quarta-feira, 22 de outubro de 2008

FRÓMISTA - CALZADILLA DE LA CUEZA

OPORTUNIDADE DE APRENDIZAGEM


Población de Campo

Parêntesis 1: Queria agradecer a todos que se preocuparam comigo, pelas emanações enviadas (e recebidas), pelos e-mails, scraps, telefonemas, comentários... estou bem, ainda estou “costurada”, mas aos poucos vou voltando e visitá-los-ei, também aos poucos, porque só estou usando uma mão e custa-me digitar (levei três dias para digitar este post – rs)

Mais uma vez fomos acordados ao som de música... música erudita...
No dia anterior, quando chegamos, tocava música e eu comentei com a Lourdes (hospitaleira) que gostava muito de As Quatro Estações, de Vivaldi, e ficamos conversando sobre música, ela disse-me que iria fazer-me uma surpresa na manhã seguinte.
Demorei um pouquinho para reconhecer, mas estava tocando o 2º Andamento do concerto Primavera, que não é dos mais conhecidos, mas para mim é triste, lindo e tranqüilo, coincidia com o meu momento.

Parêntesis 2: Não pensem que sou profunda conhecedora de música erudita, sei que Vivaldi pertence ao período barroco e que naquela época não havia sinfonias, portanto, a obra As Quatro Estações é composta de quatro concertos... alguém muito amado me ensinou uma vez, há muito tempo, como sou boa aluna...

Fomos brindados com um lauto café da manhã, tinha até chocolate quente!
Saímos em direção a Carrión de Los Condes, que seria nosso ponto de parada naquele dia, numa caminhada de 19,2 km.
Caminhada tranqüila, a trilha parecia uma estrada de chão... passamos por Población de Campo, fizemos uma parada estratégica em Villalcázar de Sirga e seguimos...

Villalcázar de Sirga

Chegamos a Carrión cedo, muito cedo... Encontramos no bar o Sr. Escritor, conversamos enquanto eu comia um “bocadillo de tortilla” (sanduíche feito de pão recheado com omelete). É incrível como a memória da gente registra detalhes, lembro-me das cadeiras de vime, na varanda no bar, Jose Miguel numa mesa, nós na outra, conversando, ele transmitia uma paz tão grande que só ficar a seu lado, para mim, já era um presente.
Fomos ao albergue e eu vi que o Mauricio tinha estado ali no dia anterior. Estávamos decididas a ficar, pois já estavam Rosa e Angeles, Orlando e Michelini, Esperanza e Alonso, Jose Miguel, Sir Lancelot... Daí começou a chegar os brasileiros barulhentos... como era cedo e estávamos “inteiras” decidimos seguir adiante.
De todas as besteiras que cometemos no Caminho, essa foi a maior!
Não paramos para pensar que seguir adiante significava enfrentar o temido “deserto verde” e que seriam mais 17,2 km, ou seja, andaríamos, num só dia, 36,4 km.
Abrimos mão de ficar com nossos amigos por faltar-nos paciência e aceitação das diferenças.

Faltou-nos Tolerância!

Parêntesis 3: Deus sempre nos aponta dois caminhos, quando se trata de aprender algo, o caminho do amor, que incluiu paciência, resignação, aceitação, tolerância e quando não aprendemos, Ele manda a dor, daí temos que aprender na marra! Nós tivemos nossa chance de exercitar a tolerância e desperdiçamos... A justiça não veio a cavalo, veio de jato supersônico!

Carrión de Los Condes - Cristo esculpido no século XII

Esse trecho chamado (e temido) de Deserto verde constitui de 17,2 km, como disse, sem nada, absolutamente nada. Não há água, povoados, árvores. São 5 km de asfalto e depois estrada de terra numa reta interminável, campos de trigo dos dois lados e o horizonte. Não tem nem um arbusto para proteger do sol.
Lembro que logo no início da caminhada paramos para acertar os tênis e um senhor parou e nos ofereceu carona, agradecemos, mas ele insistia, dizia que com o sol a pino como estava era loucura seguir em frente, que aceitássemos pelo menos seguir com ele uma parte. Custamos convencê-lo que não aceitaríamos. Lembro-me dele ter dito: Mas ninguém vai saber! E eu respondi: Eu vou saber e isso me basta!
O sol a cada momento minava mais nossas forças. A gente caminhava, caminhava e a sensação era de não ter saído do lugar. Desolador.
Num determinado momento tive a impressão de estar tendo visões. Não era a primeira vez. Começou nos Pirineus. Eu olhava para o céu e parecia que as nuvens vinham em velocidade, na minha direção. Achando que estava enlouquecendo, não comentei com ninguém. Mas naquele dia, quando achei que ia morrer de exaustão, resolvi falar para a Cris e perguntar se ela também via. Foi quando concluímos que acontecia com ambas e nenhuma das duas tinha coragem de comentar com medo de parecer louca...
Naquele dia as nuvens corriam mais e mais rápido.
A Cris estava mal, muito mal. Naquele dia eu temi pelo pior. Cada passo custava-lhe um esforço sobre-humano.

Deserto Verde - Caminho para Calzadilla de La Cueza (única foto que tive forças para tirar)

Ao longe avistamos uma árvore, ou foi o que nos pareceu... andamos uma hora e meia para chegar até lá e constatar que era um pequeno arbusto e ainda havia uma vala entre a estrada e nosso objeto de desejo. Mesmo assim atravessamos a vala e sentamos sob a pequena árvore, pedindo a Deus que nos ajudasse a chegar ao nosso destino.
Eu já via as notícias: Brasileiras são encontradas mortas no Caminho de Santiago!

Não tínhamos noção de onde estávamos, de quanto tínhamos andado, de quanto ainda faltava. Ou seja, estávamos mesmo em apuros.
Rezei, com toda minha fé, para nossos protetores, que nos ajudassem a chegar, que mandassem uma mensagem.
Foi com muito esforço que levantamos e retomamos a trilha. No mesmo momento apareceu uma nuvem em forma de laço e um arco-íris. Mostrei para a Cris. Só podia ser sinal dos céus. Não havia chuva, nuvem escura, nada... Aquilo nos deu coragem para caminhar por mais um bom pedaço até o abatimento nos pegar novamente.
De repente, quanto as esperanças estavam no finalzinho, a Cris chamou minha atenção para os trigais. Eram de um verde que eu nunca havia visto antes (e nunca voltei a ver na vida) e eles brilhavam. Eram nossos amigos espirituais enviando-nos energia, sem dúvida!
Outra hipótese que não pode ser descartada é que estávamos tendo visões devido à exaustão, mas seria possível duas pessoas terem as mesmas visões?
Nossa água acabou...
Nossas forças também... quando, do alto de uma pequena colina, avistamos uma construção branca escrita Albergue!
Demos gritos de alegria, tentamos apressar o passo, mas não tínhamos mais forças.
Só sobrou-nos dignidade para chegar a Calzadilla de La Cueza sem engatinhar.
Quando estávamos chegando, eis que vem um rapaz correndo em nossa direção, toma-nos as mochilas, oferece-nos água... era o Phillip, nosso querido amigo das Carruagens de Fogo.
Conhecemos o Luiz, hospitaleiro, que construiu, com recursos próprios, o albergue. Gente de primeira qualidade, contou-nos como a Ana Sharp (escritora brasileira) chegou ali, desidratada e com insolação, disse-nos de seu sonho de conhecer o Brasil.
Naquele dia, jantamos cedo, tomamos vinho com analgésicos... doía desde as unhas do pé até o couro cabeludo.
Pagamos o preço da nossa intolerância!

15 comentários:

paula barros disse...

Querida que bom saber que estais bem.

Mais um relato que me tranporta. Cheio de energias positivas.

Fico olhando as fotos, os ângulos, as paisagens, relacionando a história com a foto.

Comigo o processo de Deus foi o contrário, ele mandou primeiro as dores, não aprendi ele desistiu me deu emoções fortes de luz, que a cada dia se transformam em aprendizagem.

Hoje, mais forte que nos outros dias, lembrei das suas caminhadas e aprendizagens. Andando de ônibus, e hoje super lotado, tenho tentado transformar em minhas caminhadas de aprendizagem. Não dá para fazer calos, mas se enfrenta muitos desafios e encontramos muitos sorrisos, solidariedades, gente até que sente minha falta se não vou no mesmo horário. Tem sido uma boa experiência e então lembro muito de você.

Por aqui aprendendo e transformando o que aprendo.

beijos mil e se cuide.

Deusa Odoyá disse...

Olá minha estimada amiga.
Não sabia que estavas doente.
Pois fiquei com pneumonia e também de molho
Mas pelo visto estamos bem de novo, graças a deus.
Esse crito esculpido, que lindo, fiquei emocionada.
Continuo amiga,´percorrendo com vc. nesse tour.
Obrigado pelas suas visitas ao meu cantinho, como sempre tão meigas em seu depoimento.
Fique em paz e melhoras.
Beijos da sua amiga.
Regina Coeli.

Cláudia Pinho disse...

que aconteceu com você? está doente? alguma coisa serio?
um beijo

Jacinta Dantas disse...

Esse trecho de suas "aventuras" parece ser o mais sofrido, não só no físico, mas,e principalmente na alma. Aquele sofrer que faz a gente refletir e assumir nossos pontos fracos e tirar deles um belo aprendizado, com vc bem diz no título.
Abraço carinho e melhoras.

Gabi disse...

Ficou de castigo no caminho... tsc, tsc.. rs
Mãe, fala pra esse povo que você tá bem, que eu sou ótima em fazer curativos e te enchi de carinho e cuidado! =P
O povo tá preocupado por causa da mutação... quando eu falo que vc não é deste mundo, vc num acredita... heheheheh
Beijo!!!

Dauri Batisti disse...

De tudo o que você conta o mais importante é a revivência do que você foi lá buscar. Contar sua jornada é fazê-la novamente por dentro, naqueles caminhos que se fazem na alma.
Boa jornada, nova peregrinação.
Saúde! E viva o caminho!

Nadezhda disse...

Perdi algum post ou é minha memória que não anda boa? (deve ser a segunda opção). Mas não lembro se iria fazer alguma cirugia.

Ando estudando tanto que minha memória e sanidade estão indo para o espaço.

Mas te desejo melhoras!

;)

Anônimo disse...

Vc comentou a poucos sobre uma pequena cirurgia, e tudo bem, tipo coisa rapida. Vc sumiu e aflito bati na lá na porta da querida Gabi. Tá, só queria dizer que a gente também sofre. Tudo de bom e uma boa recuperação.
Beijo,
Mauricio

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

MINHA ANJA KÁTIA!
Olha, vou te contar uma coisa, você sofre porque os dedinhos ainda estão costurados e eu porque querem "costurar" minha pouca criatividade, ou melhor, o Direito de expô-la. O que seria pior, minha Amiga? Sofrer, sofrer, sofrer, com alguns oásis no meio, esse é o caminho que temos que percorrer nesse deserto de tantas dores e incompreensões.
"Duas brasileiras mortas no Caminho de Santiago..." Eu ri, sabia? Essa dramaticidade autêntica me arrancou um sorriso. Ninguém morre ali e se morrer, morre bem, sobe direto pra DEUS!
Já passei por aqui várias vezes, apenas para ver as novidades e em duas delas para lhe desejar uma feliz recuperação, o que está ocorrendo. Kátia, eu trago para o mundo virtual o que aprendi em casa: não incomodar quem está quieto. Você estava se recuperando, se ficasse toda hora te perguntando, acho que ia chegar o momento que você iria romper com seu repouso e iria se sacrificar para me retornar. Mas o e-mail citado, realmente, NÃO RECEBI, ouuuu...está naquela bagunça de caixa de e-mails do yahoo para onde vão os comentários da moderação, vou fazer uma busca pormenorizada. ACREDITE: JAMAIS DEIXAREI DE RESPONDER A QUEM QUER QUE SEJA E EM SE TRATANDO DE UMA AMIGA E SE ESSA AMIGA SE CHAMAR KÁTIA, RESPONDO ATÉ COM OS DEDOS DOS PÉS, O NARIZ, AMARRADA, etc...risosssss
Não contrarie as Leis Naturais, minha querida, se recupere, repouse, estaremos aqui à sua espera. E de hoje em diante, vou passar por aqui sempre pra deixar um recadinho, mas NÃO ME RESPONDA, ouviu? Só desejo e anseio por suas Inspiradas opiniões se não lhe custarem sacrifícios, OK?
Um final de semana, mais um, muitos virão, de Total Saúde!!!Bjs
Venho depois para comentar sobre essas "visões", me interessaram demais...

paula barros disse...

Oi, estais melhor?
Espero que sim.

beijos e bom final de semana.

Layla Lauar disse...

Oi querida

Fico feliz com sua volta e espero que não esteja fazendo extravagância, já digitando.

mais um relato emocionante sobre as suas duas viagens, a da corpo e a do espírito, e você nos leva junto, nas duas...

que Deus lhe proteja na palma da Sua mão.

beijos todos e + um tantão!

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Oi...sem extravagância, viu? Tamos de olho em você, rsss... Bom sábado! Tô cuidando das coisas, mas volto!Bjsss

Jardineiro de Plantão disse...

Estimo que esteja se sentindo com melhoras... Não só os relatos, como os seus comentários são deliciosos.

Caramba caminhada bem difícil essa a do dia... O desenrolar da mesma paisagem criou mais exaustão... que o caminhar em si... a mente é mesmo coisa complicada.

Bom final de semana.

Abraços

Tell Aragão disse...

é,realmente perdi muita coisa...
como assim, costurada?
que houve?
estás bem?
bjs

Sergio disse...

Acho que esse é nosso maior defeito...me pego as vezes com esse desafio....principalmente quando as diferenças atrapalham minha paz