domingo, 14 de setembro de 2008

PARTINDO DE NAVARRETE, RUMO A AZOFRA


Caminho Navarrete - Nájera


Parêntesis 1
O que estava camuflado
Se declarou, enfim
Aliaram-se o Destino e o Tempo
E lutam, diariamente, contra mim.

Saímos cedo, eu e a Cris, o Maurício ficou para trás “arrumando o inconsciente”.

Parêntesis 2 – Toda vez que ele estava meio confuso, ele tirava tudo, tudo mesmo, de dentro da mochila, dispunha sobre a cama, ficava em pé olhando, olhando, até, depois de uma eternidade, voltar com tudo para dentro da mochila. Mas como nada é estranho no Caminho, apelidamos de “arrumar o inconsciente”.

Como seria uma caminhada tranqüila (só 21,9 km, rs), resolvemos ir com calma, mesmo porque meus pés estavam em petição de miséria! Mesmo que quisesse, não conseguiria impor um ritmo mais pesado, meu corpo não suportaria.
Quando chegamos a Nájera, meus pés pediam descanso, cuidado. Então, sentamos num banco da praça, tiramos as botas (e a Cris seguia com a sua Azálea, sem bolhas, quanta inveja! É verdade que ela já trazia umas três unhas roxas!) e fomos cuidar dos nossos pés.
É impressionante como a gente se desprende dos nossos preconceitos quando estamos no Caminho. Numa situação “normal” eu jamais ousaria tirar sequer os sapatos em público, quanto mais abrir a mochila, sacar tesourinha, linha, agulha, remédio, etc. e colocar os pés para cima e tratá-los. Fiquei pensando nas infinitas vezes que devo ter presenciado uma cena parecida e ter julgado imprópria, sem, ao menos, considerar as necessidades, as dores, os motivos da pessoa em questão. Este quesito, de me colocar no lugar do outro antes de tecer um “pré-julgamento”, acho que foi uma das lições mais bem aprendidas. Às vezes é bom estar do outro lado da moeda!
Quando chegamos a Azofra, o Mauricio já havia chegado (deve ter passado por nós quando estávamos em Nájera e teve vergonha de parar! Rs)
Eu esperava ser recebida por Maria Tobia, outra personagem lendária do Caminho. Alma iluminada que cuida de todos e sobre quem já havia lido bastante. Porém fomos recebidas pelo Daniel. Achamos que ele era o hospitaleiro de plantão. Acomodamo-nos; o albergue é muito simples, a cidade minúscula, só tem uma vendinha, uma rua, um restaurante, uma igreja, tudo um...

Azofra - Altar-Mor da Igreja

Mais tarde ficamos sabendo que o Daniel era o Peregrino que havia ficado perdido em uma nevasca no ano anterior. Vimos os recortes de jornal que dizia ser mais um milagre de Santiago sua sobrevivência, encontrado quase morto por um morador local, perdido na trilha. Ele havia retornado a Azofra para terminar de escrever um livro narrando sua história e estava trabalhando como voluntário no albergue.
Mais tarde chegou Maria Tobia! Fizemos a maior farra! Ela dizia a todo instante que adora os brasileiros, etc e tal. Mauricio e Cristina, depois dos afazeres diários (lavar roupa, fazer compras, almoçar, etc) insistiram para que eu escrevesse alguma coisa especial (como se eu tivesse botãozinho liga-desliga) para a Maria Tobia!
Resolvemos comer no próprio albergue, no jantar. Daí chegaram os franceses folgados e barulhentos e quase não sobra espaço para mais ninguém... a duras penas conseguimos conquistar um cantinho da mesa, onde jantamos sopa, pão com patê e vinho.

Parêntesis 3 – Não é porque a gente resolve fazer o Caminho de Santiago que como num passe de mágica, de um dia para o outro, todos nos transformamos em anjos. Levamos conosco nossas más tendências, mas a maioria leva, também, a disposição de aproveitar esse momento de reflexão, de introspecção, para vencer essas más tendências. Mas tem gente que nem que se desse a volta ao mundo a pé resolveria. É o caso desses franceses que acham que o mundo foi feito para eles. É o caso da maioria dos brasileiros que descobriram, à época, uma maneira de fazer turismo barato na Espanha, então, tudo neles era demais: falavam demais, alto demais, sem noção demais, intrometidos demais, oferecidos demais, tudo demais... desses procurávamos distância! Havia também a questão da simpatia e antipatia, na maioria das vezes, gratuita, porque como não conhecia a pessoa como justificar o fato de gostar ou não dela? O caso mais gritante foi de dois australianos, o primeiro, o Bambi (um gay, mas eu não sou preconceituosa, mas o apelido é porque ele era alto, magro e andava como uma gazela) que falava fininho como uma vitrola fora de rotação e seu companheiro, que tinha e voz e a gargalhada mais irritantes do mundo... eles ainda vão aparecer muito por aqui... eu estava mesmo cheia de pecados a pagar!

Pois é, reencontramos a Micheline e o Orlando, aquele casalzinho que o Mauricio defendeu na fila em Navarrete. Ela parece uma “bonequinha de porcelana” – na linguagem da Cris – e conversamos por um bom tempo.
Escrevi uns versos para a Maria Tobia e acabou o dia.

Anos depois, ajudei um amigo nos preparativos para o Caminho. Então pedi a ele - Aramiz Bussular - que quando passasse por Azofra desse um forte abraço na Maria e dissesse que era por mim. Ele narra em seu livro o quão foi emocionante esse encontro, e mais ainda, ler no caderno os versos que deixamos anos antes e que ela guarda com o maior carinho.
Assim é o Caminho!

Parêntesis 4 – Tem pouca foto porque a dor era tanta que não tinha ânimo nem para fotografar!

P.S. Deixo um abraço para a Cristina Bernardo que veio visitar-me mas não deixou link

18 comentários:

Deusa Odoyá disse...

Olá minha estimada e doce amiga.
Continuo viajando com vc.
Olha não entendi bem sua mensagem, me diga aonde eu possa entrar para ver a sua poesia.
Abraços e um bom domingo de muita paz e amor.
Beijos amiga, e cuidado com suas escaladas, viuuuuuuuuuuuu.

Fique na paz.

Regina Coeli.

mundo azul disse...

Querida Katia...Que incrível!

É mesmo, apesar das intenções serem as melhores possíveis, não conseguimos abandonar do dia para a noite, os nossos venenos mentais...Acabamos julgando e rotulando as pessoas que não são da nossa simpatia!
Mas, o que vale é a intenção...
Adoro vir ler sobre essa viagem maravilhosa!
Estava com saudades de você...

Beijos de luz e uma semana especial!!!

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Kátia, você não sabe...Mas eu estava lá, invisível, inconscientemente, espiritualmente, como quiserem chamar, mas estava! A cada relato que fazes, sinto-me ali, por perto, observando ou sorrindo. Quantos Afetos, quantos Amigos, conhhecidos e antipatias também, por que não? Somos imperfeitos, estamos em evolução. A única coisa que não admito num relacionamento é a traição gratuita, a mentira e a calúnia deslavadas (e é o que existe numa considerável quantidade). Fotos? Mas essa que aí está vale por 1000!!!
Olhe, não se deixe por trabalhos domésticos, você não sabe que eles nunca acabam numa casa? Meu armário está ali me pedindo:" - Me arruma! " Ele que espere, como no poema de Fernando Pessoa: " Amanhã...Ou, depois de amanhã".
Obrigada por mais essa viagem, Amiga! Ótimo domingo e com tudo em cima, hein?Rssss...Bjssss

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Frase incompleta: não se deixe aborecer pelos trabalhos domésticos...Mas eu tinha que "errar" nessa. Jesus, no encontro com Marta e Maria, quando uma das duas se queixou da outra por não trabalhar, Ele a repreendeu dizendo que essas coisas eram passageiras, mas que a Presença Dele é que importava NAQUELE MOMENTO QUE SE ETERNIZOU...Fique com Deus!!!

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

hahahaha...ABORRECER...Tô danada hoje!!!

Nadezhda disse...

Pessoas oportunistas e folgadas vamos encontrar em todos os lugares. Mas podemos sempre aprender um pouco com elas. (A não ser desse jeito, pelo menos).

Vou te linkar no meu blog também ;)

O Seu Livre Arbítrio disse...

Olá,
Que bom que comprou a TV, fico feliz.

Sobre as paraolimpíadas, acho que eles merecem o reconhecimento.

Sabe que parece que ''estou viajando'', só por acompanhar suas postagens sobre a viagem?!

Hehe... Muito legal!

Bjossss!
Boa semana!!!

Ilaine disse...

Que bom que nos encontramos, Kátia!
Obrigada por tão lindas palavras lá no baú. Fiquei imensamente feliz!

Seu blog está na minha lista.

Beijo

Dry Neres disse...

Eu entendo tua ausência.. não existe cobrança quando se tem admiração.. :)
Querida, fiquei encantada antes desse texto, com teu poema "Desconhecido":

"Você que veio a esse mundo
Destinado a me encontrar,
Não se apresse, não se preocupe
Eu sei esperar".

Fantástico simplesmente!!
Foi um presente tê-lo lido, bem como, "presenciar" mais uma aventura tua..
Doce beijo.

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Kátia:
Por favor, já que você viaja tanto, faça mais uma viagem ao meu post para mostrar-me solidariedade pelas calúnias que sofri e que, pelo estou vendo, é de um pessoa muito íntima sua. Mas vc sempre disse que seria minha amiga, lembra-se? Portanto, vá. Por favor.
Renata
wwwrenatacordeiro.blogspot.com
Não tenho tapete mágico, nem sei fazer telepatia, por isso nunca viajei com vc.

paula barros disse...

Kátia, gosto de vir com tempo, ler, imaginar a caminhada, sentir, e tentar tirar lições da sua caminhada. Saiu daqui com algumas lições e com os pés sem bolhas.
Claro que a caminhada, com o objetivo do auto-conhecimento deve ser uma experiência fantástica.
Interessante a passagem da mochila e o nome que vocês deram. Acredito sim que o inconsciente nos faz ter determinados atos.
Tenho vontade de fazer essas caminhadas.
Já me desprendi de algumas coisas, essa do sapato para mim não é problema. Meu problema é mais interno e profundo, e dá um trabalho.
abraços

O Profeta disse...

Que bonita odisseia...


Doce beijo

Karine Leão disse...

Kátia,

Desapegar-se de preconceitos é o caminho que todos nós devíamos percorrer.

Beijo Karinhoso e desejo de uma excelente semana!

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

São 3 horas da manhã. Mas como as coisas se acalmaram, fiz um post sobre um filme que todo mundo no mundo já viu e sempre vê de novo. Tirei aquele monte de flores e só deixei as do João. Esta postagem dá para ser bem apreciada.
Um abraço,
Renata
wwwrenatacordeiro.blogspot.com
Desculpe-me, Kátia, fiz uma confusão, vc já havia estado em meu Blog. Perdão,

Jardineiro de Plantão disse...

Cara amiga, mais uma vez me encontro junto a si, percorrendo esses caminhos. Um relato fantástico, que tento seguir, sem nada perder.

Abraço de um amigo caminhante.
Carlos

instantes e momentos disse...

muito, muito bom. Me faz bem vir aqui.
Tenha uma bela tarde.
maurizio

Deusa Odoyá disse...

Olá minha doce e estimada amiga sumida.
Ainda não arrumastes empregada?
Nossa, como deves estar cansada.
Passei para lhe desejar uma semana com muita paz e amor em seus caminhos.
Apareça viuuuuuu
beijos da amiga .

Regina Coeli.

Sergio disse...

...aprrndi a não viver a vida dos outros...ter antipoatina por alguem requer um seguimento no rastro da vida daquela pessoa...tento evitar isso...

Acho que um livro seria algo apropriado para mim...como voce, passar o que aprendi..

Uma das coisas que mais gosto é fotografia, ainda noa tenho a máquina que me acompanhará, mas logo a terei...tenho uam filmadora Panasonic Palmcoder IQ, fora de mora, mas pequena, leve e eficiente...é provavel que ela seguirá comigo..inclusive guardo algumas fitas TC30, virgens, para caso na época não existir mais.