sexta-feira, 5 de março de 2010

SOMA DE DIAS

PORQUE É MEU ANIVERSÁRIO!

Houve um tempo em que eu adorava aniversário. Minha mãe ralhava (palavra antiga, né?) comigo dizendo que eu só sabia “inventar moda”, mesmo que essa “inventação” se resumisse a K-suco de guaraná e um bolo feito em casa mesmo.

Os anos foram passando e eu continuei gostando dessas comemorações. As melhores eram as promovidas pelos colegas de serviço, tudo na maior surdina para que fosse surpresa e que nunca ficava escondido... mas eu fazia cara que não sabia de nada para não estragar a festa.

Durante alguns anos eu estacionei minha idade na casa do 32. Era uma idade bonita e o medo de envelhecer havia me pego de jeito. Fiquei tanto tempo que meu sobrinho, que nem havia nascido quando eu realmente fiz 32, aprendeu a fazer contas e roubou minha carteira de identidade para descobrir a verdade, porque ele não conseguia entender porque a mãe dele, sendo só dois anos mais velha que eu, conseguia ser tão mais velha!

Depois eu comemorei, em grande estilo, os 39... porque 40 marca muito e todo mundo comemora! rs

Mas depois daí, na verdade, tive dois aniversários felizes. Um pela companhia e o outro, de meio século, porque consegui reunir amigas de todas as fases da minha vida.

Hoje já não vejo graça em festejar minha soma de dias... Os anos correm silenciosos, como se calçassem pantufas, rindo da gente em silêncio. Um belo dia nos assustam ao olharmo-nos no espelho, ou nos acertam em cheio a memória, ou os joelhos, ou o estômago e nos cravam um punhal nas costas. A velhice nos ataca, silenciosa, dia a dia. Mas há uma época em que ela é implacável. Creio que enfrento essa época.

Olho-me no espelho e não consigo reconhecer-me. Dói-me, ainda, o corpo. Meu último aniversário foi passado no hospital.

Muitos dirão: você está viva! Quer motivo melhor para comemorar? Têm razão, reconheço... mas me falta alegria, ânimo, vontade. A soma dos meus dias se acumula com a soma das minhas tristezas dos últimos tempos. É um fardo pesado demais. Pode ser que um dia eu me livre deste peso ou me acostume com ele e volte a gostar de “inventar moda”. Mas, por enquanto, ainda prefiro a solidão, o isolamento.

Os budistas dizem que a vida é um rio, que navegamos numa balsa para o destino final. - Sobre esse tema tem uma crônica linda do meu amigo no blog Desvendando Caminhos, onde a teoria dele sobre o rio da vida é muito melhor que a minha... mas voltemos ao assunto - O rio tem sua corrente, velocidade, redemoinhos, ora estreito, ora caudaloso, pedras e outros obstáculos que não podemos controlar, mas contamos com a ajuda de um remo (um só!) para dirigir a embarcação sobre a água e no rumo certo. Da nossa habilidade depende a qualidade da viagem, mas o curso não pode ser mudado, porque o rio desemboca sempre no mar da morte.

Embora eu ainda tente segurar o sol, deleitar-me com o luar, amar e ser amada, às vezes, em sonho, eu entrevejo esse mar...


12 comentários:

Gabi De Carli disse...

O mar está lá... o rio de alguns é mais curto... acho que todos temos sonhos com o mar de vez em quando.
Mas enquanto estiver firme na sua balsa, saiba que terão outros barquinhos a cruzar contigo. E eu sou feliz por estar em um deles.
Te amo e desejo que sua viagem dure mais um tempão!
Beijos

Jacinta Dantas disse...

Com tudo, por tudo e em tudo, Kátia, há Vida. Isso é que conta, penso.
Feliz aniversário

Dauri Batisti disse...

Se você foi capaz de escrever esta crônica tão bonita sobre o passar dos anos é porque você já voltou a inventar moda. Meus parabéns.

Um beijo

VANUZA PANTALEÃO disse...

Acabei de sair de uma crise de labirintite agora. Terminei o post onde converso com a minha cidade e caí na cama com a cabeça dando umas voltinhas, não é bem tonteira. Passou. Meu filho se desesperou, eu não. Não sou essa fortaleza toda, mas aprendi a não sofrer demais, só um bocadinho, rs.

Me desviei, Katinha, desculpe-me!
Coma um bolinho com seus amigos, mas evite o ki-suco - dizem que é cancerígeno -, troque-o por um suquinho de soja, você usa Ades? Yoki? (vou cabrar-lhes a propaganda). Enfim, coma seu bolo como se fora nas épocas de antanho (gostou?).
Dor é muito chato mesmo, mas vai passar e não tem nada a ver com idade. Não tenho nem reumatismo, nem dor de cabeça, nem nada. Tá, uma coisinha ou outra [risos].

Barca? Simbolismo egípcio da maior seriedade. Sonhei com ela duas vezes levando duas pessoas que faleceram a seguir. Sai dessa, menina!

FELIZ ANIVERSÁRIO!!!
VOCÊ É FELIZ, SIM...E NÃO SABE!!!
TE ADORO!!!
SINTA O SOL, SINTA A CHUVA, SINTA TUDO E AGRADEÇA A DEUS!!!Bjsss

VANUZA PANTALEÃO disse...

Mais que vestígio, sempre acabo deixando um borrão. Meio exagerada, sangue italiano, umas coisas assim...
Enfim, Dia Internacional da Mulher. Questiono essas datas, mas acabo entrando na dança. É bom dançar pra não dançar...
Tamos aí, Katinha!
Já não é dia, é noite. Daí, uma beleza de noite I. da Mulher!

Mudando de assunto: essa foto tá uma loucura de tão linda!!!

Ano que vem, repetimos a dose. Sou mesmo insuportável, né? Com moderação eu não teria a mínima chance [risos].
Fui engraçada? Sei não...
Melhor ir saindo...

*Tua Rosa agora é lilás, a branca ficou com as criancinhas do Haiti. Chama violeta...

Gabriel Araujo disse...

"Os anos correm silenciosos, como se calçassem pantufas, rindo da gente em silêncio"

Muito bom isso! feliz aniversário

Gabriel Araujo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gabriel Araujo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
VANUZA PANTALEÃO disse...

E vamos festejando, amiga!
Mesmo com dor,
Mesmo num rio de lágrimas,
Não importa!
Haverá sempre o que festejar...
Beijos, doce amiga!!!

Barbara disse...

Tal mar não sairá do lugar.
Mas se você exerce a coragem de expressar-se , é porque há sim um remo forte a te ajudar.
Não pense que não sei do que escreves.
Tenho doença crônica e perigosa e vivo graças aos deuses e à química dos remédios.
Joelho sim, pernas sim, coluna vertebral sim, desânimo ocasional sim , consciência de que o caminho para o mar talvez seja curto sim mas SE HÁ ENCANTAMENTO NA EXPRESSÃO É PORQUE HÁ UM VALOR INTERNO e por este, talvez o rio desvie.
Perdoa, mas que tal um tratamento alternativo , floral, homeopatia, chá de artemísia ou de alecrim, canela, que tal? Que tal um cursinho de alguma coisa? Que tal uma descoberta qualquer? Há barco mas o remo é visível sim, portanto...seja coerente com seu valor, apenas. E creia que se o escrevo a você é porque também necessito ouvir a mesma coisa.

betomelodia disse...

olá, kátia...
sentimos o viver da mesma maneira...
controlo minha vida com apenas um remo tentando chegar ao meu destino sem ferir ou ser ferido por meus atos...
vamos ver o resultado...

beijos em seu coração...

Ilaine disse...

Querida Kátia!

Estou atrasada, mas mesmo assim quero lhe abarçar para seu aniversário.
Os anos passam, é verdade.Mas cada idade é bonita e a soma dos dias é a tua história, a que inventas e constroes. Invente moda, Kátia. E você será feliz. Seja uma grande inventadora.

"Cada pessoa deve decretar quando está na flor da idade".

Um carinho de mim e... de Quintana.