segunda-feira, 24 de novembro de 2008

ASTORGA, LÁ VOU EU!

Puente y Hospital de Órbigo - chegada


Saímos cedo, o caminho à nossa espera era longo – 30,5 km – o guia anunciava 2 botinhas, ou seja, caminho difícil pela frente, num tempo de aproximadamente 7 horas... para quem tem 20 anos, claro!
Sabíamos que os primeiros 10 km eram absolutamente desertos, não teríamos nenhum povoado, água, armazém, “nadica de nada”... para adiantar saímos sem comer nada.
Fazia um frio de doer os ossos.

Parêntesis 1: Vocês já repararam que quanto mais “usados” ficamos, mais os ossos doem?

Puente y Hospital de Órbigo - Igreja
Andamos, andamos e nada de esquentar. Daí começamos a ter fome e eu com vontade de “largar do barro”.

Parêntesis 2: Até aqui eu consegui ocultar certas intimidades, mas vai chegar num ponto em que elas não mais poderão ser ocultadas, então é melhor ir preparando... Para não parecermos deselegantes, quando tínhamos vontade de evacuar, usávamos a expressão “largar o barro”. E quando você caminha praticamente o dia inteiro, não se pode esperar banheiros químicos à beira da trilha, procura-se um lugar mais ou menos oculto, e é como aquele ditado “se não tem tu, vai tu mesmo”... O mais interessante é que o papel higiênico é vendido em pacotes de 3 rolos, então, normalmente, sabíamos a cor do papel das pessoas mais próximas, daí sabíamos quem havia utilizado o mesmo “banheiro” antes de nós!

Mas voltemos ao caminho, literalmente... paramos no caminho mesmo, perto de uma casa onde havia uma fonte com os dizeres “água potável”. Comemos nosso pão com sei lá o que, tomamos nossas caixinhas de suco, eu larguei meu barro e fomos adiante. Passamos por Villavante e seguimos para Puente y Hospital de Órbigo.

Puente de Órbigo

Parêntesis 3: A Ponte é de origem romana, imensa, linda e é atravessando-a que se chega à cidade. Repleta de histórias, a ponte é conhecida por ter sido palco de inúmeras batalhas, entre elas aquela em que o rei Alfonso III, “El Magno”, enfrentou as tropas cordobesas, no ano 900. Tem o epíteto de “Passo Honroso”, mas não pelas batalhas e sim por uma história de amor. Conta-se que em 1434, um nobre da cidade de Leon se apaixonou por uma mulher. Chamava-se Don Suero de Quiñones, era rico e forte, e tentou de todas as maneiras receber a mão de sua dama em casamento. Mas esta senhora não quis sequer tomar conhecimento de sua paixão e rejeitou o pedido. Don Suero, sentindo-se ferido em seu amor próprio, resolveu fazer algo que chamasse a atenção da distinta dama, realizaria uma façanha tão grande que ela jamais o esqueceria. Durante muito tempo ficou arquitetando o que poderia fazer. Naqueles primeiros séculos o Caminho atraía gente de toda a Europa: peregrinos, padres, nobres, e até mesmo reis que queriam prestar sua homenagem ao Santo ou pagar promessas, atraía, desta forma, também os chamados assaltantes e bandoleiros. Foi aí que Don Suero, ouvindo falar dos crimes e das lutas no Caminho de Santiago, teve a idéia de reunir dez amigos e instalaram-se na ponte que dá acesso ao que era um pequeno povoado. Daí mandou espalhar pelos peregrinos que iam e voltavam pelo Caminho de Santiago que estava disposto a permanecer ali trinta dias – e quebrar trezentas lanças – para provar que ele era o mais forte e o mais ousado de todos os cavaleiros do Caminho. Acamparam com suas bandeiras, estandartes, pagens e criados, e ficaram esperando os desafiantes. As lutas aconteceram 15 dias antes do dia consagrado a Santiago – 25 de julho – e 15 dias depois. Quiñones e seus amigos combatiam durante o dia e preparavam grandes festas à noite. As lutas eram sempre na ponte, para que ninguém pudesse fugir. Todos os cavaleiros vencidos eram obrigados a jurar que nunca mais iriam lutar contra os outros e que dali em diante tomariam para si a missão de proteger os peregrinos até Compostela. A fama de Quiñones percorreu em poucas semanas toda a Europa e muitos foram os que apareceram para desafiá-lo na esperança de vencê-lo e ficarem famosos. Mas enquanto os outros buscavam apenas fama, Quiñones seguia lutando pelo amor de Leonor Tovar. E este ideal fez com que vencesse todos os combates. Quando as lutas terminaram, Don Suero de Quiñones foi reconhecido como o mais bravo e o mais valente de todos os cavaleiros do Caminho de Santiago. A partir desta data, ninguém ousou mais contar bravatas sobre coragem, e os nobres voltaram a combater o único inimigo comum, os bandoleiros que assaltavam os peregrinos. Esta epopéia, mais tarde, iria dar início à Ordem Militar de Santiago da Espada. Depois disso, Don Suero foi a Compostela e entregou um bracelete de ouro que usou durante as batalhas ao apóstolo Santiago. Atualmente a jóia ostenta o busto de Santiago Alfeu, no Museu da Catedral. (Mas não consegui descobri se ele enfim casa ou não com Leonor!)
Dizem alguns historiadores que Miguel de Cervantes teria se inspirado em Suero de Quiñones para compor Dom Quixote.

Pois bem... quando estávamos quase terminando de atravessar a ponte, vejo um vulto encolhido nos degraus de um hostal, aproximo-me e tcham! Tcham! Tcham!... Mauricio! O frio era tanto e a raiva também, porque ele não tinha nada que ir embora (coitado! A gente traça um caminho e quer que o outro siga o que a gente pensou, sem perguntar se ele concorda... perdão, meu amigo! Mas eu aprendi! Juro!) que nem conversamos direito, só expliquei que havia tentado enviar os óculos, mas que não havia conseguido...
Seguimos juntos... sem muito conversar... era frio pra caramba!

Villares de Órbigo

Passamos por Villares de Órbigo, Santibáñez de Valdeiglesias (na base, um não tem nada, outro nada tem...) e paramos em San Justo de La Veja. Comemos uns sanduíches e seguimos...
Meus pés doíam tanto que eu já nem me importava, acho que estava me acostumando com a dor.
Só queria chegar a Astorga...
Mas Astorga vale um capítulo inteiro!

Caminho Valdeiglesias

18 comentários:

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Aqui é tudo muito lindo, dá vontade de levar as fotos embora.
Kátia:
Publiquei no Blog Galeria sobre 3 versões cinematográficas de Romeu e Julieta: 36, 68, 96. Depois dê uma passadinha no meu outro Blog onde publico sonetos de Shakespeare e outras obras do bardo, como vc já sabe.
Beijos, linda
Renata

paula barros disse...

Oi, Kátia

Já sabe que sempre volto né? Ao escrever me senti parecida com Maurício, sigo outras rotas mas lhe encontro sempre. Toda vez que fala dele me dá vontade de chorar. Fico emocionada.

Lindas imagens, sigo fazendo o seu caminho e "escutando" seus aprendizados.

abraços carinhosos

Kátia Campos disse...

"A gente traça um caminho e quer que o outro siga o que a gente pensou, sem perguntar se ele concorda..."

Com certeza esta frase vai ocupar boa parte dos meus pensamentos ...com certeza...

Maurício é um capítulo à parte. A gente se afeiçoa a ele através de seu coração.

Gostaria de saber o final dessa história. Será que Leonor rendeu-se a este imenso amor?
Adoro finais felizes.

Bj

Mauricio disse...

Será que funciona???
TOLERÂNCIA,
TOLERÂNCIA, TOLERÂNCIA
TONLERÂNCIA, TONTOLERÂNCIA, ÂNCIA
TONTO TOTÓ, ÂNCIA e LELÂNCIA
TOLÂNCIA, TONTO E LELÉ
Quantos dias seriam necessários para . . .
Como que é mesmo?
Si mi esqueci. Ahhhhhhhhhhh ???
Haaaa,. . . os ÓCULOS né?
TOLERÂNCIA,
TOLERÂNCIA, TOLERÂNCIA
..............................
Beijo Katia, inigualável, e ao que me pareçe, INSEPARAVÉL amiga.
Cris, bem que eu tentei.

ex-controlador de tráfego aéreo disse...

Oi Kátia!

Gosto muito da sua narrativa. É ágil, curta e me prende do começo ao fim. Por falar nisso vou para o começo de tudo aqui, para não perder nada.

Um beijo!!!

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Oi, Kátia, o teu (não) entendimento com Mauricio (o nome de um dos meus irmãos; os dois até se parecem, psicologicamente; tenho até uma "teoria particular sobre nomes", maluquice!) daria um bom roteiro para um filme, um conto, estou elocubrando sobre isso, rssss.Uns doidinhos, vocês, hein?
Esse detalhe que tentamos esconder de todos e que todos tentam esconder até de si mesmos que é a coisa mais comum e fisiológica dos seres vivos, ou seja, fazer cocô, defecar (dizem os mais finos, rs), largar o barro...Puxa, isso tem causado até separação de casais, pode crer! Eu tinha um colega de faculdade que já tinha se casado muitas vezes, não era rico, muito menos, um galã, mas me disse certa feita que quando as suas mulheres bonitas e cheirosas saíam do banheiro e ele entrava em seguida, sentindo, obviamente, aquele cheirinho, pronto! Já queria se separar! E se separava, era um infeliz, deveria procurar um terapeuta, aquele tolo...Na Índia, ah, a nossa Sábia Índia, "os médicos" de lá usam esses dejetos humanos até como remédios, acredita? E no Japão e China? Tudo isso é reciclado e vira água e adubo, muito temos que aprender com tantos povos, não é, Amiga? Só sinto não estar com uma impressora decente, iria guardar esses maravilhosos relatos numa encadernação muito especial.
E essas fotos? Um escândalo, sim, escandalosamente lindas, que me perdoe o Santo! Mas houve aqui uma pequena frustração: puxa, o nobre se arrasa todo, se mete em mil encrencas e cadê a "muié"? Olha, ele não deve ter saído de mãos abanando dessa, não! Aí, teve!Rsss.
EXCEPCIONAL!!!Bjs

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

A propósito, o Centro de que falas é Centro Espírita? Se é, quero lhe dar as mãos, o Espiritismo e a Umbanda também, essa Religião Brasileira, tão boa e tão difamada (porque é dos pobres), são lugares que emanam uma Energia Pura, só de AMOR-ÁGAPE...Francisco gosta de frequentá-las e até emprestou seu nome a um outro "Santo", o nosso Chico Xavier, será que o Brasil também já o esqueceu? Pior para nós! Choveu muito, amiga e estou preocupada com a Miriam de Floripa, pois em Santa Catarina já existem várias vítimas e ela não me respondeu o e-mail. Mas deve estar bem, segundo o ditado:"Sem notícias, boas notícias!" (No news, good news! Olha o meu Inglês aí, genteeeee).
Cê tá boa, né? Tô te sentindo animadinha...Beijokas, tá???

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Kátia:
obrigada pelo cometários elogiosos ao meu novo Blog e ao seu conteúdo. Acho que vou ter de fechar o Galeria, porque as pessoas para no Poemas e Canções e ficam por lá. Mas eu não queria fecha o Galeria, poi sfoi lá que tudo começou. Por outro lado, No Poemas. faço resenhas de filmes também. Ainda não sei o que fazer. O tempo dirá.
Beijos e obrigada linda,
Renata

Círculo Literário disse...

belas fotos...
ahhh quero tanto viajar.. vc tem um roteiro e tanto!!!

Jacinta Dantas disse...

Oi Kátia,
foi seguindo seu percurso e, a cada postagem, tenho a impressão de que você o refaz, no sentido de revisitar as emoções. É muito legal.
Beijos

Deusa Odoyá disse...

Olá minha sumida amiga!
que saudades...
Esse maurício deve ser um amigão e tanto.
Dá vontade de levar para casa.
Olha amiga, já estou com os pés cheios de bolhas, pois não paramos ainda para descansar.
Que viagem e tanto.....
Gostaria de estar com voces,realmente.
Quantas aventuras e mistérios.
Quantos lugares maravilhosos e iluminados.
Parabéns, amiga.
Continue nessa sua narrativa, assim podemos viajar contigo.
Beijos e muita luz.

Sua amiga.
Regina Coeli.

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Querida Kátia:
Já que tanto gostou do meu novo vatinho, vim avisá-la de que
publiquei o Soneto VIII de Shakespeare e uma crítica sintética do filme Southerland Tales. Vai lá para dar um forcinha.
Beijo, Renata

Nadezhda disse...

Também queria saber se ele se casou com a moça!

Hoje estava estudando, e tinha uma parte do livro que citava esse caminho, lembrei de você.

;)

Jardineiro de Plantão disse...

Mais uma belíssima narrativa do seu caminhar... as fotos estão soberbas e essa história do cavaleiro andante, lutando para ser reconhecido pela amada, a conta como ao meu lado estivesse... continuo a seguir todas as belas descrições da sua bela e extraordinária epopeia.
Quem já foi caminhante, sabe que não é tão simples assim.

Carlos

Jacinta Dantas disse...

EiKátia,
sei que está em cima da hora, mas, sempre há tempo. Acesse www.amigoculto2008.blogspot.com e veja se te interessa participar. Eu vou. Acho que vai ser legal.
Beijo

Identidade Capixaba / Fotografia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Identidade Capixaba / Fotografia disse...

Olá, Katia.
Adorei o seu blog. Eu moro em Linhares e sou apaixonado por fotografia. Visite o meu blog, acho que vai gostar.
Abraços...

Antonio Cosme.

Sergio disse...

...Quando chega ´´a hora H´´ não tem essa..é como o sono..rsrs

Interessante história...por falar nisso, será que existem casos de pessoas que vão e voltam pelo mesmo caminho?