segunda-feira, 11 de agosto de 2008

MAS VOLTEMOS AO CAMINHO!

Chegada a Pamplona - Fortificação Romana (75 a.C.)

Foi difícil sair de Trinidad de Arre! É um ambiente tão prazeroso que dá vontade de ir ficando, ficando... mas, por fim, saímos e atravessamos Villava.

Fica pertinho de Pamplona (para quem está de carro, claro!), são 4,6 km., então chegamos relativamente logo, a tempo de fazer um bom lanche de café da manhã sentados na porta de um bistrô!

Pamplona é uma cidade linda, apesar de grande, muito limpa e acolhedora. Todos foram muito atenciosos, mostrando-nos a direção certa quando errávamos e indicando-nos onde encontrar o que procurávamos.

Foi nosso “Primeiro Caminho Urbano”! A gente chega por uma ponte românica e atravessa por fortificações que datam de 75 a.C., passamos por construções milenares fantásticas. Visitamos a Catedral “Românica”, porém que da parte românica propriamente dirá só têm alguns vestígios, mas tem os túmulos, bem no centro da nave principal, de Carlos III e sua esposa Leonor de Trastámara, em estilo gótico. Interessante é que em uma torre tem um relógio comum e na outra um relógio de sol.

Pamplona - Catedral

Em Pamplona comprei uma joelheira para poder devolver a da Cristina, mas errei no tamanho, resultado? Cristina seguiu sem a dela!

Depois de atravessar toda a cidade, literalmente, conseguimos encontrar a porta de saída e retomar o Caminho (não sem antes nos perdermos várias vezes - rs).

Logo depois de Pamplona é que se encontra o famoso “Alto del Perdón”, o primeiro grande morro que teríamos que enfrentar. Dizem que assim se chama porque para subir se paga todos os pecados. Eu digo que os pecados maiores ficam para a gente pagar na descida...

Subida do Morro do Perdão vendo Pamplona ao fundo

É uma vista maravilhosa, não importa para que lado você olhe. Se para trás, avista toda Pamplona no seu esplendor, se adiante o Morro do Perdão e seus moinhos de vento (apesar de não moer nada!), se para os lados a vegetação multicolorida...

No alto, além de uma ermida dedicada a “La Virgen del Perdón”, tem um monumento aos peregrinos cuja legenda não poderia ser mais apropriada: “Donde se cruza el Camino del viento com el de las estrellas”.

Alto del Perdón - Monumento ao Peregrino

Descansamos e empreendemos a descida. Pedras soltas. Atenção redobrada, força extra para manter o equilíbrio, aqui sim, se paga todos os pecados, inclusive os que ainda iríamos cometer!

Dezesseis quilômetros e seiscentos metros depois chegamos a Uterga!

Eu havia lido (foram tantos os livros que não me lembro qual!) que nesse povoado, apesar de não ter albergue, pois fica muito próximo de Puente La Reina, algumas pessoas abrigam peregrinos, então eu tinha a indicação de uma casa que fazia isso.

Nós chamamos, fomos atendidos por uma jovem senhora e duas crianças, que disse que éramos benvindos, nos alojou numa suíte no térreo do sobrado (seu esposo é médico e tem seu consultório ali também) e nos explicou que, como a cidade estava em festa, eles teriam que sair, mas que não havia problema, ela nos daria as chaves da sua casa e depois, no dia seguinte, deixaríamos no lugar combinado (não sei nem o nome deles!).

Eu fiquei “passada”! Foi uma prova tão grande de desprendimento, de confiança, que na hora eu fiquei envergonhada em achar que eu realmente fazia alguma coisa pelos outros. Mal sabia que era só o começo de uma grande lição!

Tomamos banho (quente!), colocamos roupa limpa e fomos procurar uma lanchonete.

Fomos atendidos por uma senhora muito simpática, que não media esforços em atender a cada um no que realmente queria comer. Lembro que tomamos sopa, comi tomate (dá-lhe Kátia!), pão recheado com omelete (viria ser “nosso prato” = bocadillo de tortilla), cola-cola, café, vinho tudo regado com muito carinho. Enquanto comíamos chegou outro peregrino e começou a ler um papel onde contava a história de Doña Blanca, a senhora que nos servia. Ela serve comida a todos os peregrinos, de graça. Leram bem, DE GRAÇA! Quem pode, e quer, deixa uma contribuição para quem não pode. E tem mais, aqueles que não têm onde dormir, ou se machucaram no Morro do Perdão, ela acolhe e cuida até que estejam prontos para seguir adiante. Tudo feito com tanto amor e carinho, desde as rosas frescas sobre a mesa, a cesta de frutas, a comida de-li-ci-o-sa, a atenção capaz de emocionar o coração mais fechado.

Deixamos uma colaboração cada um, mas levamos conosco muito mais. Exemplo de abnegação, de amor ao próximo, de caridade ao extremo.

Foi em casa de D. Blanca que conhecemos Pepe, peregrino que já percorreu o Caminho mais de quinze vezes e ajuda quem está em dificuldade. Chegava com duas brasileiras que haviam se machucado na descida do Perdão e deixava-as aos cuidados de D. Blanca.

Mas como nem tudo é perfeito (já dizia a raposa do Pequeno Príncipe), a tal festa da cidade, lembram? O palanque ficava próximo da casa que nos hospedava, música alta a noite inteira, ninguém conseguiu dormir... quase que saímos de madrugada.

Mas esperamos o dia clarear...

Vista do Alto del Perdón - Uterga é o pequenino povoado abaixo (com boa vontade enxerga!)



9 comentários:

Lu Barcelos disse...

Adorei as fotos!

Beijo pros três peLegrinos!



bjobjo

INCANTATUS disse...

Querida amiga,

Gostaria de saber pq estou tão chorona...Não sei se por conta do meu atual momento, da sua narrativa (q nos prende), ou se esta vontade louca de colocar a mochila nas costas...
Uma coisa tenho certeza: vou aprender bastante aqui. Com certeza sua narrativa é pra mim (que seus outros leitores me perdoem).
(aqui uma pausa muito gde, cortada por suspiros, pra pensar, amadurecer, ponderar...)

Estou entrando em forma (põe ferrugem nesta morada da minha alma) pra poder te chamar pra uma "caminhada". Vai pensando no caso.

Tenho propostas, sim. Inclusive de outra expo. Estou com mil idéias na cabeça, restando apenas colocar a mão "no barro".

Bjo

Tell Aragão disse...

gente...
acho que preciso fazer esse caminho pra aprender algums coisinhas... é muita abnegação e muito altruísmo desse povo...
me lembra, um pouco, o sertanejo...
bjs

Camila Colossi disse...

tah muitoooo boom \o =]



http://imensidadx3.blogspot.com/

João Videira Santos disse...

...E Portugal aqui, na margem ocidental dos caminhos a desbravar...

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Kátia:
Eu a admiro, pois é corajosa, mas também a julgo meio doida! Querida, tive que fazer outro post, pois aquele me trouxe um azar que vc nem imagina. Este é sobre um cult movie, dirigido pelo Nicolas Cage, com James Franco no papel principal. Passou despercebido no Brasil, talvez tenha feito sucesso na Europa, não sei. Apareça por aqui:
wwwrenatacordeiro.blogspot.com
Um abraço,
Renata Cordeiro

Nadezhda disse...

Já disse que os lugares são lindos, mas nunca é demais lembrar!

O pior de toda caminhada é a descida. Sempre achei isso também.

E em poucos lugares há pessoas dispostas a ajudar e a confiar. Mas ainda bem que elas ainda existem ;)

Deusa Odoyá disse...

Oi amiga.
Estou adorando viajar com vc. Pamplona é linda.

Beijos e um bom final de semana com muita estrelinhas em seu cantinho.

Sergio disse...

..Como cada dia é um aprendizado, sei que aprenderei muito ...e talvez ensine muito...acho que a sensação que eu tenho é a mesma sua...eu tenho que fazer esse caminho....parece fazer parte da minah vida