domingo, 13 de janeiro de 2008

RESOLUÇÕES DE BIA

Todo final de ano era o mesmo ritual. Isso começou na adolescência. Beatriz, em princípios de dezembro, começava a pensar em suas resoluções para o ano que ia começar. E não pensem que ficava só no pensamento! Ela anotava tudo em sua agenda para, ao final de cada ano, poder aferir as metas alcançadas, fazer um balanço, traçar novas estratégias, aprimorar novas metas. Um observador mais atento veria, com certeza, a alma da grande administradora que ela viria a ser.
No início eram poucas, escritas com sua letra bonita cunhada em cadernos e mais cadernos de caligrafia:
1 – Aprender a fumar
2 – Arranjar um namorado lindo e rico
3 – Conhecer o Rio de Janeiro
Não se preocupava com as coisas corriqueiras como fazer dieta, ganhar dinheiro, etc. Mas quem com 13 anos iria preocupar-se com isso em pleno início da década de 70?
Os anos foram passando e sim, aprendeu a fumar!, conheceu o Rio aos 17, mas nada de aparecer o namorado lindo e rico.
Aos 17, estava lá na agenda de Bia:
1 – Passar no vestibular
2 – Mudar para a Capital
3 – Arrumar um emprego
4 – Arrumar um lugar para morar
5 – Arranjar um namorado lindo, rico e que goste de MPB
E mais uma vez ela cumpriu quase todas as metas: continuava faltando o tal namorado!
Daí ela incluiu comprar apartamento, carro, conhecer Salvador, ir à Argentina, mas persistia em incluir, no final da lista, a tal resolução, que a cada dia ficava mais exigente:
- Arranjar um namorado lindo, rico, que goste de MPB, de viajar, de ler, de teatro, de ir ao cinema e que não jogue futebol aos domingos.
A cada ano que Bia acrescentava um novo item, mais distante ela se tornava do seu objetivo.
Não que ela não tentasse com outros que não preenchiam todos os requisitos. Até tentava! Mas sempre faltava alguma coisa...
O tempo foi passando. Bem sucedida na vida profissional, agora Bia tinha seu apartamento, carro do ano, viajava para o exterior quase todo ano, tinha tudo que uma mulher sonhava, só a falta do “bendito” namorado é que incomodava. Pois, apesar de todo o sucesso, o grande sonho de Bia era casar e ter filhos.
Foi então que ela conheceu Gabriel numa exposição de fotografias. Não era lindo, mas chamava atenção pela sobriedade, pelos olhos verdes, pelo modo como chegou com o flute de Proseco... Então, conversa vai, conversa vem, saíram dali para jantar num restaurante aconchegante que Bia conhecia.
No ato do primeiro encontro, as perguntas inevitáveis, algumas só, porque ninguém quer um interrogatório nestas circunstâncias, Bia já sabia que ele não era lindo, ficou sabendo que também não era rico...
Os dias foram passando, a cada encontro ela gostava mais de Gabriel, até que descobriu que os únicos livros que havia lido foram os exigidos para o vestibular, que gostava de rock, cinema sim, mas nada de dramas (grande paixão de Bia), só filme de ação, “teatro é um saco” ipsis literis, tinha uma turma que jogava futebol aos sábados desde a faculdade e que adorava viajar.
Tudo isso coincidiu com o fim de ano. Bia abriu a agenda, riscou todas as resoluções do ano anterior, pela primeira vez não fez lista para o ano que chegava e pensou, como a raposa do Pequeno Príncipe:
“Nada é perfeito ... minha vida é monótona Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros.”
E saiu, toda perfumada, encontrar aquele cujo barulho de passos acelerava seu coração.

Imagem: Torre do Relógio - Veneza - Itália

2 comentários:

Jacinta disse...

Oi Kátia,
e pensar que esse ano tomei a decisão de não fazer a tal listinha que me acompanha desde a adolescência.
Bom sinal.
Um beijo

Jacinta

Gabriel Araujo disse...

As vezes queremos pessoas prontas mas elas naun existem...
ótimo texto
obrigado pela visita
seu blog tb estará no meu