sexta-feira, 7 de março de 2008

DE MORTE, DOR E VIDA

A morte é a curva da estrada.
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.
A terra é feita de céu.

A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.

(Fernando Pessoa)
(Foto tirada em uma barraca em São Tomé das Letras-MG)
Não pela primeira vez, usarei este espaço como divã... é que análise anda muito caro!
Aqueles que me acompanham mais de perto ou têm lido mais amiúde este blog, sabem que os últimos tempos têm sido um tanto difíceis para mim.
Não que eu seja dessas pessoas que vivem a lamuriar-se das agruras da vida, mas é tanta coisa acontecendo que chega um momento que não dá mais, o copo transborda: Estou neste momento!
Tem gente que ainda hoje usa de artifícios para denominar o câncer. Falam “aquela doença”, “aquele mal” e outras coisas do gênero. Eu escancaro com todas as letras, quando possível em maiúsculo: CÂNCER!
Esse danado me persegue cismando em corroer as pessoas que eu amo. Volta e meia ele me rouba alguém. O último que ele me roubou foi meu afilhado (filho querido) Pedro, no auge dos seus 21 anos, depois de um ano de luta.
Ainda com os olhos molhados das lágrimas da saudade, eis a notícia que ele havia atacado uma amiga. Poxa! Sacanagem! Fiquei revoltada. E quando me revolto eu penso...
Daí me lembrei de um médico-irmão-companheiro Gustavo Picallo, que acompanhou minha mãe (e a nós também) em seus piores momentos, Ser Humano de primeira grandeza, que quando da partida da minha mãe me perguntou: “A vida faz parte da morte ou a morte faz parte da vida? Não vou responder, apenas pense nisso.” E eu tenho pensado. Pelas minhas crenças a gente passa muito mais tempo do lado de lá do que aqui, então a vida é que faria parte da morte... mas então porque ainda é tão difícil dizer “Até logo”?
Mas no meio da dor (sofrimento jamais, porque sofrimento é deixar a dor se instalar de modo permanente e eu opto por não sofrer) aconteceu a formatura do meu filho. Comemoração! Alegria! Ver mais um filho formado, sensação de dever cumprido.
E para completar, meu aniversário. Celebração da vida!
Eu dividida entre a dor da separação e a dádiva de ainda estar aqui. De reconhecer, através das centenas de mensagens, telefonemas, etc. o quanto Deus é generoso comigo, ao espalhar pelos quatro cantos do mundo anjos disfarçados em amigos.
E foi conversando com uma dessas amigas – minha xará Kátia - que as pessoas chamam de virtual e que eu chamo de “ainda por encontrar” que ela me disse: “Quando penso em você, sempre a vejo com a mão estendida. Será que já não é hora de você parar de perguntar por que Deus permite que o câncer acometa as pessoas que você ama e arregaçar as mangas e cumprir sua missão de apoiar, amparar, ouvir, de uma forma mais leve?”
Não comemorei meu aniversário... ainda dói muito. Mas já estou pronta para acompanhar minha amiga e tentar tornar seu fardo mais leve.
E vamos viver a vida da melhor forma possível.
Porque a morte é certa!

3 comentários:

Jacinta disse...

Kátia,
escuto e acolho cada palavra, cada sentimento...acolho você, que por ser guerreira, enfrenta as situações de vida e de morte.
Um beijo
Jacinta

Dauri Batisti disse...

Katia,

cada letra deste texto é um pedaço de uma estrada que você vai abrindo. Você, talvez, ainda não perceba aonde vai dar essa estrada, mas ela será uma boa estrada, tenho certeza.

Jorge Elias disse...

Kátia,

Vc bem sabe que convivo todos os dias de minha vida com a "indesejada da gente". Mas quando leio, e vivo, seus textos, eu me remeto a minha vida pessoal que também tem-se mostrada ladeada por perdas (com muita frequência por câncer), de pessoas queridas.
Recentemente foram 3 amigos.
Tenho pensado muito sobre isso...
Concordo com o comentário de Dauri, vamos seguir a vida...
Beijos,

Jorge Elias