segunda-feira, 28 de julho de 2008

DE SAINT-JEAN A RONCESVALLES – CADÊ OS PIRINEUS?

Perdida na névoa dos Pirineus

Ao nos prepararmos para sair de Saint-Jean, Maurício deu uma olhadela de soslaio e deve ter pensado: - Meu Deus! Elas não agüentam nem 5 km!
Também, eu só tinha colocado a mochila nas costas para ver se servia e para posar nas fotos da saída. Achava que carregar 10 quilos seria moleza: - São só dois pacotes de arroz!
A Cris tinha ganho um tênis daqueles que só faltavam falar, com amortecedor de um lado, bolha do outro, suspensão na frente, etc. e logo que começou a treinar com ele teve um problema no joelho e jurou que era por causa do tênis, daí decidiu ir de Azaléia (rs).
Então, lá estávamos nós duas! O que tínhamos era vontade. O resto estava tudo errado. A mochila estava amarrada errada, o tênis era errado, tudo, na visão do Maurício estava errado, inclusive o fato de ele ter caído na nossa conversa. Mas como não havia como voltar atrás, lá fomos nós para os 28 km que nos aguardavam naquele dia.
Parêntesis 1 – No Guia do Peregrino eles definem o grau de dificuldade da trilha, em cada percurso, com 1, 2 ou 3 botinhas, que deveriam significar fácil, médio e difícil. Com o tempo vim a descobrir que a significação verdadeira é difícil, quase impossível, insuportável. Naquele primeiro dia, eram 3 botinhas!
Logo na saída, depois do perrengue com o francês e da possibilidade de passarmos fome (o que se concretizou, inevitavelmente) ainda enfrentamos o frio, a chuva e uma neblina que insistia em nos acompanhar. Pareciam aquelas nuvenzinhas que ficam sobre as cabeças dos personagens de história em quadrinhos. Mas eu pensava e, para não deixar o Maurício muito triste, dizia: - Logo, logo esse nevoeiro vai dissipar e você vai ver a vista mais linda da sua vida.
Caminhamos, caminhamos, caminhamos... nada. Para não dizer que não tinha nada, foi lá, nos Pirineus, que ouvi pela primeira vez o som de um Cuco que não fosse aqueles de relógio.
Nada de nada mesmo. A neblina não sumia, não víamos um palmo à frente do nariz, os 10 quilos transformaram-se em 100...
Naquele momento tive vontade de morrer. Para falar a verdade, naquele dia tive, por diversas vezes, duas vontades que me acompanharam: matar e morrer.
Já tínhamos andado umas 6 horas, comido o escasso lanche, quando, entre o nada e o coisa nenhuma, ouvimos um assovio. Primeiro bem longe, achei que fosse um pássaro, depois foi se aproximando... e eis que surge um grupo de peregrinos 5 estrelas!
Parêntesis 2 – Peregrinos 5 estrelas são aqueles que só querem ter a Compostelana (certificado que se recebe ao final da jornada) para pendurar na parede ou para aparecer na Caras. Eles caminham e não carregam nem a água que tomam. Têm gente para carregar tudo, carro de apoio, guia e ainda dormem em hotel.
O guia era um espanhol (eu acho, já faz tanto tempo e eu não tenho nada escrito, trago tudo de memória!) que falava português, de nome Alberto, que assoviava feliz! Uma felicidade irritante! Perguntei-lhe se faltava muito. Ele disse que não, que mais uma hora de caminhada chegaríamos! E lá se foi, a passos largos, seguido daqueles pseudo-peregrinos.
Foi a mentira mais piedosa que ouvi durante minha Caminhada.
Sei que andamos o dia inteiro. Não vimos p... nenhuma dos Pirineus. E eu pensei seriamente em desistir.
Lá pelas 5 da tarde, depois de mais de 10 horas de caminhada, chegamos a Roncesvalles. Minha exaustão estava estampada no meu rosto. Eu não agüentava dar nem mais um passo. Fizemos o registro e a “hospitaleira”, muito educada, me perguntou o que eu tinha, foi a deixa, comecei a chorar e disse que estava exausta; achei que ela me confortaria, diria palavras amenas. Ela, que nem oficial nazista, me olhou bem nos olhos e disse: - Está aqui porque quer. Ainda é hora de desistir! Ninguém está te obrigando.
Gente, juro que não matei a mulher porque ainda não tinha comprado meu cajado. Porque se estou com ele eu tinha dado na cabeça dela até não sobrar nem um fio de cabelo.
Como prêmio ela me colocou no último andar do prédio, que só tem escadas!
Parêntesis 3 – Quando estávamos fazendo a nossa pseudo-preparação, eu falava para a Cris, só tenho medo de 3 coisas: passar fome, tomar banho frio (odeio!) e comer peixe (detesto!).
Nesta confusão da chegada eu perdi o Maurício e a Cris de vista.
Cheguei lá em cima, coloquei minha mochila na cama, a cara vermelha e inchada de tanto chorar, peguei minhas coisas e fui tomar banho.
Sabe banheiro de internato? Aquele monte de portinha? Era assim. Entrei numa delas, olhei e tinha duas torneiras. Abri a primeira: água fria, esperei um tempo, continuava fria. Fechei e abri a segunda, água gelada, esperei, continuava gelada. Nisso eu já nem chorava mais, faltava força. Enfrentei um banho frio, num frio de rachar. Saí do banheiro roxa, tremendo e chorando outra vez, de ódio da mulher!
Nisso encontro a Cris:
- Kátia! Você está roxa!
- Claro! Acabo de tomar banho gelado nesta m... de lugar!
- Você viu um botãozinho do lado da torneira?
- Vi. Por quê?
- Era só apertar que saía água quente!
Daí eu chorei mais ainda, de ódio de mim!
Mudei a roupa e pensei: Agora eu vou comer!
Desci, comprei o tal do “vale” para o jantar e encaminhei-me para o restaurante. Fui barrada na porta! Comida só depois da missa!
*&=+%$, nem católica eu sou e vou ter que ficar com fome por causa de uma missa!
Gente, devo confessar que a missa é linda. É a missa que abençoa os peregrinos para a caminhada, toda em canto gregoriano, e eles ainda dizem a prece no idioma dos peregrinos presentes!
Acabada a missa corremos para o refeitório.
Comida, tchan, tchan, tchan!!!!!
Sentamos e eles colocaram uma cestinha com pão. Fui logo comendo e roubando uns dois pedaços que escondi na pochete (meu bat cinto) para comer no dia seguinte.
Aí veio o primeiro prato: Uma água amarelada com umas bolinhas, parecendo isopor, flutuando... eu imaginei a sopa da minha mãe, fechei os olhos e tomei a água todinha.
Segundo prato: Truta! Tentei argumentar: não daria para eu comer um ovo. A filhote da nazista hospitaleira respondeu: é truta ou truta!
E eu comi a truta!
Resumo dos primeiros 28 quilômetros: No primeiro dia enfrentei todos os meus medos: passei fome, tomei banho frio e comi peixe. O que viesse dali em diante seria lucro!

Preciso registrar a manifestação do Mauricio:
Olá, Eu sou o Mauricio amigo de caminhada e coração da Katia e Cris.

Sim , elas são doidas e acredito que deveriam ser presas por formação de quadrilha.

Puts, eu só queria rachar a conta do táxi.

A verdade é que na “magia” do caminho acabei embarcando numa maravilhosa história que estará sempre presente comigo. Obs : não sou do tipo machão, e caí no conto que as duas me passaram para ir para França. (Ainda bem)

11 comentários:

ROSA E OLIVIER disse...

"Desde mi ventana,
campo de Baeza,
a la luna clara!"

António Machado, nasc. 25/7/1875, Sevilla...para ti...peregrina do amor...

Lu Barcelos disse...

definitivamente, histórias pra vida toda!

O Sibarita disse...

Ô foi assim dona moça? kkk

Aina bem que você não machão! kkk

Bela aventura hein? Essa coisas assim nos marcam e são sempre lembradas com muito amor e carinho.

Oi o último texto a festa do Sibarita já esta lá e vc também! kkkk Leia!

bjs
O Sibarita

O Sibarita disse...

Ô foi assim dona moça? kkk

Aina bem que você não machão! kkk

Bela aventura hein? Essa coisas assim nos marcam e são sempre lembradas com muito amor e carinho.

Oi o último texto a festa do Sibarita já esta lá e vc também! kkkk Leia!

bjs
O Sibarita

Tell Aragão disse...

gente... e você ainda acha que a viagem foi boa? tô ficando preocupada com isso kkkk
olha, o melhor tempero é a fome... a gente come até pedra...
agora, o Maurício, hein? é um herói...

Florescer disse...

É Kátia,
enquanto escutava sua narrativa, meu pensamento passeava pelo caminhar do Maurício. Fico aqui imaginando esse companheiro partilhando as "loucuras" do caminho com duas mulheres.
Beijos
Jacinta

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Karla, vc é simplesmente doida!
Fiz novo post hj, acho que vc não viu o filme.
Apareça por aqui:
wwwrenatacordeiro.blogspot.com
não há ponto depois de www
Um beijo,
Renata

instantes e momentos disse...

Quem me dera estar perdido assim....
Maurizio

Anônimo disse...

Vir aqui já se tornou um hábito mais que saudável.
Vc consegue colocar a gente na maior curiosidade.
Caramba!!! Conta mais.
Bjo
ha, ha, ha...ainda anônima!!!!!!!
K.C.

Jânio Dias disse...

Aventura... Ventura.

Delícia de relato!

Sergio disse...

rsrssrs..sei que foi tenebroso pra vc...mas eu to morrendo de rir de tudo...do seu jeito de contar

Até que nao temo muito algumas coisas como cansaço...procuro me manter em forma ja pra isso mesmo..depois penso em intensificar..mas meu proprio trabalho vai me ajudar muito

..segredo..várias barras de chocolate