sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

CONTO DE FADAS ÀS AVESSAS


Não se pode dizer que Márcia era uma menina como todas as outras meninas que conviviam com ela, ela escondia segredos, muitos segredos, inconfessáveis segredos. Ninguém percebia, desde cedo ela aprendeu a arte da ocultação (o que muito lhe valeria vida afora).
Que era bonita ninguém podia negar...
Os anos foram passando e vieram os primeiros namorados.
Até que um dia ela conheceu Eduardo. Foi amor mesmo. Daqueles de cinema. A família dele aprovava a moça bonita, bem educada.
A dela não confessava, mas via naquele namoro a galinha dos ovos de ouro. Eduardo era tudo: alto, bonito, educado, rico... entenderam? Rico!!!
O namoro evoluiu para o noivado. Naquela época ainda se noivava. E tudo corria às mil maravilhas.
Mas quis o destino, em uma de suas voltas, que tudo acabasse: namoro, noivado, sonhos.
Márcia chorou por muito tempo. O namoro desfeito, o amor perdido, a cobrança familiar.
Pouco soube do Eduardo nos anos que vieram.
O tempo passou, ela conheceu Lucas, amou novamente (é claro que não foi o mesmo amor, mas era amor), casaram-se, tiveram filhos e seguiram adiante.
Juntos construíram uma família, um patrimônio material e imaterial. Porém Márcia agora também carregava dentro dela uma tristeza, junto com os segredos, mas ninguém enxergava. O casamento, com o tempo, foi ficando ruim. Não que ela não tentasse salvá-lo. Bem que tentou. Fez-se surda, muda, cega, variando a cada situação. Mas eram gritos demais, desamor demais, infidelidade demais e tudo que é demais um dia transborda. O casamento de Márcia transbordou.
Sobraram mais cobranças, mais responsabilidades, mais tristeza.
Até que Eduardo apareceu novamente. Na forma de uma possibilidade, na forma de um amor que poderia voltar a ser.
A princípio o medo, o frio na barriga, as horas ao telefone tentando colocar décadas de separação em dia. Márcia ficou sabendo dos casamentos dele (acho que sempre na tentativa de buscar uma Márcia que tinha ficado no passado). Eduardo ficou sabendo das tristezas dela.
Nenhum dos dois contou tudo... Ainda sobraram segredos como fantasmas a separá-los.
Depois de um tempo, muito tempo, voltaram a se encontrar pessoalmente... ainda era o mesmo amor!
Márcia guardou para si as coisas ruins: os gritos do ex, as armações da atual do ex, os problemas financeiros por causa do ex, os desencontros com os filhos. Deu-se na sua melhor parte.
Eduardo levou junto com ele as frustrações dos seus casamentos, os problemas empresariais, o whisky... Talvez por medo, não tenha levado o melhor de si.
Viveram um idílio... até que Eduardo, sem mais adeus, sumiu.
Fosse a primeira vez, ela até se desesperaria. Mas os dias viraram semanas, as semanas meses...
Márcia ficou péssima, tivesse dinheiro, disposição e menos problemas, faria um ano sabático na Índia ou no Tibete, mas como não tinha, fez uma semana sabática em seu quarto mesmo.
Mas como mulher de fibra como ela está para nascer outra, um belo dia acordou, tomou um demorado banho, se arrumou toda, colocou uma pedra de granito sobre o passado (porque era mulher fina!) e partiu para viver mais uma vida.
Fechada para o Eduardo, o Lucas, sua família sanguessuga, a atual do ex e suas armações, sem se importar demais com os problemas dos filhos.
Aberta só para a arte e para a vida.
(Mas por via das dúvidas guardou gravado no celular, dois ou três torpedos enviados por Eduardo para quando a saudade fosse um fardo difícil demais de carregar!)

(Imagem: medicinaintensiva.com.br)

3 comentários:

Dauri Batisti disse...

Esta decisão de viver a vida, que muitas vezes vem só depois de perder muita vida pelos dias afora, deveria ser uma decisão tomada a cada manhã. Será que aprenderemos um dia?

O avesso também pode ser direito.


Beijo.

Miguel S. G. Chammas disse...

Belo conto. Tudo nas exatas proporções. Um final prá lá de interessante, a vidca é isso mesmo, uma porção de recomeços em busca do unico fim,.
Gostei mesmo Katia.

Luciana disse...

Garçon, por favor, me veja 15 kg desse granito aí, pq estou precisando!


bjobjo