quinta-feira, 6 de novembro de 2008

RUMO A SAHAGÚN

ENCONTROS, DESENCONTROS & REENCONTROS

Caminho rumo a San Juan de Sahagún

Quando fomos deitar, depois da loucura daquele dia, dos 36 km e todo o mais, pensei comigo mesma: amanhã estarei um caco... tomei um Dorflex e entreguei para Santiago. E não é que o Santo compareceu! No outro dia eu estava inteirinha. Como se nada tivesse acontecido! Milagre!
Pegamos a estrada e juramos que não mais cometeríamos nenhuma loucura nem burrice como aquela.
Passamos por Terradillos de Templarios (tudo que remonta aos Templários é um atrativo a mais para mim) onde tomamos nosso café e trocamos um dedo de prosa com uma senhora muito simpática, que servia no único bar da cidade.
Vínhamos caminhando quando vimos os dois Phillip (o nosso amigo “Carruagens de Fogo” e outro, inglesinho, que conhecemos em Estella e reencontramos no caminho) encostados nuns sacos de feno. Não perdemos a chance, começamos a cantar o tema “Carruagens de Fogo” e passamos “chispando” por eles, às gargalhadas. Quando estávamos bem à frente, distraídas, conversando, eis que surgem os dois, e fazem o mesmo, inclusive com trilha sonora... tivemos um ataque de riso... é a cumplicidade do caminho. Coisas pequenas, que no dia a dia seriam insignificantes, tornando importantes e alimentando a amizade.

Eu e Phillip "Carruagens de Fogo" - Albergue de Sahagún

A estrada que leva a San Juan de Sahagun é linda, uma calçada de terra, flores dos dois lados… depois do deserto verde, este pedaço do Caminho foi um presente e tanto.
Nesse dia, eu e Cris, conversamos sobre nossas saudades, sobre nossos pais que já tinham partido, amigos que se foram, nesta ou para outra vida, choramos e exorcizamos nossas carências.

Parêntesis 1: Como é difícil lidar com a saudade, com o desapego das pessoas que amamos. Criamos nossos filhos querendo que eles vivam eternamente a nosso lado. Vivemos com nossos pais querendo que sejam eternos. Queremos nossos amigos sempre presentes. Quando isso não acontece ficamos meio perdidos, como que castigados pela justiça Divina (segundo a crença Católica Apostólica Romana, que tudo é pecado e castigo). Se lidar com o desapego de bens materiais já é difícil, quanto mais lidar com o desapego das pessoas que mais amamos e que tiveram que partir, prematuramente, antes de nós. Complicado essa coisa de saudade... venho tentando lidar com isso... mas ainda não consegui o diploma!

Quando chegamos ao portal da cidade estávamos prontas para iniciar uma nova jornada, interior e exterior.
O albergue é “6 Estrelas”! Ducha quente, lavadora de roupas, todo o conforto que já não estávamos acostumadas. O Refúgio (ou albergue) fica localizado numa antiga igreja, portanto guarda suas enormes pilastras de pedra, onde foi construído um mezanino, com sala de estar, quartos para oito pessoas, um luxo!
Quando estávamos chegando uma moça olhou para nós e perguntou:
- Vocês são Kátia e Cristina?
- Sim, respondi.
- Tenho um recado para vocês. Mauricio mandou dizer que está aqui. Que esperem por ele.
É claro que ficamos muito contentes, só não entendemos bem o resto do recado, parece que ele tinha ido ao médico, ou levado alguém... mas não interessava. O importante era que reencontrávamos nosso amigo.

Arco Medieval - Sahagún

Domingo, a maioria do comércio fechada, saímos para comprar nossas provisões e a Cris, que adora pedir uma informação, perguntou a um velhinho onde poderíamos ir, o pobre do velho nos levou até a padaria, ficou esperando para ver se estávamos satisfeitas ou se queríamos mais alguma coisa. Uma gracinha de pessoa.
Voltamos ao albergue. Tiramos foto com o Phillip junto à escultura de um peregrino que fica na entrada.
Estávamos descansando quando o Mauricio chegou. Fizemos a maior farra! Pulamos nele, abraçamos, quanta saudade!
Mauricio estava com a garganta inflamada e deu uma diminuída no ritmo... eu digo que foi castigo de Santiago por ter nos abandonado!
Saímos à tardinha para passear na cidade e passamos por uma igreja muito bonita e um senhor nos convidou a entrar. Qual não foi nossa surpresa ao perceber que estava tendo um “ofício” e quem cantava eram as monjas enclausuradas, detrás de uma “coisa” de madeira em formato de cocada (rs), acho que o nome é treliça! A igreja, linda e as vozes pareciam de anjos.
Como tínhamos reservado mesa no restaurante do Sr. Diego, quando chegamos estava lotado, mas nossa mesinha estava lá. O problema é que eu não podia olhar para o homem, que é o próprio Mr. Bean, sem rir. Ainda mais que na correria para atender a todos, ele se esqueceu do degrau, tropeçou, esborrachou no chão, voou bandeja, prato pra todo lado... não consegui nem ajudar, de tanto que eu ria, disfarçada atrás do guardanapo.
O Mauricio estava mal humorado, não tinha gostado da sopa, acho que estava mesmo era com raiva de não ter ficado livre de nós, o tombo foi a gota d’água, levantou-se e foi comer em outro lugar. Azar o dele. Nós ficamos, a pobrezinha da esposa do Mr. Bean, D. Maria, explicou que a cozinheira tinha faltado, a Cris disse-lhe umas palavras de incentivo e permanecemos, eu, Cris e Paulo, o baiano. Ao final o Mr. Bean nos serviu uma espécie de licor, só que muito forte, que disse guardar para pessoas especiais (e muito resistentes a alcool também!).
Voltamos para o albergue. Mas confesso, não foi uma boa experiência dormir numa igreja. Passei a noite inteira dormindo e acordando, ouvindo vozes (não sei se daqui ou de lá), parecia que tinha gente andando o tempo todo... sei lá, como não sou católica, podia ser praga (rs)...
Só conseguia rezar para o dia amanhecer logo!

19 comentários:

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Menina teimosa, hein?
Não tá em falta com nada, muito menos comigo! Pensa que esqueci do fortíssimo apoio que me deste e até virou post?
Mas voltaste ao Caminho, se com problemas, ou não, voltaste e vamos ficar aqui curtindo suas andanças e a de seus amigos por muito tempo, tenho certeza, meu coração não se engana!
Aiiii, como eu ri com essa de dormir em Igreja. Sabe que já ouvi algo parecido? Uma espécie de superstição, mas com teu relato fidedigno, acho melhor acreditar...
Repouso, dona Kátia!
Te amo também, irmãzinha!!!Bjsss

lu barcelos disse...

Katita!
Voltou com tudo, né?!?!?
E a mão? Como vai?

Tenho lembrado tanto de vcs... Tem 1 semana e mei que escuto Oswaldo Montenegro todos os dias... saudade... num sei lidar com isso também não, e tô beeeem longe de diploma.

bjobjo

Jacinta Dantas disse...

Oi Kátia,
legal ver vc retomando, refazendo o trajeto das suas "aventuras", com direito a bandeja voando e caras e bocas do Maurício.
Que bom!
Beijo

Nadezhda disse...

É difícil se desapegar das coisas materias. Mas das relações humanas, é mais complicado ainda!

(Muitas vezes eu me pareço com o Mr. Bean)

;)

Eduardo Miguel disse...

- Nossas buscas mesmo que não queiramos são orientadas logo cedo em paradigmas que nada tem a ver com viver em felicidade, são orientações, cobranças, objetivos, metas e outros que nem sempre são os nossos, mas muitas vêzes é o que se tem, o que se faz, o que nem percebemos amarga abrigação fecundada em experiência que tenrra nos falta, mas vem a idade, a experiência as lembranças e as valiações com os reenquadramentos...
- É aí que mora o amargo da derrota ou o doce sabor da felicidade que sem cobranças com só caminhosalguns novos, diferentes e desafiadores como nunca se mostram e apontam o que e como, portanto relax, sem neuras e cobrança é aproveitar e ver valor nas mínimas coisas e o mais importante ficar longe ao máximo das coisas ruins...
- Não tem jeito a vida é feita dfe fases e a da experiência é a da conciência que se por um lado nos ilumina e facilita por outro nos obriga a posicionar, aceitar algumas, contestar outras tantas só parte do processo mas UFA!!! vida é de viver que se faz felicidade, feliz felicidade e escolhas, me desculpe por ser tão extenso mas como falar pouco com tantos assuntos que podem lançar mais luz em nossas vidas de desafios constantes? felicidades á você é o que desejo de coração, de um seu estranho físico e alma comum!

Layla Lauar disse...

e eu continuo minha viagem através das suas belas letras...

peço desculpas pela minha demora em vir aqui... mas vc sabe as razões.

agora é defintivo, me despedi do blog e do virtual, mas, claro, que vou telefonar procê antes de me ausentar do país.

espero que já esteja bem melhor...achei lindos os seus manacás e me deu uma baita saudade de quando morava numa casa rodeada por jardins...

obrigada pelas suas palavras carinhosas lá no meu canto... eu também te amo.

beijos querida, um ótimo fim de semana.

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Kátia, minha querida, também não tenho muito para acrescentar, mas te passarei o que penso por e-mail, tá bom assim?
E você? Tá se cuidando? Não nos deixe preocupados...
Gosto muito de você!!!Bjsss

Dry Neres disse...

Feliz com teu retorno! xD
Mais que emocionada com tua narrativa, bem como, com as palavras que voc~e me ofereceu em meu blog.. me ajudaram.. muito. Você não tem idéia do quanto!!
Só tenho a agradecer...
Meus beijos! :)

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Amiga, e-mail seguindo pra você; entrei em contato com ela e aguardo a resposta. Kátia, me compreenda, por favor, nem tudo pode ser dito aqui, desculpe!
Meu Carinho!!!

Paradoxos disse...

me perdoe as ausências em sua casa - blog - amiga - mil beijinhos meus!

Jardineiro de Plantão disse...

Mais uma bela crónica... mais uma etapa do caminho... então a frese "Complicado essa coisa de saudade...
venho tentando lidar com isso... mas ainda não consegui o diploma!"...

Oito um luxo... deve ser mesmo... kkk

Continuo a seu lado... na caminhada, pelos caminho de S.Tiago.

Abraços

Vivian disse...

...Katia linda,
tbm continuo caminhando contigo,
e torcendo pelo seu restabelecimento...

amei a propaganda do Dorflex....rss

bjussssssssss, sorte.

Tell Aragão disse...

e eis que o Maurício reapareceu hehehehe
espero que vc esteja melhor... estou aqui na torcida...
bjs

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Querida Kátia:
como está sentindo-se depois do seu pós-operatório? Está dando tudo certo? Quanto ao seu post nota 10, a gente tem vontade de reler, vou fazer isso em outro dia, porque os meus óculos de 6 graus se quebraram e estou usando o de 2. Fiz um post e o dediquei a você, por tudo o que vc me ajudou quando também tive de ser operada.
Bj, linda,
Renata

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Oi, amiga, tudo correndo bem?
Olha, já conversei com a Miriam e vou te passar o e-mail dela ainda hoje, só não o fiz no final da semana porque minha coluna me andou provocando e tive que dar umas saidinhas.
Um saudável início de semana!!!Bjsss

Betty Branco Martins disse...

.querida Kátia



mas que aventura!


deliciosamente contada:)




_______os barulhos nocturnos_______nas igrejas_____é algo que me atrai___ao ponto do fascínio:))







beijO_____C____carinhO
bSemana

Dual disse...

Olá gironzolavo entre os blogs e aqui estou a saudá-lo em suas férias uma!

mundo azul disse...

Como é bom vir aqui e ficar lendo as suas "aventuras"...

Penso que você jamais irá se esquecer desse tempo, não é?


Beijos de luz e o meu desejo sincero de que já esteja MUITO BEM!!!

Sergio disse...

....o bom no reencotro de amigos são as historias que cada um tem pra contar...mesmo que a despedida tenha sido dolorosa para um ou os dois...minah vida segue assim..cheia de encontros e desencontros...despedidas...amigos-irmãos que se afastaram com o tempo...que nao encontro há 25 anos..um casa amanhã, e nao poderei ir a seu casamento...mas mesmo assim nao esqueceu de me convidar...talvez um jeito de se sentir proximo