domingo, 12 de outubro de 2008

CASTROJERIZ A FRÓMISTA

SERIAM MAIS 24,9 KM. OU MENOS?

Amanhecer em Castrojeriz


Ouvia uma música ao longe, sons celestiais (apesar de não me lembrar de ter estado no céu!)... fiquei naquele estado: será que estou dormindo, será que estou acordada, estarei sonhando?
Aos poucos o som foi aumentando... eram cantos gregorianos! Um presente do Resti para despertar os peregrinos.
Era o prenúncio que o dia seria de intensas emoções...
Havia, no andar superior, uma enorme mesa de café, com pão, leite, frutas, tudo ofertado pela comunidade, num trabalho incansável do nosso hospitaleiro, com sua cara de mau, mas com um coração maior que seu grande corpo. Logo encontrei, à mesa, Valentim, o Hippie. Preocupada perguntei onde tinha passado a noite com sua cadela e ele me respondeu que depois do toque de recolher, Resti o havia introduzido no albergue, arrumado comida para os dois, e lugar para dormir.
Mas como nem só de boas notícias começou meu dia, ao preparar-me notei que a fivela da minha mochila havia quebrado. Logo a da frente, a que prende na altura dos quadris e que faz segurar o peso. Não tinha como trocar. Improvisei uns nós e entreguei para Santiago!
Despedimo-nos, gratas pela noite, pela acolhida, pela comida e retomamos a estrada.
Era cedo, nem tanto, mas naquela época do ano o dia demora a clarear...
Estava sentindo-me bem, a Cris, idem... íamos cantando, felizes, nisto um senhor aproxima-se e fala num português com sotaque que havia ganho o dia, pois há tempos não ouvia música brasileira, que ele gostava tanto. Era Neil, sueco, presidente de uma multinacional que tinha vivido por muitos anos em São Paulo.

Parêntesis 1: Neil já tinha feito o Caminho certa vez, porém só os cento e poucos quilômetros finais que dão direito a receber a Compostelana (certidão, em latim, nos mesmos moldes dos primórdios da peregrinação, que diz ser você realmente um peregrino), mas que, depois, sentiu-se muito mal, como que estivesse traindo o caminho, por não havê-lo feito completo. Então, agora, estava, nas suas palavras, se redimindo.

Puente Fitero - Ponte que une (ou separa, depende do ponto de vista) as regiões de Burgos e Palencia

A trilha não era das mais difíceis, mas antes de Itero de La Vega, divisa das regiões de Burgos e Palencia, tem uma subida daquelas... a descida? Pior! Pedras soltas, exige muita atenção e esforço dobrado dos joelhos.
Quando estávamos chegando em Boadilla del Camino uma senhora passou por nós, de carro, distribuindo um folheto sobre um albergue (com bar) particular que estava sendo inaugurado, resolvemos ir até lá conhecer...
Não constava do nosso guia... Muito bonito, parecia casa de conto de fadas com as camas lado a lado (nem era beliche!), tudo novo e limpo. Estávamos visitando, na maior calma, quando lembrei que tínhamos que chegar cedo em Frómista, se quiséssemos pegar o Correio aberto.
Despedimo-nos do Neil e “rachamos trecho”, sem nos preocuparmos em fazer o devido aquecimento e alongamento...


Boadilla del Camino - Rollo Jurisdiccional do Século XV, simboiliza o poder jurídico e servia para prender os réus

Eram “só” 6 quilômetros... Logo no começo a Cris começou a sentir o joelho.
Eu estava que era um gás só! Nem as bolhas me impediriam de alcançar o Correio naquele dia, estava determinada. Quando a Cris viu que não dava para ela disse:
- Vá! Tente mantê-lo aberto até minha chegada.
Não pensei duas vezes. Naquele dia eu voei... nunca andei tão rápido. Para mim era uma questão de vida ou morte. Nem pude apreciar as eclusas tão lindas que tem na chegada, fotografei meio “mais ou menos” e pernas para que te quero!
Cheguei, esbaforida, roxa de sol, cansaço, suor, calor e vem um velhinho, na maior gentileza, e me oferece um copo de água. Quase pulei no seu pescoço para beijar-lhe as bochechas.
Expliquei-lhe nossa situação, faltavam 2 minutos para fechar, mas Señor Juan Jose, Juanjo para as amigas brasileiras, disse que não se importava de esperar um “ratito” para ajudar-nos... Quando a Cris chegou eu já estava descansada, com minhas coisas para fora da mochila e Juanjo já estava pegando uma grande caixa para que mandássemos tudo junto (era mais barato! Rs). A Cris fez questão de anotar: despachamos 3,946kg; 2,586 meus e 1,360 dela).

Parêntesis 2: Depois que descobrimos que podíamos mandar nossas coisas pelos Correios, o peso morto entrou em putrefação! Parecia que a cada passo pesava mais e mais... Dois quilos e meio podem parecer pouca coisa, mas carregá-los nas costas, pesam toneladas!

Chegamos ao albergue (5 estrelas) e fomos muito bem recebidas pelas hospitaleiras. Sentia-me muito mais leve, em todos os sentidos.
Havia recado do Mauricio para nós. Ao mexer nas minhas coisas, quando comecei escrever sobre o Caminho, encontrei um papelzinho no meu guia com algumas anotações daquele dia, em específico, acho que Mauricio não vai se importar, se ligar, depois ele briga comigo - rs):

“Frómista - 02/06/2000

Hoje encontramos um recado do Maurício:
Olá Kátia e Cris,
A cada dia mais este Caminho me impressiona. Destino, coincidência, sina, são palavras que nos mostram a vida passo a passo. Hoje falei inglês, sem saber (ou seja, com meu pouco conhecimento) por duas horas com um holandês, Sr. André, o que mostrou que precisamos de apenas boa vontade para nos compreender. Uma vez mais parte de mim fica aqui, gravada na história, que felizmente eu vivi!”

Também deixei minha mensagem para os que viriam depois de mim:

“Fazer “O Caminho” é aprender, com um pouco (às vezes muita) dor, a desapegar-nos de coisas e pessoas. Só somos donos de nosso próprio destino. Está sendo muito difícil, mas, a cada dia, descobrimos novas forças. Com fé chegaremos.”

É isso o que mais me fascina, a fé, a certeza que apesar de todos os percalços haveremos de chegar. Hoje eu testei a minha força de vontade, consegui fazer 6 km em uma hora e dez minutos, sem me exaurir. Cristina tem toda razão quando diz que desconheço a força que possuo, só que às vezes é tão difícil ser forte. Existem momentos em que anseio por colo, como agora, ouvindo essa música (está tocando o Bolero de Ravel) e tão longe das pessoas que mais amo. Mas a decisão é minha. Aos poucos vou descobrindo novas facetas de uma Kátia desconhecida, outras vezes as coisas que faço ou digo me vêm com uma clareza até então oculta (seria meu lado bruxa despertando?)
Amanhã a etapa é mais fácil... apenas 19 km.
Mas temos que nos preparar para o “deserto verde” que nos espera.”

Frómista - Eclusas

Quando retornamos ao albergue, depois de incorporar o papel de lavadeira, ainda bem que não tinha que passar, usava tudo amassado mesmo (rs), e fazermos nossas compras diárias fomos informadas que Toño, de Castrojeriz, estava à nossa procura, pois acreditava que seu cachorro Bernie tinha nos acompanhado até Frósmita. Ficamos sabendo que de vez em quando ele acompanha os peregrinos que leva até o albergue e como no dia anterior ele havia levado-nos até o albergue, tudo levava a crer que era conosco que ele estava. Se foi com a gente, ele era um Agente 007, pois nós não percebemos. O fato é que Toño não nos encontrou, mas encontrou Bernie!
Fomos jantar num restaurante perto do albergue com mais sete brasileiros... A Selma, Telma e Inês, o Paulo (que não tinha melhorado do joelho) e outros um pouco barulhentos para o meu gosto!
Reencontrei Esperanza e Alonso. No meio do jantar, Esperanza se aproxima da minha mesa e pede-me para fazer companhia a Alonso pois ela não estava sentindo-se bem. O que fiz com o maior prazer!

Parêntesis 3: Ainda bem que eu acredito em reencarnação, porque senão seria um problema explicar o amor que sinto por esse menino. Alonso é meu filho mexicano! Esperanza sabe disso, e ainda bem que aceita dividi-lo comigo. Eu o amo tanto, que falo com ele sobre tudo, às vezes até extrapolo quando trata da sua intimidade, só no intuito de querer vê-lo feliz! E ele sabe disso... quando nos encontramos, no caminho e depois, é como se eu reencontrasse um filho que estava a fazer uma longa viagem. Só tenho que agradecer a Santiago por ter sido o instrumento que me fez reencontrar parte da minha família espiritual.


Frómista - Igreja de San Martín


Fomos dormir ao som do carrilhão da igreja em frente, tocando Ave-Maria...

PS: Algumas pessoas visitam este blog, deixam palavras carinhosas, mas não deixam meio de contato. Outras, por não possuírem blog, fico impossibilitada de agradecer publicamente e dizer o quanto todos os comentários são importantes e me impelem a seguir adiante.
Por isso, além dos meus amigos queridos que visito quando posso e que me compreendem a “não-presença” (não é Anderson, já nem vou pagar direito autoral, e todos que estão nos meus favoritos, e que, graças a Deus, é uma lista enorme!), queria deixar um beijo especial para “meu lindinho” Mauricio, minha filhota “estrelinha” Gabi, meu querido Sérgio, minhas amigas de toda hora Lu Barcelos e Kátia C., para a amiga “desvairada” (vide orkut) Magda, minha amiguinha de faculdade Dany Sanches e duas pessoas que gostaria de vir a conhecer: Lis e Thania.
Luz para todos!

29 comentários:

Lindinho, vulgo Tiranossauro disse...

Excelente, que pique, franca recuperação.
Essa é a minha garota.
Beijo pra ti tb.

Brisa Feliz! disse...

Minha querida viajante, espero esteja tudo bem e que sua viagem seja repleta de paz.

Odoro sua visita sempre!

Feliz dia das crianças!

Beijos no coração com muita paz e luz!

Anderson Meireles disse...

Fique à vontade para abusar das minhas palavras que são feitas para quem me lê mesmo, ou seja, são para você.
A "não-presença" é um problema para quem não está acostumado mesmo...rsrs
Mas a gente se entende,
abraço!

mundo azul disse...

É vir aqui e viajar um pouco com você...Percorrer o caminho através de suas palavras...

OBRIGADA!


Beijos de luz e uma semana especialmente feliz!!!

Gabi disse...

ó, ganhei beijo!
vou agorinha cobrar pessoalmente! =)

Nadezhda disse...

O bom do caminho deve ser conhecer pessoas que em outra condições não conheceríamos.

;)

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Bom dia, meu Anjo!
Em primeiro lugar quero lhe desejar que tudo corra bem na sua cirurgia e que você seja assistida pelo Plano Astral Superior.
Tantas coisas para a gente dizer...A reencarnação, assunto que alguns negam com vergonha de aceitar uma realidade espiritual que já era conhecida dos povos mais antigos do planeta e que hoje já é pesquisada como certeza pelas grandes potências.
Kátia, não importa se você não puder estar por lá me comentando, eu já estou aqui, nessa longa jornada, lado a lado contigo.
FIQUE COM DEUS, AMIGA!!!Bjsss

Vivian disse...

...Kátia minha linda, que gostoso
poder viajar em suas palavras,
e sentir nelas toda sua emoção
pelo caminho percorrido com alma
e coração!

Somos todos peregrinos desta vida, e a alguns dão-se o direito de traçar algumas rotas, e a partir daí dividí-las com amigos, sejam eles reais ou virtuais como aqui neste blogsfera sempre tão mágica e rica.

Sei que após este caminho nunca mais serás a mesma, e graças à Deus
é certo que assim existirá entre nós mais uma pessoa em paz, de bem com a vida, e portanto trazendo egrégoras de felicidade a este mundo aprendiz..

Obrigada por visitar minha casa,
e fazer com que assim eu esteja aqui me deliciando, 'caminhando'
contigo nesta santa peregrinação...

Saúde é o que te desejo para que
tudo se realize em paz...

Bjus meus...

Muahhhh

lu barcelos disse...

Aiiiiiii!!!!

Eu vou fazer igual a Gabi! Quero cobrar o beijo pessoalmente!
Uma hora eu apareço aí combrando, hein! hehehee
Que saudade, minha querida!!!!


bjos mil a todos daí e um bem estralado pra vc!

=**********

Dry Neres disse...

Você é a tradução perfeita do que conheço por Memória Poética! É sério.. viajo junto com que você escreve.. consigo chegar no Valetim - Hippie.. ele me tocou.. você me toca sempre!!
Meus beijos! :)

Cláudia Pinho disse...

só 6 quilometros! claro coisa pouca.
fotos muito bonitas.

um beijo

Brisa Feliz! disse...

Tem presente pra vc la no meu cantinho.

Bjos!

Jardineiro de Plantão disse...

Enfim, estou com o grupo.

As fotos são elucidativas ao pormenor... ou pela Maquina ou pela fotografa...eu vou pela fotografa.

Isso é que foi corrida... 6 km por hora... e ainda com os pés acolchoadas em bolinhas de água... foi obra.

Têm sido um enorme prazer, acompanha-la neste relato de viagem.

Em verdade o homem (mulher) desconhece a força do querer... se alguma vez a encontra fica estupefacto, com esta qualidade.

No "Jardim" deixei repassando algo para o seu Blog...

Abraços.

victor disse...

Seu blog é muito bem construído, além do que você tem um texto muito bom. Já conheci vários blogs do ES, o seu está entre os melhores. Abraços

victor disse...

Seu blog é muito bem construído, além do que você tem um texto muito bom. Já conheci vários blogs do ES, o seu está entre os melhores. Abraços

Jânio Dias disse...

Oi, Kátia!

Desculpe-me pelo sumiço... Tenho andado distraído e distante das letras virtuais pois tenho dedicado o tempo que seria reservado para escrever com a leitura do velho, bom e incomparável formato: o livro.

Às vezes perdido no universo transcendente da música, outras em devaneio com a magia de alguns filmes.

Mas parte de mim permanece por aqui.

Muito obrigado pelas visitas. Prometo que tentarei voltar. Seu carinho me faz forte.

E obrigado pelo "feliz dia", afinal, fazia muito tempo que eu não ganhava um desses! ;)

Beijos para você!

Betty Branco Martins disse...

.querida Kátia







é uma verdadeira delícia




fazer esta viagem_______contigo:)







beijO_____carinhosO

Quero estar com você disse...

Essas pessoas, esses lugares por vezes rústicos, já estou começando a me acostumar também com o ritmo da sua caminhada. Olha, não há pressa de retorno de comentários, não. Sei, pelo que li acima, da sua cirurgia, além disso, ainda estou escolhendo um tema para publicar. Só quero que tudo esteja bem contigo, tá?

Essência Pura disse...

Espero que estejas bem da cirurgia, que tudo tenha corrido certo...

Quanto ao seu post, maravilhosa a sua narrativa...gosto muito de vir aqui....

Um beijo

Miriam

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Passei pra te fazer uma visitinha de médico, rsss...E aí? Tá boazinha? Mil beijinhossss

Deusa Odoyá disse...

Olá minha querida amiga Katia.
Desculpe o sumiço, pois estou meia enrolada.
Mas continuo viajando com vc.
Sentindo quanta paz existe em seus percursos.
Beijos e me esqueceu como amiga, viuuuuu, não queres me conhecer é?
beijos, e brincadeira.

Regina Coeli.

paula barros disse...

Oi, Kátia

Estou viajando, passo com calma. Mas quis olhar as fotos.

Adoro aqui.

beijos e bom final de semana.

O Seu Livre Arbítrio disse...

Oi, tudo bem?!
Aqui está indo, indo de acordo com a maré. De acordo com as ondas da vida.

Não sabia que a viagem tinha sido feita em outra época. Hehe, bom saber.

E bom acompanhar, pois acrescenta muito a todos, é algo positivo que se soma bastante.

Gosto de ler e acompanhar.

Bjossss

Boa noite!!!

Ilaine disse...

Querida Kátia!

Cá estou a acompanhar os teus passos, numa verdadeira peregrinação. A leitura de tuas narrações é simplesmente deliciosa e eu fico participando de tuas vivências e emoções. Cada trajeto é intensa vida. Maravilhoso viajar com você, amiga.

Beijo e um bom final de semana!

Anderson Meireles disse...

...É só minha não-presença se fazendo ausente hoje,
abraço!

O Profeta disse...

Que post fantástico querida amiga viajante...


Dpce beijo

Ilaine disse...

Passei para te deixar um abraço.
Saudades!

Beijo

Sergio disse...

..Aprendemos a buscar forças quando precisamos...a diferença ente ter e saber que tem, é precisar...

Vou usar os correios para levar ate Santiago..nao sabia dessa ferramenta.

Anônimo disse...

Olá peregrina.
Sou um dos hospitaleiros do albergue de castrojeriz, fico feliz em saber que tenha gostado da hospitalidade ,espero que retorne um dia.
Abs. Juca lisbôa