segunda-feira, 14 de março de 2011

NUNCA FUI MOVIDA A MEDOS


Sozinha na varanda do "meu cantinho", apreciando as nuvens transformando-se em chuva, lembrei-me das tempestades da minha vida.
Tempestades no sentido literal.
Relâmpagos, trovões, enchentes.
Uma vez, na escola, começou uma chuva torrencial e a maioria das crianças procurou abrigar-se próxima à professora, que à época era chamada de "Dona" e não "Tia" como hoje.
Permaneci sentada, quieta no meu canto.
Quando indagada se não tinha medo, respondi que não. Naquela tenra idade não tinha medo de nada que conhecesse. Se me diziam para não ir a determinado lugar porque tinha bicho-papão, aí é que eu queria ir mesmo, para conhecê-lo. Portanto, também não tinha medo do que ainda não conhecia.
Mas um dia a chuva trouxe a enchente até a casa que habitávamos, à beira do rio, e com ela vieram as cobras. Aí conheci o medo. Talvez incutido pelos meus pais que temiam pela minha integridade diante da minha "petulância" de tudo querer ver, conhecer, tocar. Eu poderia me ferir seriamente por não temer nada e acreditar que as cobras eram inofensivas.
Depois disso não lembro de nada mais que tenha me trazido o sentimento de medo.
É certo que cobra não olho nem na TV.
Mas tirando cobra, não temo nada vivo, muito menos morto.
Sempre destemida, segui adiante. Enfrentando minhas batalhas, angústias, doenças, perdas, incertezas.
Mas medo, medo mesmo, de paralisar os movimentos, não me lembro de ter sentido por mais nada.
Mas dia desses, lendo o jornal, deparei-me com a notícia sobre uma mãe que havia jogado o filho no rio.
Senti um gosto amargo, um tanto esquecido, gosto de medo.
Hoje tenho mais um: medo da dureza do coração dos homens.


7 comentários:

Maria Leite disse...

"Senti um gosto amargo, um tanto esquecido, gosto de medo." Ai, ai, que posso dizer diante de tanta emoção?! Sem palavras, lindo demais...Voltarei em breve.

Fotografia em Foco disse...

Cobras? Não olho nem na tv, tbém. Morro de medo.

Que bom q vc está de volta. Nossa, Kátia, vc não faz idéia de como suas palavras soam bem aos nossos corações. Vc toca lá no fundo...Vc faz a gente sentir e pensar, pensar, pensar...

Bjo.

K disse...

Katita, a lesada aqui comentou qd estava logada no blog da turma de fotografia. Então, fotografia em foco, sou eu!!1 rsrsrsrs
Bjo

Mauricio disse...

Des...humano
Beijo

Loba disse...

Menina! Lembra de mim? Depois de muito tempo fora, estou de volta. E aos poucos, reconhecendo os amigos.
Li todos os textos da página. É uma forma de recuperar um pedacinho do tempo perdido. Foi bom saber que vc é tb uma pisciana - bem que eu sentia que nossa energia corria no mesmo trilho! rs... Então, parabéns pelo anversario, viu? E pela sensibilidade que este texto demonstra.
Beijo!

Vanuza Pantaleão disse...

Oi, Kátia!
O medo é um instinto natural, uma 'proteção' quase animal. Mas o medo mórbido inibe e atrapalha a nossa sobrevivência.
Meus medos são pelos que amo. Medo do filho e marido chegarem tarde da faculdade, etc. No mais, também sinto-me cada vez mais destemida. Se me chamassem para o Japão agora, eu iria na boa...
Mãe que joga filho fora é pior que a pior das cascaveis, não é gente.
Gostei que tenhas retornado com todo esse vigor.
Deus a abençoe!
Beijos

PauloVilmar disse...

Kátia!
Texto lindo e elegante, como sempre!
beijos!