que pronto para enfrentar o mundo de cabeça erguida, valores íntegros, caráter incorrompível.
Vou aprender que o mais importante é o amor imenso que carregamos no coração e que ninguém pode sequer tocar!
Mas tem uma coisa, meu amor, que está me matando... eu havia esquecido como é fazer compras em supermercado! Meu Deus! É tortura medieval... Obrigada por tê-lo feito para mim todo esse tempo. Isso é prova mais incontestável de amor verdadeiro! Não volto sozinha nunca mais...
Com todo meu amor e saudade,

Mamãe

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

DESPEDIDA

VOO
(Kátia Corrêa De Carli)

Ao meu filho Roberto

"Deixe em paz meu coração,
Que ele é um pote até aqui de mágoa”

Busco em dores já cantadas
Para ver se encontro como definir
Essa coisa nova que estou a sentir.
É orgulho misturado com tristeza
Satisfação bem batida com angústia
Certeza de dever cumprido costurado numa dor sem explicação,
É muito difícil descrever o que passa no meu coração.
 Chegou o momento da despedida

"Nada será como antes, amanhã..."

Nunca mais à distância de um chamado
Nunca mais ao alcance diário da minha mão.
Então, vocês que não conhecem essa dor,
Não tentem me consolar com definições
Ou fazendo comparações, dizendo que há dores maiores e irreversíveis.
Nestas horas de separação, só quero ocupar-me de mim mesma
Por isso me perdoem o egoísmo,
Só eu conheço o rombo da minha própria solidão
Que arde qual álcool em ferida aberta,
Que tira a paz do meu coração.

"A dor é minha, a dor é de quem tem"

Sei que é hora de se lançar,
Quanto a isso não me preocupo,
Há tempos te ensinei a voar.
Mas esqueci de me preparar para esse voo solo
Onde não há mais espaço para mim.
Como pude cometer tal desatino?
Esqueci que cada qual tem seu destino...
Vai menino querido, voa alto, voa grande,
Vá certo da vitória merecida
E deixe em cada coração que posou
Um pouco de amor espalhado,
Saudade só salpicada,
Certeza do espaço especial que ocupou.
Voa meu menino passarinho
É hora de deixar o ninho.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O FRUTO PROIBIDO NÃO É A MAÇÃ




Cresci numa época cheia de tabus.
Muitos até consegui superar e, depois de algum tempo, ria da ignorância que origina a maioria deles.
Os tabus alimentares, no entanto, ficaram gravados na minha memória... acho que de tanto ouvir minha mãe repeti-los:
- Depois que comer banana tem que tomar água! (para neutralizar o veneno  - não me perguntem qual veneno, ninguém sabe explicar!)
- Manga com leite é morte certa!
- Gripado? Nada de gelado!
- Chupar manga à noite pode provocar convulsão e matar dormindo!
- Não pode comer o miolo do abacaxi porque queima a boca!
- Comer doce antes do almoço faz mal!
Foram tantos que, volta e meia, lembro de algum, principalmente quando estou prestes a violá-lo.
Numa madrugada dessas, em que o sono insistia em não comparecer, fiquei passeando pela casa e eis que me deparo com uma fruteira cheia de manga.
Não dessas mangas que se compra em supermercado e feira. 
Manga de verdade, daquelas que tem cheiro de infância, de quintal de vizinho, de fruta roubada.
Mas eram quase duas horas da manhã!
Se chupasse manga àquela hora, segundo minha mãe, era morte na certa.
Mas o perfume que exalava daquela fruteira insistia em me acompanhar... então, pela primeira vez em mais de meio século, mandei a morte às favas, peguei a manga com as mãos - nada de facas, pratinhos, guardanapos - e chupei como fazia na minha infância: amassando aos pouquinhos, com muito cuidado para não "ferir" a casca, uma pequena mordida na parte superior para fazer a abertura e fui sorvendo aquele néctar, deixando que o suco que escapava escorresse pelos braços, até os cotovelos...
Lambuzei-me feito criança...
Como diz o dito popular "minha mãe deveria estar se revirando no túmulo" - isso se eu acreditasse que tudo termina no túmulo.
Terminei com a boca suja, mãos sujas, braços sujos... mas com a alma limpa e sorridente.
E não morri!