sexta-feira, 21 de novembro de 2008

DE LEÓN A VILLAR DE MAZARIFE


NO MEIO DO CAMINHO TINHA UMA ENCRUZILHADA,
TINHA UMA ENCRUZILHADA NO MEIO DO CAMINHO...


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Pelos nossos planos, meus e de Cristina, naquele dia iríamos até Villar de Mazarife, o que daria quase 22 km, uma boa distância, e lá ficaríamos, mesmo sabendo, de antemão, que o albergue era antigo e desconfortável.
Logo na saída de Leon, na Praça em frente a um hotel, tinha uma exposição de carros antigos e nós ficamos apreciando, que nem turista... muito lindo! Mesmo porque o Mauricio é apaixonado por carros.
Fazia frio. O termômetro na rua marcava 12 graus!
Logo chegamos a La Virgen del Camino e o termômetro já marcava 22 graus. Eu e o Mauricio paramos para fotografar uma das poucas igrejas modernas que encontramos por todo o Caminho, a Cris resolveu ir tomar um café.

La Virgen Del Camino - Igreja

Daqui a pouco, chega a Cris, estourando de rir: havia encontrado um ciclista alemão, de cabelos e barba brancos, muito simpático (na sua versão) que havia oferecido carona na sua bicicleta, mas que quando abriu a boca para rir não tinha um só dente que não fosse com cárie! Só não descobri, até hoje, em que língua eles conversaram!
Logo adiante, pelo guia, encontraríamos uma encruzilhada. Um caminho levava a Villar de Mazarife e o outro a Villadangos Del Páramo... e eis que surgem... tcham, tcham, tcham! os Três Patetas! Saímos correndo para escolher nosso caminho para eles não verem qual caminho tínhamos tomado e quem sabe, assim, escolherem outro. Corremos e nos escondemos atrás de uma moita... segurando o riso e rezando para eles irem pelo outro caminho... Nossa reza não teve a força necessária... eles seguiram o mesmo caminho que nós. Daí tivemos que ficar escondidos na moita até eles desaparecerem no caminho, pois como íamos explicar nossa aparição do nada? Milagre?


Caminho depois da moita (rs)

Parêntesis 1: O Bambi sempre levava um lencinho amarrado ao pescoço. Eu já sonhava em apertar esse lencinho até sufocá-lo, depois, como o Trovão Australiano ia ficar sem ação, mataria-o com as próprias mãos, o outro ia correr de medo e nunca mais aparecer! Esse era meu sonho secreto!

Diminuímos o ritmo para não ter que ouvi-los e seguimos em frente...

Parêntesis 2: A Cris havia me ensinado que Mantra é repetição, seja uma música, uma palavra, uma frase, que nos leva a um estado mental de tranqüilidade, de não pensamento, de mudança de comportamento. Naquele dia escolhi a palavra TOLERÂNCIA e passei o resto do caminho repetindo: tolerância, tolerância, tolerância...

Passamos por Oncina de La Valdoncina (que não tem nada), por Chozas de Abajo (que nada tem) e enfim chegamos a Villar de Mazarife. O albergue tem uma aparência horrorosa! Uma casa de dois andares, meio torta (de verdade!), velha, uma lástima! No entanto, Yolanda, a hospitaleira, nos recebeu tão bem, apesar dos colchões no chão, ela disponibilizou uma quarto só para nós! Pobrezinha, quase ninguém fica lá... e quem fica, fica por piedade, nós resolvemos ficar!


Villar de Mazarife - Albergue (é a casa tortinha, descascadinha, feinha...)

Mais uma vez Mauricio resolveu ir embora!
Isso já estava me dando nos nervos: Quer ir, vai! Adeus! E ele foi... E eu fiquei, não sem sofrimento, confesso agora, mas não demonstrei, nem tomei porre, só umas lágrimas insistiram em cair junto ao cair da noite...
Mas nem tudo era ruim: o guia dizia que era banho frio e no entanto já tinha água quenta, apesar da casa de banho ficar no jardim (rs)
Muitos peregrinos, desapegados e simples como nós, resolveram ficar ali. Assim reencontramos Marco, meu querido amigo, Pedro Grandão, Gisela, Ronaldo, Dulce, Rosa e Ângeles, Ingrid e outros...
Yolanda, com o maior carinho, cuidou das minhas bolhas e das da Gisela, enquanto disputávamos quem tinha mais bolhas e de quem era a maior. Eu tive que admitir, como disse a Gisela, só nisso a Argentina ganhava do Brasil! E todos em volta rindo das duas “estropeadas”!
Depois do banho, fui arrumar minhas coisas e eis que encontro na minha mochila os óculos do Mauricio.

Parêntesis 3: Nós tínhamos o hábito de um guardar as coisas de uso freqüente na parte de cima da mochila do outro, assim não tínhamos que abaixar a mochila para pegar, era só o outro parar e pronto! O Mauricio, assim como eu, tinha dois óculos de grau, um normal e um com lentes escuras, e o normal ficou comigo.

Fiz de tudo para mandar o óculos para ele. Tentei telefonar para o albergue da cidade próxima, não consegui, não tinha telefone. Tentei mandar por outro peregrino confiável, mas já não tinha mais peregrinos naquela hora... tentei ver se algum motorista de táxi ia para lá, mas nem táxi tinha na cidade... Bom, apesar de aborrecida, minha consciência estava tranqüila.
Lembro que fiquei muito preocupada e perguntei a Cris o que ela achava de isso tudo: da minha identificação com Mauricio (parecia que eu o conhecia a vida toda), da sua partida repentina, das tentativas de se separar da gente (que ele tinha todo o direito), do fato de eu me sentir meio perdida sem ele como se ele fizesse parte do meu caminho. Daí a Cris tirou um livrinho do Novo Testamento e me mandou abrir ao acaso... Li um salmo (que não me lembro qual) mas que dizia sobre paciência e tempo e isso me tranqüilizou.
Naquela noite fez calor... as pessoas resolveram colocar seus colchões na varanda interna que circundava a casa...
Eu e Cris não abrimos mão do “nosso quarto”.

15 comentários:

lu barcelos disse...

Ai, Lindinho Fujão!!!!

hehehehe


bjobjo a todos!

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Kátia, assim não dá! Você me faz chorar com a Igrejinha do nosso Chico e depois tenho que ter coerência?
Ai, ai, ai, vocês não deram moleza para os "patetas", hein? O alemão com a boquinha horrorosaaaa...ah! Mas a casa "tortinha" até que é muito legal, vocês são muito exigentes, imagina se vissem a minha? Hahahahha
Estudei em colégio Franciscano e tenho pena até de mosca se afogando em poça d'água, pode? Quantas eu não salvei...
Sabe, a História Oculta do Chico é mais interessante que a oficial, muito Especial esse moço que partiu com 44 aninhos...NOSSO MANINHO, FALA COM ELE, FALA!!!Bjs

Viúva disse...

hahahahah "passei o resto do caminho repetindo: tolerância, tolerância, tolerância..."

Lizzie disse...

Diante do calor, é realmente melhor dormir na varanda.
Aquela foto em que parece uma "Casa velha" me lembra Saint Malo. Nunca fui por lá, mas as fotos me encantam!!!


Beijocas,
Lindo final de semana!!!
www.lizziepohlmann.com

CiganaVioleta disse...

Show!Show! Show!

Acho que a cigana é você..êta mulher que perambula por este mundão de Deus!

kkkkkkk

Vivian disse...

...Kátia linda,
adoro quando a encontro lá em casa
e sempre com palavras tão carinhosas...

ando sem tempo de me dedicar
a todos os amigos, mas meu coração
com certeza viaja com todos vocês.

um bj, amore!

Pelos caminhos da vida. disse...

Vim agradecer sua simpática visita,obrigada retorne mais vezes será uma honra te receber.

Fim de semana de luz.

beijooo.

Betty Branco Martins disse...

.querida______Kátia



como eu me "divirto" nas suas viagens______aliás. viajar contigo__________é




o




MÁXIMO!!!:))




(excelente narrativa)






beijO______C_____CarinhO
bFsemana

Círculo Literário disse...

Olá!!!Tudo bom Kátia??
Mais uma excelente postagem ... é sempre bom descobrir coisas novas por aqui!!!
Agradecemos sua visita , e é grande nossa alegria por ter seus comentários!!!
Grande Abraço!!

Nadezhda disse...

E em que línguas os peregrinos conversam?

;)

ex-controlador de tráfego aéreo disse...

Oi Kátia!

Voltei e me diverti muito com sua narrativa bem humorada de suas andanças e peregrinações.

Um beijo!!!

paula barros disse...

Se eu ficasse repetindo tolerância, tolerância...eu esganava alguém no final.

Ah, preciso de tolerância e paciência com algumas coisas. Vou tentar fazer minha caminhada pelos amigos que torram minha tolerância e paciência.

Preciso me lembrar disso, e pisar um pé no outro para doer e me lembrar das suas bolhas. Vou conseguir.


abraços

Deusa Odoyá disse...

Olá amiga!
Cade o Maurício sumiuuuuuuuuu.
Que amigo é esse?
Beijos.
Uma semana iluminada por Deus.
Sua amiga brincalhona.
Regina Coeli.

Jardineiro de Plantão disse...

Essa técnica da repetição da palavra não conhecia...mas que palavra logo arranjou para repetir pelo santo dia... cansativa mesmo... resultou?

Excelente postagem com uma descrição maravilhosa.

Carlos

Sergio disse...

..Só veremos as respostas depois que a pergunta terminar de ser feita...quem nao vai a turismo, vai procurar algo mesmo que seja no caminho aventureiro...e quem vai a turismo perde a grande chance de se conhecer melhor e aprender com os outros