segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

RETOMANDO A SAGA - DE O CEBREIRO A TRIACASTELA

DOR, HUMILHAÇÃO, DERROTA


O Cebreiro - descida (e mais subias, descidas, subidas...)

De O Cebreiro até Triacastela, nossa próxima parada, seriam 20,5 km., uma caminhada considerada, pelo guia, fácil na sua maior parte, isso se descontarmos todas as subidas e descidas e a pior de todas: a descida do Cebreiro (toda descida é pior, exige muito mais esforço físico, atenção redobrada por conta das pedras soltas, e ainda ficar escolhendo onde pisar!), mas, por precaução, resolvi mandar minha mochila de carro, conseguir seguir adiante já era uma decisão difícil, carregar peso seria estupidez.
Saímos cedo... e começou o sobe e desce incontáveis vezes.
Ver no mapa é uma coisa. Percorrer é outra!
Meu pé começou a doer muito. Tentei disfarçar para não preocupar meus amigos, assim passamos por Limares, Alto de San Roque, mas a certa altura eu já mancava tanto que não dava mais para esconder meu tormento.
Quando chegamos a Hospital (também conhecido como Hospital La Condesa) eu sentei no meio fio do acostamento da estrada, desandei a chorar e disse que para mim não dava mais. Eu não tinha como continuar.
Ali, naquele chão, eu me senti a pior das criaturas. Era uma mistura de sentimentos: dor física, dor moral, humilhação, derrota.
Cristina, embora nervosa, tentou manter-me calma e disse que “Chavakiah” (seu anjo protetor) não nos abandonaria.
Nós estávamos na parte da Galícia em que o próprio guia diz: La Galicia más rural y desconocida surge ahora detrás de cada bosque... o junto a cada uma de las docenas de aldeas de piedras, sin apenas gente ni servicios... Ou seja não poderíamos esperar encontrar nada... mas a esperança é sempre a última que morre. E, mesmo humilhada e derrotada, na hora que eu mais precisava, Santiago não iria abandonar-me (esse pensamento me confortava um pouquinho).
Eu queria muito que a Cristina e o Mauricio decidissem por mim, talvez assim a derrota não fosse tão vergonhosa a meus olhos, mas eles, sabiamente, me fizeram ver que a ação tinha que partir de mim.
Então decidi pedir ajuda.
Cristina viu uma senhora passando e foi conversar com ela, que mostrou onde era a casa de sua filha que teria o telefone do motorista de táxi da cidade vizinha. Cris voltou até nós e disse que iria à casa indicada em busca do número de telefone.
Ficamos eu e Mauricio e eis que de repente, do nada, aparece um carro branco, tipo furgão, devagarzinho, vindo pela estrada. Pedi a Mauricio que fizesse sinal, ele se recusou, disse que eu teria que agir. Vocês não imaginam o quanto me custou levantar o braço e acenar para o carro, que parou...
Conversamos com o motorista e ele disse que me levaria até Triacastela.
Cris viu quando o carro parou e voltou correndo.
Daí não deu mais para segurar. Caí num pranto convulsivo.
Jorge, o motorista, era médico e fazia parte de um grupo de peregrinos ciclistas que se alternavam na direção do carro com os suprimentos e peças de bicicletas.
Ele foi o anjo que Santiago mandou-me. Falou-me que eu não tinha que envergonhar-me, que eu não estava falhando, que estava sim, aprendendo sobre limites, respeito ao corpo, que não era nenhuma humilhação, etc. e tal.
Ele foi fantástico. Levou-me até a porta do albergue, que fica afastado do pueblo, examinou meu pé, orientou que buscasse ajuda médica para fazer uma punção pois havia muita secreção interna... mas isso era impossível até chegarmos a Santiago.
Descansei um pouco, arrumei minhas coisas, peguei meus papéis (meu caderno eu tinha deixado para trás, então eu tinha umas folhas de caderneta, papel de embrulho, tudo que servisse para escrever) e fui para o barzinho que ficava na chegada da trilha para esperar Cris e Mauricio.
Foi lá que eu fiz as seguintes anotações:

Triacastela - Refúgio ou Albergue

“Foi uma das decisões mais difíceis do Caminho. Aceitar que minha vontade não é soberana, que acima de tudo há a vontade de Deus, avisando-nos quando é necessário parar. Ao subir no carro foi como parte de mim se rompesse, como se eu estivesse violentando todas as regras por mim mesma impostas. Foi como se, ao fazê-lo, eu deixasse de merecer o título de Peregrina. Como se isso me tornasse uma pessoa menos capaz que as outras, inferior. Senti-me ré e algoz. Eu, juíza da minha própria consciência, sentenciava-me: Culpada, culpada, culpada! Ainda não sei bem descrever esse sentimento, é uma confusão muito grande dentro de mim. Enquanto, racionalmente, eu sei que a decisão de preservar minha integridade física foi a mais acertada, a outra metade de mim não aceita eu ter rompido as regras. Gostaria de não me sentir assim...
No fundo eu sei que o aparecimento daquele carro, com uma pessoa tão maravilhosa como o Jorge, foi uma bênção de Deus, ainda mais que a Angeles me disse que era bem provável eu ter que esperar muito tempo até aparecer um carro de polícia ou algo parecido, porque naquela estrada quase não há movimento. Ele me consolou dizendo que temos que aprender a ler as lições que Deus nos passa e que era para eu não me sentir tão mal por estar fazendo aquele percurso de carro, era para eu “dar um tempo” e tentar “ler”.
Creio o que o que aconteceu foi para eu deixar de ser tão prepotente, achando que minha vontade é suficiente para as coisas acontecerem. Para eu parar de julgar as pessoas que, diante de alguma dificuldade, buscam ajuda em algum percurso, indo de carro, achando-as fracas. Cada qual sabe a dor que carrega.
Que Deus me ajude a compreender, aceitar e mudar.
Que eu aprenda essa lição.
Que esta dor (apenas mais uma do Caminho) sirva para eu me tornar uma pessoa melhor, mais compreensiva para com as outras pessoas e menos exigente para comigo mesma.
Foi difícil partir e deixar meus amigos para trás. Senti-me traidora, menor e este é um sentimento que dói tanto quanto a dor física.
Mais difícil será encará-los novamente, carregando essa vergonha imensa!

Alto de San Roque

Andar, andar,
Seguir sempre adiante.
Este é o lema.
Subir, subir,
Tentar encostar a mão nas nuvens.
Este é o sonho.
Descer até não mais poder
Este é o intento.
Superar os próprios limites.
Este é o desafio.
Parar,
Contra a vontade,
Violentando nosso querer,
Quando Deus assim determinar.
Se isso não é compreender o Caminho.
Pelo menos é tentar.

Triacastela – Espanha – 15/Junho/2000

23 comentários:

Dauri Batisti disse...

É. Não basta fazer o caminho, é preciso compreender o caminho. Ou, é preciso tentar. Na verdade o caminho de cada dia é o mais belo, porque o mais duro, mais seco pela rotina. Ma também belo, pelos que nos são próximos todos os dias.Vou fazer o caminho...

beijo.

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Kátia&Pedro Nava: certamente há diferenças entre os dois, mas e essa memória que nos toca? Que mexe com as profundezas do nosso ser? Onde vocês foram buscar essa "técnica"?
Os limites do corpo e da saúde dita física andaram me desafiando a pouco, minha amiga, pois sou presa fácil dos vírus da gripe desde a infância: amígdalas extraídas (ainda me recordo) aos quatro/cinco anos; febrões; tendas de oxigênio e médicos, pessoas de branco à minha volta ("ela está desenganada"); só de ontem pra hoje pude ter um sono digno até que a tosse me sacudisse pela manhã...sobrevivemos e por que? Para que? Ainda me vejo às voltas com tais questionamentos. Mas estou aqui vendo o teu sofrer e "os anjos" vindo em teu socorro, eles sempre virão, agora que te li, tenho certeza!
Quanto aos supérfluos, levo-os até no caixão, hahahaha, aliás, tenho que fazer um testamento sobre isso. Pôxa, se Frank Sinatra levou um litro de Whisky e cigarros (êta bebum!), porque vanuzinha de New Iguaçu não levaria suas quinquilharias? Os Faraós matavam viúva , soldados, tudo tinha que ir junto, você sabe...peraí, teríamos umas reencarnações dessas pelaí??? Fiquei encucada, risosss.
AMIGA, UMA ÓTIMA SEMANA! VOCÊ MERECE!!!
Milhões de abraçossssss
Gostaria de te comunicar que "O Cálice do Santo Graal vai para o meu bloguinho, tá? Lá em cima, na lateral, tô mudando umas coisinhas na casa virtual, posso??? Se você não concordar, retiro, tá? Na boa!!!
Te adoro, menina!

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Já que tô melhor e de boa maré vou lá no niver da Gabi. Se tiver uns cajuzinhos sobrando vou pegar também!Rs.Tô ficando muito folgada? Pode falar...não, não fale!Bjssss

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Risossss...Kátia, eu ouvi bem? Você falou em "trabalho aqui embaixo?" Mas nem pensarrrr e estou olhando agora umas pecinhas pedindo para serem passadas, sei não! Vão ter que esperar...
Valeu, Amiga, valeu mesmo!
Fique com Papai-do-Céu!!!Bjs

Mariana disse...

oie! estou de volta!!
bjão!

Cadinho RoCo disse...

Você precisava de passar pela experiência para aprender a decifrar os sinais de Deus e ser forte tal como é e não como tenta ser, posto que em sua força já há energia de sobra inclusive para colher em palavras o que em caminhada não iria leva-la a reflexão tão profunda.
Cadinho RoCo

Nadezhda disse...

Eu não fiz o caminho, e enm sei se cheguei perto dos meus limites, mas nesses últimos dias tenho aprendido alguams coisas. Não sei se aprender é a palavra correta, mas enxergava o que sempre esteve na minha frente.

;)

Beti Timm disse...

Minha amada amiga,

com teu relato, vou te conhecendo aos poucos e sentindo tua dor física e interior, posso te dizer, que não te tornaste uma pessoa melhor, nasceste maravilhosa, dona de um coração generoso. Ninguém passa a ser melhor, só aparamos nossas arestas, no decorrer da vida e tentamos,não nos perder pelo caminho.
Apenas não conhecias teus limites, como todos nós, os limites de coragem, afetivos, até mesmo os limites do amor. Só tua generosidade e nobreza, e que sempre desconhecerão os limites, mas isso quem está ao teu lado só tem a agradecer por se beneficiar deste teu coração imenso, que me abrigou com tanto carinho.

Te adoro, quero estar sempre contigo pra receber estes raios de luz, que emanas sempre.

Beijo enorme no teu coração, o que é bastante impossível devido ao tamanho dele!

Beti Timm disse...

Esqueci, parabéns pra tua filhota. ter uma mãe como vc é um previlégio divino!E ela deve ser tb adorável!

Beijos

Cecília disse...

Kátia, que relato... Dá pra sentir a dor física...
Você é uma pessoa maravilhosa, forte e sensivel...

Beijão

memoriasdeaquariana disse...

Obrigada, Kátia!!! Pelos comentarios, pelo carinho, por tudo.. Não ando tendo como comentar, mas assim qeu tdo se normalizar eu comento cada post lindo seu!!!
Bjos

loba disse...

Minha querida! Sabe que me emocionei com seu relato? Especialmente com suas anotações.
Realmente é muito dificil reconhecermos nossos limites. Mas vc fez belas descobertas com tudo que te aconteceu. Entre elas, que compreender o Caminho é mais importante que fazê-lo! E tentar é sempre preciso!
Fico feliz que esteja de volta, viu?
Um grande beijo!

paula barros disse...

Desde que leio os relatos da sua caminhada, vou tirando lições.

As vezes nos proposmo a algo, colocamos o objetivo lá na ponta e muitas vezes não percebemos o verdadeiro sentido das nossas caminhadas.

Talvez o maior aprendizado muitas vezes não é continuar ou chegar em determinado lugar a que nos propomos, é justamente saber parar, pedir ajuda, e por vezes até recuar, voltar atrás.

Essa é também uma grande lição.

abraços

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Kátia:
Vc é uma filósofa! Um objetivo, um recuo necessário, o que não é vergonha alguma, pelo contrário, é sabedoria.
Amiga:
Fiz um post digno do Galeria. Você pode ir aos outros Blogs depois, mas primeiro vá ao Galeria. Não vai arrepender-se.
Um beijo,
Renata

Zeca disse...

Kátia,
é emocionante o teu relato! Primeiro porquê a Caminhada é um sonho antigo que não priorizei e nao sei se um dia realizarei, mas tudo o que tem a ver com ela me toca e me emociona. Depois pela forma como vai tecendo o relato, colocando-se inteira, trazendo-nos para dentro da cena, fazendo-nos sentir até mesmo as dores e aflições.
Em tempo ainda: Feliz Aniversário pra tua Gabi!

Beijo. Carinho.

Lizzie disse...

Às vezes essas paradas são necessárias, amiga Kátia. Graças a Deus apareceu um carro e uma pessoa amiga e confiável.
Você soube aceitar os resígnios e mostrar o quanto é forte. Isso é ótimo.

Beijocas
www.lizziepohlmann.com

Ana Lúcia. disse...

Katinha. Amiga querida!
Como o "limite" nos limita, não?
Mas ficou belíssimo este relato que para nós é uma viagem que traz paz... traz a verdadeira versão da vida peregrina!
A emoção é latente, a visão tão cristalina que noite vira dia...
E compreender o caminho é aprender a desapegar a existência e respeitar a paz!!
Gostei, viajei, emocionei...
Deixo meus aplausos para tua belíssima persistência e pro teu coração desafiadoramente protegido!!
Beijãozinho e um tantão de carinho. Paz. Sorrisos. VIDA!!

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Passando pra te desejar um lindoooo final de semana e, ah, ia me esquecendo:
EU QUERO TE ACOMPANHAR NO BLOG, MAS TEM UM NEGÓCIO AQUI QUE NÃO DEIXA. TÁ DANDO ERRO, JÁ COMEÇO A ME SENTIR REJEITADA, HUMILHADA, DOLORIDA, CHATEADA, TUDO DE RUIM...vou embora, não tô legal!!!
Beijossss
(nada contigo, não! Fica fria!)

meus instantes e momentos disse...

gosto de te ler. Desculpe ser repetitivo, mas fazer o que ?
Se vc estivesse do meu lado eu te dava um abraço apertado,e diria , Oi eu sou o Maurizio! adoro te ler.
mas como vc está longe( fisicamente), tenho que ficar me repetindo.
Um feliz final de semana.
Maurizio

Pelos caminhos da vida. disse...

Prêmio lá no blog para vc.

beijooo

nora borges disse...

OLá Katia. Vim retribuiro Feliz Ano Novo. Um dia vou fazer o Caminho inteiro... bjos

ex-controlador de tráfego aéreo disse...

Oi Kátia!

Que maravilha de relato, dá para sentir a sua agonia perante a decisão. Mas, parece que você a entendeu bem; seja por você mesma ou pela ajuda dos anjos que vagam pelos caminhos de nossas vidas.

Parabéns por sua coragem.

Um beijo com carinho!!!

Sergio disse...

ola, Katia!

Incrivel, é como estivesse do seu lado...É, mas essas lições que foi para você lá, nos aparece no dia-a-dia, e sempre temos muito o que aprender.

um beijo